Artigos, Pe. Bendito Mazeti › 19/06/2015

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO B – 21 de junho de 2015

Leituras

Jó 38,1.8-11. Aqui cessa a arrogância de tuas ondas?
Salmo 106,23-26.28-31. Agradeçam ao Senhor por seu amor.
2Coríntios 5,14-17. Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.
Marcos 4,35-41. Ainda não tende fé?

“VAMOS PARA A OUTRA MARGEM”

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1-PONTO DE PARTIDA

Hoje é o domingo da tempestade acalmada. Experimentamos o sabor da ressurreição ao celebrar neste domingo a Páscoa de Jesus. Hoje ele se revela Senhor das forças da natureza, acalmando a tempestade. Sua Páscoa se prolonga em nossa vida e na vida de tantas pessoas que, no meio das dificuldades e carências do dia-a-dia, permanecem firmes e confiantes em Deus.

Vivemos num mar tempestuoso e nossa vida sempre corre todo tipo de perigo. Nesta celebração, ao fazer memória da ressurreição de Jesus, o Pai nos leva a passar do medo a uma atitude de confiança, renovando nossa fé em sua presença permanente. Ele conduz amorosamente nossa história, mesmo quando nosso frágil barquinho é ameaçado por constantes e avassaladoras tempestades.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Primeira leitura – Jó 38,1.8-11. Deus revela-se e responde a Jó “do meio da tempestade”. A leitura de hoje cita aquela parte da obra da criação que descreve como Deus domina as forças da água. Nos mitos orientais e ainda na religiosidade popular do tempo e do ambiente de Jesus, estas forças representariam os poderes do inferno (cf. Provérbios 8,27-29; Jeremias 5,22; Jó 7,12; 9,13; 26,12; Marcos 4,35-40: e leitura do Evangelho de hoje). O autor quer dizer: se toda a obra divina da criação é, em última análise, obra de salvação, por mais misteriosa que seja, então a pessoa humana, um ser pequeno dentro do universo criado, não tem motivo para desesperar-se, nem para reclamar e menos ainda para cair em um fatalismo de “Deus quer assim”.

Deus convida Jó a lembrar da criação, de modo especial, da criação dos mares. É feita, aqui, referencia às antigas tradições cosmogônicas, para salientar a majestade do criador sobre os elementos resistentes da natureza.

A mentalidade judaica herdou das cosmogonias antigas a idéia de uma criação do mundo sob forma de um combate entre Deus e as águas onde o poder criador de Deus domina as águas e os monstros do mal que elas contém (Salmo 103/104,5-9; 105/106,9; 73/74,13-14; 88;89,9-11; Habacuc 3,8-15; Isaias 51,9-10). Estes relatos bíblicos descrevem de boa vontade a vitória de Deus sob a forma de uma “ameaça” (Salmo 105/106,9; 103/104,6-9; Genesis 1,9; Jó 26,5-12; Salmo 18,19). Até mesmo a história da salvação aparece como uma vitória de Javé sobre as águas: é o sentido dos relatos do mar Vermelho (Salmo 105/106,9) e do Apocalipse (Ap 20,9-13) descrevendo a vitória do Reino de Deus sobre os elementos deste mundo.

Esta leitura serve de suporte ao Evangelho deste domingo. Através de longo discurso sobre as maravilhas da criação, Deus mostra que Jó sofre de “arrogância atrevida”. Respondendo a Jó na tempestade, Deus se manifesta soberano sobre as forças que geram o mal, aí simbolizados pelo mar. Apesar de impetuoso e assustador, sua força é quebrada pela areia das praias. Deus é maior e mais forte que todas as tragédias humanas! Todos os fenômenos da natureza estão em suas mãos e, a nós, cabe respeito e cuidado.

Salmo responsorial 106/107,23-26.28-31. Este salmo é um hino de ação de graças, inspirado no Segundo Isaias, pelos benefícios da providencia divina. O socorro divino aos que viajam (versículos 23-32).

É uma ação de graças com tonalidade sapiencial. Com a tempestade em alto mar, Deus manifesta suas maravilhas de dois modos: mandando na tempestade e depois a acalmando, transformando-a em brisa leve. Jesus assumiu as características de Deus reveladas neste Salmo. É o Salvador, e muda a sorte do povo.

O rosto de Deus no Salmo 106. Todas as ações de Deus aqui descritas podem ser resumidas nesta expressão: Ele é o Redentor do seu povo. Caminhando junto e fazendo, sendo seu aliado e fazendo a história com Israel, Deus mostrou plenamente quem Ele é. E o mostrou ouvindo o clamor e libertando, características fundamentais do Deus da Aliança. Os momentos deste salmo apresenta o esquema do Êxodo: angústia, clamor, libertação, agradecimento.

Jesus assumiu todas as características do Deus deste salmo. É o resgatador (Lucas 1,68; 2,29-30). Maria mostra como a inversão de sortes aconteceu em sua vida ao entoar o Magnificat (Lucas 1,51-55).

Cantando este Salmo na celebração de hoje, demos graças a Deus, porque nos revela o seu rosto no meio das tempestades da vida.

Segunda leitura – 2Coríntios 5,14-17. Para o apóstolo Paulo a caridade cristã se alimenta da contemplação do mistério da Cruz. É Cristo que vive nele: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim; a minha vida presente na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2,20). O amor de Cristo se manifestou de modo tão sublime, que sendo Ele, único, morreu por todos. O amor de Cristo por nós (genitivo, objetivo e subjetivo) exige correspondência: nosso amor por Ele. Paulo não os separa. Na visão de Paulo, este amor não tem nada de sentimental, mas procede de um julgamento bem refletido (“no pensamento”: versículo 14): antes de tudo, foi-lhe preciso compreender o amor de Cristo morrendo por todos sobre a cruz (versículo 15), uma vez feita esta descoberta, ele não resistiu ao constrangimento do amor que o impulsiona a consagrar sua vida a Cristo (versículo 15b).

“Morrer por todos” pode significar morrer “em favor” e para a salvação de todos (cf. Marcos 14,25), como também “substituição”: morreu em lugar daqueles que, pecadores, estavam condenados à morte por terem transgredido a lei divina. Jesus, morrendo na cruz, expiou essas transgressões. Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, fazendo-se por nós maldição (Gálatas 3,13). Cristo morreu por todos, substituindo a todos. Logo todos morreram. Na cruz Ele nos incluiu a todos, representando a humanidade inteira.

A morte com Cristo gera também a comunhão com a vida (versículo 15). Vivemos porque Jesus ressurgiu da morte (Romanos 6,8). Quem vive, agora, uma vida nova, já não vive para si, mas consagra toda a sua vida a Cristo que por ele morreu e ressuscitou. O cristão, como Jesus, deve viver para o outro, porque tem compromisso com a vida de Jesus. É o que ensina Paulo: “Nenhum de vós vive ou morre para si mesmo; quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor” (cf. Romanos 14,7s).

Paulo deixa claro que a força da comunidade cristã é o amor de Cristo. É esse amor que nos impulsiona. O mundo novo já foi inaugurado pelo evento pascal. Estar com Cristo é participar dessa nova realidade, superando rivalidades e divisões, pois a força que impulsiona a comunidade à vida é o amor de Cristo levado às extremas conseqüências.

Evangelho – Marcos 4,35-41. A exegese (explicação) dos milagres de Jesus admite várias abordagens. Nos escritos do Novo Testamento pode-se acompanhar um desenvolvimento da fé de Jesus para a fé em Jesus. Em Marcos 4,35-41 podemos perceber algo da fé de Jesus e entrever como ela está na origem da fé n’Ele.

A pergunta fundamental do Evangelho de Marcos é: Quem é Jesus? Conhecê-lo querer um processo de aprofundar-se em seu mistério, ouvindo sua Palavra, olhando contemplando a sua ação.

Ao longo de todo o seu Evangelho, Marcos está preocupado em mostrar que antes da ressurreição os apóstolos não podiam ter uma verdadeira fé. A pergunta “não tendes ainda fé?” acrescentada nesse relato mostra esta questão. Os apóstolos só poderão ter a fé depois da Páscoa, pois só há verdadeira fé no Cristo ressuscitado. Aos olhos de Marcos, a tempestade acalmada só tem sentido porque já inclui a ressurreição. Neste objetivo, o evangelista associa a tempestade acalmada e a tempestade que Jonas sofre (comparar sobretudo o versículo 38, próprio de Marcos, e Jonas 1,5-6; versículo 41a e Jonas 1,16; etc). Podemos nos perguntar se Marcos não quis procurar em seu relato o famoso sinal de Jonas (Mateus 12,38-40). Com este relato de Mateus, Cristo triunfa sobre “águas inferiores” por seu poder sobre a tempestade.

Qual é a situação? O lago da Galiléia é uma depressão muito abaixo do nível do mar. Os ventos do Sul e do Norte, isto é, do Mediterrâneo e os do deserto da Síria, penetrando pela brecha onde entra e por onde sai o rio Jordão provocam repetidamente e repentinas tempestades, com vento muito forte e chuva. Estas tempestades causam perigo grave aos pescadores, mesmo nos dias de hoje, equipados com barcos motorizados.

A frase “Outras barcas o acompanhavam” (versículo 36) é sinal de que não só a comunidade dos primeiros discípulos, mas as de todos os tempos e lugares são convocadas á travessia. A travessia é difícil e perigosa. É o que mostra o furacão que levanta o mar da Galiléia (versículo 37). Na mentalidade antiga o mar sintetiza as forças geradoras do mal e hostis ao projeto de Deus.

A tempestade no lago de Genesaré não pode ser entendida como simples fenômeno natural, freqüente nesse lago, quando sopram os ventos conhecidos pelos pescadores da época e de hoje. A cena toda possui caráter simbólico e catequético, nos ajudando a buscar, descobrir e superar quaisquer conflitos que emperram ou tentam sufocar o projeto de vida e liberdade, herança deixada por Jesus Cristo. Simbólico porque é, antes de tudo, expressão de fé na divindade de Jesus, pois só Deus pode mandar nas águas do mar e no vento, como lembra a primeira leitura do Livro de Jó. Mas também quer infundir coragem na comunidade dos discípulos e discípulas missionários que se sente ameaçada em meio às tempestades da vida. Este segundo aspecto talvez tenha mais ressonância em nós.

Em meio aos conflitos, a comunidade cristã tem a sensação de que Jesus está alheio aos dramas e tempestades que a ameaçam, na verdade, Ele se encontra na parte de trás da barca (a Igreja) e dorme sobre um travesseiro (versículo 38). Jesus está atrás, como lemos em Êxodo 14,19-20: “O anjo de Deus, que andava à frente do acampamento de Israel, deslocou-se para trás. A coluna de nuvem também se deslocou da frente deles e ficou atrás (…). Assim, protegido pelas costas, o povo pôde atravessar o mar Vermelho, libertando-se dos inimigos perseguidores. A pergunta dos discípulos: “Mestre, não te importas que naufraguemos?” (versículo 38), nos remete novamente ao Êxodo. “O Senhor disse a Moisés: “Por que clamas a mim? Fala aos filhos de Israel que se ponham a caminho!” (Êxodo 14,15).

Na narração da tempestade acalmada predomina o contraste entre a atitude de Jesus e aquela dos discípulos. Entre Jesus que dorme tranquilamente e os discípulos que lutam desesperadamente contra o vento e as ondas. Jesus, que o dia inteiro esteve preocupado em pregar a Boa-Nova para as multidões, agora dorme despreocupado, na confiança de que Ele está na mão do Pai e que os elementos do mundo não têm poder sobre Ele. Seus discípulos estão preocupadíssimos em como salvar a pele, travando uma luta tremenda com as forças da natureza, desencadeadas pela tempestade e se esquecem de Deus. Quando parece ter chegado o fim, acordam Jesus com o grito de desespero e de indignação: “Mestre, o Senhor não se importa que a gente está morrendo?!” Os discípulos já dão a causa por perdida. Mas a atitude de Jesus é radicalmente diferente. Ela mostra o que pode um homem que se entregou totalmente à causa de Deus.

De fato, as ordens de Jesus ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-se!” e a conseqüente bonança obtida (versículo 39) revelam quem é Jesus. Acalmar a mar e amansar-lhe as ondas é, segundo o Primeiro Testamento, prerrogativa exclusiva de Deus. Em Jesus age Deus. “Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2,9). No Cristo ressuscitado se reúne todo o mundo divino – ao qual pertence, pelo seu ser preexistente e glorificado – e todo o mundo criado – que Ele assumiu diretamente (a humanidade) e indiretamente (o cosmo) pela sua Encarnação e Ressurreição, em fim, toda a plenitude do ser.

A pergunta de Jesus: “Porque são tão medrosos? Ainda não têm fé?”, deve-se entender no sentido: “Ainda não tendes fé em Deus… como eu tenho?”, e não no sentido: “Ainda não tendes fé em Mim?” Esta fé não é um poder que permite realizar obra milagrosa, mas para cumprir o mandato divino de socorrer em qualquer necessidade. O socorro que Jesus dá, graças a sua fé em Deus, neste e em outros casos, é antes de tudo salvação do poder da morte.

Por isso a fé de Jesus pôde transformar-se na fé em Jesus. A nossa fé cristã, portanto, é fé na fé de Jesus e no Deus que O ressuscitou da morte. É fé que nos autoriza a arriscar a vida pela causa de Deus.

3- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

Quem já passou por algum sofrimento em sua vida? Por alguma crise? Talvez um fracasso financeiro, profissional, familiar… Mais radical é a crise de fé que põe em cheque o sentido da vida e da missão, como foi para Jesus na prisão e para os discípulos no mar agitado. No entanto, à luz da ressurreição de Jesus, podemos viver cada situação difícil como oportunidade para um novo despertar, para uma fé mais madura que faça de cada um(a) de nós, um ser humano melhor.

E celebração é expressão da nossa fé na presença viva de Deus que se manifestou com sua força na vida de Jesus e, hoje, se manifesta em nossa vida. A Eucaristia vem nos fortalecer e nos ajuda a vencer as ondas da violência e de tantos outros males não pelo poder das nossas mãos, mas pela certeza da ação discreta de Deus no coração dos fatos da vida.

4- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

O sono de Jesus no meio da tempestade lembra a crise da paixão, mas seu despertar nos coloca na experiência da sua ressurreição.

As comunidades cristãs e as pessoas que ainda sonham com um país e um mundo justo, igualitário, fraterno, sentem-se perplexas diante do atual panorama social: miséria, doença, fome, corrupção dos políticos, injustiça, impunidade, guerra, terrorismo, mortes no campo e na cidade, crise moral e social, descomprometimento dos políticos, poderosos e falsos cristãos.

Tudo isso é mar tempestuoso que ameaça engolir os anseios de vida e liberdade. Será que Deus está dormindo, alheio a esta realidade? Teria abandonado a humanidade e as comunidades cristãs ao favor dos caprichos dos grandes? Estaria sendo omisso? Como diz o Salmo76/77,10, “Será que Deus se esqueceu de ter piedade? Será que a raiva lhe fechou o coração?” Mas por uns instantes, o salmista cai em si e vê que não é bem assim, faz uma retrospectiva da ação de Deus na história da salvação e diz: “Mas, recordando os grandes feitos do passado, vossos prodígios eu relembro, ó Senhor; eu medito sobre as vossas maravilhas e sobre as obras grandiosas que fizestes.”

Acreditar no Emanuel, Deus conosco, anjo e nuvem que nos protege constantemente, é praticar a fé e a coragem que transforma em vida situações de morte. Representa a certeza de que a força que nos anima é o amor de Cristo e sua presença ressuscitada em nossa caminhada.

No mar da vida, somos enviados a lutar contra as forças hostis que oprimem as pessoas. Deus é soberano sobre essas forças, conduzindo as comunidades cristãs “para a outra margem” do lago de Genesaré. Ir para outra margem significa encontrar outros povos, os pagãos, para levar-lhes a força da semente, a proposta do Reino. Com isso fica evidente que ser comunidade cristã é estar a caminho, o qual, muitas vezes, se torna penoso e assustador. Mas apesar das marés bravas da vida é preciso ser discípulos e discípulas missionários.

Jesus é Alguém a quem precisamos aderir plenamente, como condição única para realizar a travessia, a mudança de uma margem para a outra, a verdadeira conversão. Só quem adere plenamente poderá reconhecê-Lo como Filho de Deus, o Messias enviado. Reconhecê-Lo principalmente na “Palavra e na fração do Pão”. Assumir o seu projeto muda o nosso modo de agir, nos faz passar para a outra margem. Passamos a considerar as pessoas e fatos à luz da vida nova que Cristo trouxe a fim de fazer novas todas as coisas. Passamos também a considerar a catequese, as pastorais, e principalmente a liturgia e todas as coisas de Deus com mais seriedade.

A celebração é um ato de fé na presença de Deus em nossa vida e nos acontecimentos da caminhada; desperta em nós a confiança e nos liberta do medo; dá uma palavra de ânimo para nossas comunidades, atingidas por ondas de violência, de corrupção política, de desemprego, até mesmo pelo descuido pastoral, pela indiferença de certos membros da comunidade ao mistério celebrado. Temos ondas contrárias até dentro de nossas comunidades.

5- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Ao fazer memória da ressurreição de Jesus, cuja ação acalmou mares e tempestades, recebemos com sua Palavra novo ânimo e coragem para vencermos as ondas de corrupção política, de violência, de desemprego e até de descaso pastoral, de incompreensões de muitos movimentos que não aceitam a caminhada da Igreja e a caminhada de uma diocese, que nos atingem atualmente causando tempestades. Por isso, professamos nossa fé desafiando todo tipo de medo que possa nos dominar.

Nossas preces sobem confiantes ao Senhor, abandonando-nos a Ele que já venceu todas as dificuldades e, mesmo “dormindo”, navega em nossa precária embarcação, aguardando que o acordemos com nossa súplica, mesmo que seja desesperada.

Pelo rito eucarístico, damos graças ao Pai com Cristo pela sua eterna misericórdia e participamos da refeição que Ele nos oferece gratuitamente, robustecendo nossa fé para a travessia do mar da violência, da arrogância, da injustiça e da incompreensão, o qual nos ameaça constantemente.

6. ORIENTAÇÕES GERAIS

1. Acolher de maneira afetuosa, e fraterna as pessoas que chegam, para que, ao se reunir, a assembléia seja, na verdade, uma família de irmãos.

2. Dia 25 é dia do migrante. Os migrantes poderiam ser reconhecidos e valorizados nesta celebração, se possível, manifestando algumas características de sua terra de origem.

3. As leituras devem ser feitas com esmero, principalmente o Evangelho.

4. Valorizar os momentos de silêncio durante a celebração, previstos pela liturgia, para oração pessoal e interiorização da Palavra.

7- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo Pascal, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 12º Domingo do Tempo Comum. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

“Não tem sentido, por exemplo, escolher os cantos de uma celebração em função de alguns que se apegam a um repertório tradicionalista, ou ainda de outros que cantam somente as músicas próprias de seu grupo ou movimento, nem de outros que querem cantar exclusivamente cantos ligados à realidade sócio-política, se isto vai provocar rejeição da parte da assembléia” (A música Litúrgica no Brasil, estudos da CNBB, página 78).

1. Canto de abertura. “O Senhor é a força do seu povo, a fortaleza que salva o seu ungido” (Salmo 27/28,8-9. “Do seu povo ele é a força”, CD: Liturgia VI, faixa 12.

Não se trata de uma questão fixa. Como alternativa para este canto do Hinário Litúrgico da CNBB, preferível de antemão, mas não exclusivo, sugerimos “A ti, ó Deus, teu povo cante o louvor”, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 12.

Forma de executar o canto de abertura. A vantagem de o povo responder com um refrão (cantado de cor!) a alguns versos, entoados por um cantor ou a equipe de canto, é a de a assembléia mais livremente poderem olhar e contemplar a procissão de entrada dos ministros, às vezes precedidos pelas crianças da primeira eucaristia, pelos jovens a ser crismados, pelo casal de noivos que vai se unir em matrimônio etc. O canto de abertura deve nos introduzir no mistério celebrado.

2- Ato penitencial. Missal Romano, página 394:

2. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas.” Vejam o CD Tríduo Pascal I e II e também no CD: Festas Litúrgicas I; Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria Reginaldo Veloso e outros compositores. Vejam também várias músicas para o Hino de louvor gravado pelo Frei Telles Ramon no CD: Partes Fixas da Missa.

O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembleia.

3. Salmo responsorial. “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom…” CD: Liturgia IX, melodia da faixa 7.

Para a Liturgia da Palavra ser mais rica e proveitosa, há séculos um salmo tem sido cantado como prolongamento meditativo e orante da Palavra proclamada. Ele reaviva o diálogo da Aliança entre Deus e seu povo, estreita os laços de amor e fidelidade. A tradicional execução do Salmo responsorial é dialogal: o povo responde com um refrão aos versos do Salmo, cantados um ou uma salmista. Deve ser cantado da mesa da Palavra.

4. Aclamação ao Evangelho. “Jerusalém, a teu Deus o teu louvor”, CD: Liturgia VII, melodia da faixa 7. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical, página 603.

5. Apresentação dos dons. Quando o Senhor nos socorre nos momentos difíceis, nos resta ter um coração que partilha. Devemos ser oferenda com as nossas oferendas. “Bendito e louvado seja o Pai”, CD: Liturgia VI, melodia da faixa 14.

6. Canto de comunhão. Os dons de Deus na criação. “Acalmaste, Senhor, a tempestade ”, CD: Liturgia VI, faixa 16, exceto o refrão.

Com orientamos a respeito do canto de abertura, também não se trata de um canto fixo na comunhão. A liturgia oferece mais duas opções de acordo com o Mistério celebrado. Na caminhada, as comunidades sempre enfrentam as ondas perigosas, mas com a certeza do Senhor na caminhada. Nesse sentido é muito oportuno Romanos 8,31-39: “Quem nos separará, quem vai nos separar, do amor de Cristo, quem nos separará”, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 21 ou CD: Festas Litúrgicas II, melodia da faixa 19. Como terceira opção, sugerimos o canto “Bom é louvar o Senhor nosso Deus, cantar salmos ao nome do Altíssimo; com alegria aclamar seu amor, sua glória, bondade e poder”, inspirado no salmo 98, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 23.

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho do dia. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o Corpo e Sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. É de se lamentar que muitas vezes são escolhidos cantos individualistas de acordo com a espiritualidade de certos movimentos, descaracterizando a missionariedade da liturgia. Toda liturgia é uma celebração da Igreja e não existem ritos para cada movimento e nem para cada pastoral. Cantos de adoração ao Santíssimo, cantos de cunho individualista ou cantos temáticos não expressam a densidade desse momento. Tipos de cantos que devem ser evitados numa celebração eclesial: “Eu amo você meu Jesus”; “Ti olhar, ti tocar”; “Fica comigo Jesus”. Esses cantos de cunho individualista, fica bem a gente ouvi-los fora da celebração.

O fato de a Antífona da Comunhão, em geral, retomar um texto do Evangelho do dia revela a profunda unidade entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia, Eucarística e evidencia que a participação na Ceia do Senhor, mediante a Comunhão, implica um compromisso de realizar, no dia-a-dia da vida, aquela mesma entrega do Corpo e do Sangue de Cristo, oferecidos uma vez por todas (Hebreus 7,27).

Forma de executar o Canto de Comunhão. A forma que a tradição litúrgica oferece para o Canto de Comunhão, a de um refrão tirado do texto do Evangelho do dia alternado por versos de um salmo apropriado, foi mantida no 3º fascículo do Hinário Litúrgico da CNBB, nos cantos de Comunhão dos Anos A, B e C.

Esta forma dialogal ajuda os fiéis a receber o Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo livres da necessidade de carregar livros de cantos ou folhas. Não é necessário que este canto se prolongue, sem interrupção, durante o ato de repartir o Corpo e Sangue do Senhor. Em certas oportunidades seria até vantagem interromper os versos por interlúdios instrumentais, tornando o canto menos maçante e favorecendo a interiorização.

8- ESPAÇO CELEBRATIVO

1. Prepara o espaço da celebração bem festivo, porque cada domingo é Páscoa semanal. Não ofuscar as duas mesas principais: mesa da Palavra e o Altar.

2. A cor verde nas vestes litúrgicas, e na mesa da Palavra, caracteriza todo o Tempo Comum como tempo de em que, na esperança, o Reino vai se desabrochando entre nós. Nas festas do Senhor e de Maria é usado o branco, e o vermelho na festa dos mártires, como Pedro e Paulo.

9. AÇÃO RITUAL

Fazer uma fraterna e alegre acolhida aos irmãos que chegam para a celebração.

Ritos Iniciais

1. Convidar a participarem da procissão de entrada pessoas recentemente chegadas à comunidade.

2. É importante que não se diga nenhuma palavra antes da saudação: nem “Bom dia ou “Boa noite”, nem comentários ou introduções! Bom dia e boa noite não é saudação. Primeiro devemos saudar a Trindade.

3. As opções “d” e “e”, do Missal Romano para a saudação presidencial são boas para iluminar o sentido litúrgico:
“O Deus da esperança, que nos cumula de toda alegria e paz em nossa fé, pela ação do Espírito Santo, esteja convosco” (Romanos 15,13).

Ou a fórmula “e”:

“A vós, irmãos, paz e fé da parte de Deus, o Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Efésios 6,23).

4. A pós a saudação o presidente ou o diácono ou outra pessoa pode dar o sentido litúrgico da celebração com estas palavras ou outras semelhantes:

Domingo da tempestade acalmada. Celebremos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta na tempestade acalmada, e em todas as pessoas e grupos que, no meio das dificuldades dia a dia, vivem uma relação de confiança em Deus.

5. Em seguida fazer a recordação da vida, trazendo presente os fatos da vida da comunidade, da cidade, do pais e do mundo, mas em forma orante.

6. O Ato Penitencial na Missa pode ser concebido como uma atitude de confiança e esperança na misericórdia do Senhor que socorre os seus na sua fraqueza e limitação. O amor visceral do Senhor (misericórdia, segundo Lucas 1,78) nos alcança. Essa é a experiência da piedade divina. Lembrando-nos que piedade é a tradução de “pietas” que em latim traduz o grego “eleos”, palavra conservada ainda no Kyrie “eleison”, significando o carinho de Deus para com suas criaturas e a confiança dessas em sossegar-se em seu aconchego. Não confundir o Ato penitencial com pedidos de perdão.

7. Sugerimos que a motivação para o Ato Penitencial seja a fórmula I da página 390 do Missal Romano:

O Senhor Jesus, que nos convida à mesa da Palavra e da Eucaristia, nos chama à conversão. Reconheçamos ser todos pecadores e invoquemos com confiança a misericórdia do Pai.

Após um momento de silêncio, usar a fórmula 5 do Missal Romano, página 394:

Senhor, que sois a plenitude da verdade e da graça,
Cristo, que nos tornastes pobre para nos enriquecer,
Senhor, que viestes para fazer de nós um povo santo,

8. Cada Domingo é Páscoa semanal, cantar de maneira festiva o Hino de louvor (glória).

9. A oração do dia nos convida a amar e adorar a Deus que nos conduz e fortalece no amor.

Rito da Palavra

1. Cada vez mais, cai em desuso os chamados “comentários” antes das leituras.. São, inclusive, dispensáveis, sendo preferível o silêncio ou um refrão meditativo que provoque na assembleia aquela atitude vigilante para a escuta e consequentemente acolhida da Palavra de Deus. Para abrir a Liturgia da Palavra, seria oportuno um breve refrão meditativo. Sugerimos este refrão: “Senhor que a tua Palavra, transforme a nossa vida, queremos caminhar com retidão na tua luz”.

2. Durante a homilia, identificar o mar (símbolo do mal) e as tempestades que hoje abalam nossa frágil embarcação. Motivar a assembleia a professar sua fé naquele a que, até “o vento e o mar obedecem”.

3. Após a homilia dar uns momentos de silêncio para que a assembléia possa interiorizar a Palavra e a homilia. Em seguida cantar uma estrofe e o refrão do canto:

Se as águas do mar da vida quiserem te afogar,
Segura na mão de Deus e vai.
Se as tristezas desta vida quiserem te sufocar,
Segura na mão de Deus e vai.

R: SEGURA NA MÃO DE DEUS
SEGURA NA MÃO DE DEUS
POIS ELA, ELA TE SUSTENTARÁ
NÃO TEMAS, SEGUE ADIANTE
E NÃO OLHES PARA TRÁS
SEGURA NA MÃO DE DEUS, E VAI.

4. Nas preces dos fiéis, lembrar a realidade dos sofredores e dos migrantes. A atitude de confiança deve acompanhar as súplicas da comunidade.

Rito da Eucaristia

1. Quem preside deve motivar a comunidade a participar do rito eucarístico, não buscando o maravilhoso e o extraordinário, mas aquilo que realmente significa para nós: a certeza de ter Cristo conosco, em qualquer situação de nossa vida.

2. Solenizar o rito da paz antes da procissão das oferendas, através do qual “os fiéis exprimem entre si a comunhão eclesial e a mútua caridade” (IGMR 101).

3. Na oração sobre as oferendas suplicamos a Deus que acolha o sacrifício de reconciliação e de louvor, para que possamos oferecer um coração agradável a Deus.

4. Sugerimos os Sugerimos o Prefácio dos Domingos do Tempo Comum V, página 432 do Missal Romano sobre a Criação, manifesta mais claramente o mistério celebrado. Seguindo esta lógica, cujo embolismo reza: “Vós criastes o universo e dispusestes os dias e as estações. Formastes o homem e a mulher à vossa imagem, e a eles submetestes toda a criação. Libertastes os fiéis do pecado e lhes destes o poder de vos louvar”. O grifo no texto identifica aqueles elementos em maior consonância com o Mistério celebrado neste Domingo e que pode ser aproveitado na própria, ao modo de mistagogia. Usando este prefácio, o presidente deve escolher a I ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não admitem um prefácio diferente.
5. Valorizar o rito da fração do Pão, devidamente acompanhado pela assembleia com o canto profundamente contemplativo e orante do Cordeiro de Deus. O canto do Cordeiro de Deus, deve ser entoado por um(a) solista para não perder o seu caráter de Ladainha.

6. Ao apresentar o pão e o vinho, isto é, o convite à comunhão, o presidente da celebração mostrando o cálice e a ambula ou patena diz o versículo bíblico do Salmo 33,9 e que se encontra no Missal Romano:

Provai e vede como o Senhor é bom; feliz de quem nele encontra seu refúgio. Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!

7. Distribuir a comunhão de maneira orante e sob as duas espécies, pois como diz a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR): “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob esta forma se manifesta mais perfeitamente o sinal dom banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico do Reino do Pai” (n. 240). Assim estamos sendo coerentes e sensíveis com aquilo que o Senhor disse no momento da narrativa da Ceia: Ele não disse somente “tomai, todos e comei”, mas também “tomai todos e bebei…”.

Ritos Finais

1. Para a bênção final, como envio em missão, usar o texto da bênção para o Tempo Comum IV, que retoma o Evangelho de hoje. Suplicamos a Deus que sempre nos “liberte de todos os perigos”, Missal Romano, página 526.

2. As palavras do rito de envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: Nos momentos difíceis das vossas vidas, tende fé. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

3. Na oração após a comunhão, renovados pelo corpo e sangue de Cristo, peçamos a Deus receber um dia, a salvação que celebramos.

9- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Jesus, o Homem novo, cuja vida transcende o poder do caos, pode adormecer tranqüilo porque, uma vez desperto, esta sua transcendência se manifesta como um poder que se exerce por meio de sua Palavra na constituição do mundo.

Celebremos a Páscoa semanal do Senhor manifestando nossa confiança mesmo nas tempestades da vida.

O objetivo da Igreja e da nossa equipe diocesana de liturgia é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

Pe. Benedito Mazeti

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