Jornal Diocese Hoje – edição de maio

1º de maio: a Igreja, o trabalhador e a trabalhadora

 

As “distâncias” ainda existiam, mas as manifestações realizadas nos Estados Unidos, em 1º de maio de 1886, uniram trabalhadores em todo o mundo, tanto que, nos anos seguintes, mais e mais empregados se associaram e, naquela data simbólica, se colocaram a reivindicar a redução da carga horária de trabalho (que chegava a 16 horas diárias). Nascia desses fatos, e de seus desdobramentos, o “Dia do Trabalho”.

Foi nesse cenário de luta, no 14º ano de seu pontificado, que o Papa Leão XIII escreveu sobre a condição dos operários. O Pontífice, na Carta Encíclica “Rerum Novarum”, aprofundou aspectos da “influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão”. Já em 1891 o Sucessor de Pedro apontava a “solução definitiva”: a caridade. “É necessário ainda prover de modo especial a que em nenhum tempo falte trabalho ao operário; e que haja um fundo de reserva destinado a fazer face, não somente aos acidentes súbitos e fortuitos inseparáveis do trabalho industrial, mas ainda à doença, à velhice e aos reveses da fortuna”, pediu (em tom de profecia) o Papa Leão XIII.

Verdadeiro marco na Doutrina Social da Igreja, a Rerum Novarum, observada à luz dos tempos atuais, em um mundo globalizado e sem fronteiras, mostra o quão atual se mantém o texto; especialmente no Brasil: “pátria amada” de quase 13 milhões de desempregados (fora outros 5 milhões que, em consequência da pandemia, deverão perder seus empregos nos próximos meses).

Modelo

“Queremos anunciar a Nossa determinação de instituir – como de fato instituímos – a festa litúrgica de São José operário, marcando-a no dia 1º de maio. Trabalhadores e trabalhadoras, agrada-vos o nosso dom? Temos certeza de que sim, porque o humilde artesão de Nazaré não só personifica junto a Deus e a Santa Igreja a dignidade do trabalhador, mas é também sempre providente guardião vosso e de vossas famílias”. Foi em 1955 que o Papa Pio XII destacou o Pai Adotivo de Jesus como modelo para os trabalhadores. Logo, considerada essa inspiração, as manifestações até então exclusivamente de temática trabalhista, também ganharam um viés religioso.

Compromisso

A Igreja, a partir do anúncio e da denúncia dos Pontífices, sempre considerou o trabalho como meio de acesso à dignidade. O próprio Papa Francisco reforça essa tese: “trabalho quer dizer dignidade, trabalho significa trazer o pão para casa, trabalho quer dizer amar!”. Em outra ocasião, o Bispo de Roma completou sobre o mundo do trabalho como uma prioridade humana: “sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja”, em discurso quando da visita pastoral a Gênova, em 2017.

A face feminina do trabalho

“Penso sobretudo nas trabalhadoras: o desafio é tutelar, ao mesmo tempo, quer o seu direito a um trabalho plenamente reconhecido quer a sua vocação à maternidade e à presença na família. Quantas vezes ouvimos que uma mulher foi ter com o chefe para lhe dizer: ‘Tenho que lhe comunicar que estou grávida’ — ‘A partir do fim de mês já não vais trabalhar’. A mulher deve ser preservada, ajudada neste duplo trabalho: o direito a trabalhar e o direito à maternidade”, manifestou o Papa Francisco em discurso dirigido à União Cristã de empresários, em 2015.

Celebrar e denunciar

Contemplando o exemplo de perseverança de São José, invocado na figura do operário, celebrar o 1º de maio exige compromisso na defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e solidariedade com aqueles e aquelas que buscam uma recolocação no mercado, como aponta a Igreja. O cristão que está atento em ouvir a Palavra do Deus vivo, unindo o trabalho à oração, procure saber que lugar ocupa o seu trabalho não somente no progresso terreno, mas também no desenvolvimento do Reino de Deus, para o qual todos somos chamados pela potência do Espírito Santo e pela palavra do Evangelho”, sintetizou o Papa, hoje São João Paulo II, em sua carta encíclica Laborem Exercens (em 1981; ocasião do 90º aniversário da Rerum Novarum).

André Botelho
Jornalista

 

– Texto escrito e enviado para a redação do jornal Diocese Hoje

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