1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A – 01 de março de 2020

1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A – 01 de março de 2020

26/02/2020 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

“NÃO SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM, MAS DE TODA PALAVRA QUE SAI DA BOCA DE DEUS”

Site padrepauloricardo.org.br

Leituras

Gênesis 2,7-9; 3,1-7. O Senhor Deus formou o homem do pó da terra.

Salmo 50/51,3-4.5-6a12-14.17. Criai em mim um coração que seja puro.

Romanos 5,12-19. Onde o pecado reinou espalhou-se com abundancia a graça.

Mateus 4,1-11. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites.

 

 1- PONTO DE PARTIDA

Domingo do deserto de Jesus. Conduzidos pelo Espírito de Deus, vamos com Jesus ao deserto e celebramos em louvor daquele que venceu as tentações. Em comunhão com Jesus, vamos nos alimentar com o pão da Palavra e da eucaristia, para que também nós consigamos superar todo obstáculo e tentação que surgem em nosso caminho.

Já estamos na Quaresma, que começou na Quarta-Feira de Cinzas. Quaresma é tempo de preparação para a maior de todas as festas, a festa da Páscoa. Quaresma tem a ver com “quarenta”, que é um número simbólico muito usado na Bíblia. Expressa um período de tempo (dias, noites e anos) de especial presença, ação e revelação de Deus na vida e no mundo das pessoas. Por exemplo, na caminhada de quarenta anos do povo de Israel pelo deserto, Deus foi educando esse povo a viver sua Lei.

Com a Quaresma começa também a Campanha da Fraternidade. Ela tem como tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”, e o lema “Viu e sentiu compaixão e cuidou dele (Lucas 10,33-34). É importante a nossa conversão não só pessoal, mas também para esse aspecto da sociedade, porque Cristo nos chama a cuidar de quem está próximo de nós e com quem mais necessita, valorizando a vida.

Invoquemos o Senhor, de todo o coração, para que seu Espírito nos conduza em nossos desertos e nos liberte de qualquer tentação.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos bíblicos

Primeira leitura – Gênesis 2,7-9; 3,1-7. O Gênesis é o livro das origens: do mundo, do Pessoa, de Israel. O autor aqui representa Deus que realiza ações humanas plasmando o homem, como um oleiro que modela o barro, e acendendo nele a vida, como quem sopra pata atear fogo (Gênesis 2,7). O homem e a mulher têm à disposição um magnífico jardim (Gênesis 2,8-9), mas deixa-se induzir e come precisamente o único fruto proibido, cedendo às sugestões da serpente e da sua própria presunção. Daí deriva a descoberta – e o medo – da nudez como nulidade sem defesa (Gênesis 3,1-7).

O homem é vencido pela tentação; daí a destruição da união das criaturas, entre si e com Deus (Gênesis 2,7-9;3,1-7). Lemos alguns versículos do início da (segunda) narrativa da criação do homem e da mulher e do início da narrativa da sua queda. Toda a narração desenvolve-se em quatro etapas, a saber, a criação, e a elevação do casal humano e, depois, a sua queda e expulsão do paraíso. Toda a narração não é para dar informações científicas sobre a origem do ser humano. Tentou-se entender e interpretar a existência humana com seus problemas e mistérios à luz da fé, herdada dos pais. O “homem” que contemplamos no texto sagrado não é um determinado indivíduo, mas uma figura representativa, que está presente na humanidade, isto é, “Adão” não é um nome próprio, mas sim a indicação do “ser humano” em geral, ou “humanidade”.

A narração afirma a dependência da criatura humana de Deus, seu Criador. Para narrar esta dependência existencial, o narrador relata a história do “oleiro” que pode ser encontrado seja em narrações seja em mitos já existentes, segundo a qual Deus moldou o corpo humano com o pó da terra e depois lhe deu o sopro da vida. Fica claro que este recurso literário mostra a fragilidade e dependência contínuas do ser humano diante de Deus soberano e dono de sua vida (Jeremias 18,1ss; Isaias 45,9; Eclesiástico 33,13s; Romanos 9,20s). O autor sagrado combina esta história do oleiro com a narração do mistério da criação. Deus criou o homem e a mulher e lhes prepara uma “casa”, isto é, uma habitação, que se chama “Éden”, e colocou o ser humano lá dentro. A narração deste jardim concretiza a gratuidade e o cuidado com que Deus cria o ser humano, isto é, a qualidade de vida que Deus dá oferece ao ser humano.

A árvore da vida representa a providência de Deus. Simboliza a presença de Deus de forma bem íntima, pelo diálogo de Deus como o ser humano e pelo passeio da tarde que Ele faz no jardim do Éden.

A árvore da ciência simboliza que Deus é superior e não podemos enquadrá-Lo em nossos esquemas, mas ao mesmo tempo se faz presente de modo sensível na vida do ser humano, chamado a viver a sua existência como “criatura” de Deus. a árvore da ciência do bem e do mal  simboliza quando o ser humano quer “conhecer tudo”, saber fazer tudo, isto é, a arrogância de dispor de um poder ilimitado que somente o Criador tem.

É interessante notar que, antes de falar da tentação de Jesus e sua vitória sobre o pecado, Deus nos fala de outra tentação: a dos seres humanos primordiais (Adão e Eva), que também foram tentados, mas acabaram cedendo à proposta de se fazerem iguais a Deus. Caíram na tentação de querer traçar por si mesmos a própria vida. Como resultado, veio a derrota, a frustração. Hoje experimentamos em nossa própria pele as trágicas conseqüências da desobediência humana, e então suplicamos diante de Deus, com o Salmo 50/51: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós”.

A serpente foi escolhida pelo autor sagrado para desempenhar o papel de tentador. As razões são várias. No Oriente Próximo principalmente no culto cananeu, com efeito, a serpente representa a divindade da fecundidade, tanto a dos campos quanto a das mulheres. E muitas mulheres, em Israel como nas nações vizinhas, de boa vontade recorriam ao culto da serpente pra garantir um casamento fecundo. Aos olhos de Israel era o símbolo de toda a iniqüidade e a origem principal da apostasia e superstição. Por isso a serpente pode simbolizar a narração da queda como quem atua como adversário de Deus. Chama-se “o mais astuto de todos os animais”, simbolizando a ciência secreta divinizada e da magia.

Em nossa caminhada rumo à celebração da Páscoa, fazemos memória dos grandes momentos da história da salvação. Neste primeiro domingo da Quaresma, ouvimos o relato da criação do homem e da mulher. Ele foi escrito 900 anos de Jesus Cristo e lança mãos de símbolos próprios da época, como a serpente, deus dos povos estrangeiros. Ouvindo este texto que procura explicar a origem do mal no mundo e a fragilidade humana, procuremos que a Palavra de Deus nos ajude a aprofundar o sentido de nossa existência e de nossa missão.

Salmo responsorial  50/51,3-6a12-14.17.  O Salmo começa com o apelo à misericórdia, que inclui a confissão formal do pecado; este versículo é síntese ou germe do resto do Salmo. Começa a primeira parte, no reino do pecado, sem mencionar Deus. O pecado é um ato pessoal contra Deus, não mera violência de ordem abstrata.

           

O Salmo 51(50) é a súplica de uma pessoa que reconhece sua profunda miséria e seus pecados; que tem plena consciência da gravidade da própria culpa, pois quebrou a Aliança com o Senhor. São muitos os pedidos, mas todos se concentram em torno do primeiro: “Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor!”.

O rosto de Deus no Salmo 50/51 é o Deus da Aliança. A expressão “pequei contra ti, somente contra ti” (versículo 6a) não quer dizer que essa pessoa não tenha ofendido o próximo. Seu pecado é de injustiça (versículo 4a). A expressão quer dizer que a injustiça contra o semelhante é um pecado contra Deus e uma violação da Aliança. O salmista, pois, tem consciência aguda da transgressão que cometeu. Porém, maior que seu pecado é a confiança no Deus que perdoa. Maior que a sua injustiça é a graça do parceiro fiel. Aquilo que o ser humano não pode fazer (apagar a dívida que tem com Deus), Deus o concede gratuitamente ao perdoar. Podemos contemplar neste Salmo o rosto de Deus como misericórdia e parceiro fiel.

O tema da súplica está presente na vida de Jesus. O tema do perdão ilimitado de Deus aparece forte, por exemplo, no capítulo 18 de Mateus, nas parábolas da misericórdia (Lucas 15) e nos episódios em que Jesus perdoa a recria plenamente as pessoas (por exemplo, João 8,1-11; Lucas 7,36-50 etc.)

O salmista em oração coloca-se diante da misericórdia de Deus, confiando que Ele tudo pode e quer sanar, regenerar, recriar todas as coisas com a santidade e a novidade do seu Espírito.

No Primeiro Testamento este Salmo lembrava ao povo a misericórdia de Deus com Davi, apesar de seu grande pecado. Cantando hoje este salmo, peçamos que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a viver em profunda comunhão com Ele e com os irmãos.

PIEDADE, Ó SENHOR, TENDE PIEDADE,

POIS PECAMOS CONTRA VÓS.

 

Segunda leitura – Romanos 5,12-19.  O Apóstolo Paulo faz seu comentário sobre a leitura do Gênesis que está na primeira leitura. Ele procura destacar o papel de Jesus Cristo na história humana.

Na difícil Carta aos Romanos, Paulo pretende expor os fundamentos da fé cristã, em particular o princípio da justificação por meio da fé, ou seja, da adesão a Cristo, que ele contrapõe não às obras da caridade, mas à observância da lei de Moisés. Não é das obras da Lei que vem a salvação, mas de Cristo. O Adão originário é prefiguração do novo Adão, Cristo: se em Adão a Humanidade pereceu, em Cristo a vida transborda para todos.

O pecado de Adão introduziu a morte no mundo e atingiu toda a Humanidade (cf. versículo 12). Ainda antes que Javé desse a Lei a Moisés, e que nela as culpas fossem evidenciadas e acusasse os transgressores, a morte reinava sobre as pessoas (versículos 13-14).

A Lei serviu para mostrar os pecados a evitar e as obras a cumprir, mas não pode dar a força de evitar aqueles e a realizar as outras. A Lei de Moisés não dá a graça que salva: a graça é dada somente por Cristo Jesus, cf. João 1,17.

Na Primeira Leitura é evocado Adão, no Evangelho Jesus, e na Segunda Leitura, ambos são comparados. O ponto central desta leitura é o versículo 18: condenação para todos pelo pecado de Adão, reconciliação para todos os que quiserem, pela justiça de Cristo. Todos são pecadores (Romanos 1,18—3,20), mas para todos existe salvação na fidelidade de Deus e no gesto salvífico de Cristo (Romanos 3,21—4,25). Paulo evoca este Mistério pelos contrastes: um / todos, morte / vida, adão / Cristo. Tomando o lugar de todos, Jesus venceu a morte, para oferecer a todos a comunhão com Deus, que é vida. – Romanos 5,12-14 cf. Romanos 6,23; 1Coríntios 15,21-22; Gênesis 3,19 – Gênesis 5,19 cf. Isaias 53,11.

Paulo reflete sobre Adão na qualidade de teólogo e não de historiador (cf. romanos 7): procurando as estruturas fundamentais da existência humana, ele lança a responsabilidade coletiva e a dominação da “morte” sobre toda a humanidade.

Paulo faz um comentário sobre este episódio. Por ocasião do pecado, a morte entrou no mundo e, como todos pecaram, todos morrem – mesmo os que não pecaram por transgressão de um mandamento, como Adão. Paulo tem certeza de que todos estão numa situação marcada pelo pecado; e a morte, com seu sentido de destruição, é o sinal disso. Mas Adão, diz Paulo, é um símbolo (versículo 14b). É o homem, o indivíduo, pelo qual pecado e morte, entraram na existência humana. Ele é, por contraste, a prefiguração daquele outro indivíduo, pelo qual – com muito maior abundância ainda que o pecado e a morte – a graça e a vida entraram em nossa existência, justificando-nos (tornando-nos justos) perante Deus. Para entender bem esta reviravolta, devemos também lembrar que, para Paulo, a morte do cristão já não é aquela destruição da vida (1Coríntios 15,35-53). Assim, a primeira leitura e também a segunda leitura, nos levam à conclusão: onde o pecado abundou, superabundou a graça.

Evangelho – Mateus 4,1-11. Quando Jesus foi batizado por João Batista no Rio Jordão, ele apareceu como o Messias, cheio do Espírito Santo. Então, logo depois do batismo, foi conduzido pelo Espírito para o deserto, onde pôde se preparar para a missão, através de um longo jejum de quarenta dias. Lá foi tentado pelo diabo. O diabo, aí, representa todas aquelas forças que tentaram afastar Jesus do projeto missionário que Deus lhe havia confiado.

Mateus seleciona três provas exemplares de tentação, situações fundamentais e até indispensáveis na missão de Jesus.

1ª) Tentação do Pão (Mateus 4,1-4): dar pão aos famintos faz parte do projeto do Reino, mas não é conseguido por mágica. Jesus mesmo se queixou do “sucesso” obtido pela multiplicação dos pães, quando viu que, em vez de entender o significado do sinal como apelo à partilha, a multidão queria comida de graça. Esta é a tentação da abundância sem esforço.

Pois bem, diz o Evangelho que, naqueles quarenta dias de jejum preparando-se para a missão, Jesus sentiu fome. E apareceu o diabo com palpites enganadores: “É muito simples! Você não é o Filho de Deus? Você tem poder! Então, transforme essas pedras em pão para matar a fome!”. Jesus, no entanto, firme no seu objetivo de estar totalmente à disposição do Pai, não se deixou envolver pela proposta do tentador e respondeu com uma frase da Bíblia: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Deuteronômio 8,3).

Depois, o diabo levou Jesus para Jerusalém, para um dos pontos mais altos do Templo. E, ali Jesus foi desafiado mais uma vez pelo tentador: “Você não é o Filho de Deus? Pois, então, jogue-se daqui para baixo. Muito simples, pois está escrito num dos Salmos da Bíblia: “Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra!” (Salmo 91,11-12). Mas Jesus, firme e decidido na sua missão, não se deixou envolver, não! Citando outra frase bíblica, respondeu com um “não” contundente: “Escute aqui! Na Bíblia também está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Deuteronômio 6,16).

2°) Tentação do sucesso (Mateus5-7): na segunda prova, o diabo pela novamente ao titulo de Filho de Deus que Jesus recebeu no batismo e cita o Salmo 91; no qual Deus promete proteger o justo. A tentação é colocar Deus a serviço do próprio capricho e da vaidade pessoal. Jesus cita Deuteronômio 6,16. Pôr o Pai à prova é pedir-lhe ou exigir milagres em beneficio próprio, como em Massa e Meriba (cf. Êxodo 17,1-7; Números 20, 12-13: Salmo 95, 8). Isto significa tentar a Deus, desviar a sua atuação a favor do povo para satisfazer o desejo de brilhar e fazer sucesso. É manipular Deus e enganar as pessoas que o seguem.

Mais tarde, o diabo conduziu Jesus para o alto de uma montanha e, lá de cima, mostrou para Jesus “todos os reinos do mundo e sua glória”. E disse: “Olhe só! Isso tudo eu posso lhe dar. Isso tudo pode ser seu. É só se ajoelhar diante de mim, e me adorar. Que tal?”. Mas Jesus, profundamente ajustado no Espírito de Deus e, consciente de sua missão, de novo não se deixou enganar. Rebateu o tentador com outra frase bíblica: “Vá embora daqui, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus, e somente a ele prestarás culto’” (Deuteronômio 6,13s).

3°) Tentação de poder e riqueza (Mateus 4,8-11): O diabo, talvez uma referência ao culto imperial romano, gaba-se de dispor do poder político sobre o mundo e dele usufruir à vontade. Ele oferece o poder de Jesus, para que seja um messias temporal. O poder e a riqueza são contrários ao plano do Pai, porque se constroem com roubo e acumulação. Riqueza e poder de alguns à custa da miséria e escravidão de multidões.

Diz o evangelho de Mateus que, então, “o diabo deixou Jesus, e os anjos se aproximaram e o serviram”.

Podemos dizer que o pecado é, fundamentalmente, “orgulho”. Jesus, por sua atitude contrária ao orgulho – a obediência ao Pai –, restaura a harmonia com Deus (“os anjos lhe serviram”, Mateus 4,11), e nós somos convidados a acompanhá-Lo nesta experiência de 40 dias. O nosso jejum ganha aqui o sentido de procura da vontade de Deus, de despojamento interior, de não mais estarmos cheios de nós mesmos. Pois só assim poderemos acompanhar Jesus no resto do seu caminho, no esvaziamento total em prol das pessoas. E este é caminho de graça, pelo qual reencontramos a vida que ninguém pode tirar de nós (diferentemente do bem-estar, do sucesso e do poder), a vida que é transformada em presença eterna Daquele que nos criou e nos chamou. Assim, venceremos com Cristo o “antigo inimigo” (prefácio próprio).

  1. A PALAVRA CELEBRADA NO COTIDIANO DA VIDA

Quaresma é hora da verdade. Do defrontar-se com a realidade profunda de nós mesmos, a fim de redescobrir-nos e reorientar-nos. De sair de uma tenebrosa inconsciência noturna para um luminoso engajamento diurno. A Palavra de Deus me acorda para a minha realidade originária e última: estou inserido no mistério de Cristo, Filho do Homem e Filho de Deus. A condição humana e a destinação divina.

Se Quaresma é tempo de conversão, deve haver algo de que se converter: do pecado. Muita gente, hoje, acha, que pecado não existe. Então, por exemplo, a violência (tantos tipos de violência!) não é simplesmente sinônimo de pecado? E quem não tem defeitos de caráter, sinônimo da nossa condição de pecadores que somos, geradores de violência contra nós mesmos, contra os outros e contra a sociedade? Estamos dispostos a corrigir nossos defeitos de caráter? Até que ponto?

Escreve um irmão nosso, biblista e teólogo: “Somos esboços inacabados daquilo que o ser humano, em sua liberdade, é chamado a ser”. Mas em uma única pessoa o esboço foi levado à perfeição, e essa pessoa nos serve de modelo. Jesus foi tentado, à maneira de nós, mas não caiu, não se dobrou à tentação do ‘Satanás’, do Sedutor. Ele obedeceu somente a Deus, não apenas quando das tentações do deserto, mas em toda sua vida, especialmente na ‘última tentação’, a hora de sua morte. Por isso, tornou-se para nós fundamento de uma vida nova. Reparou o pecado de Adão.

As tentações de Adão e de Jesus nos fazem entender melhor a nossa realidade. O pecado tece uma teia em redor do ser humano, uma ‘estrutura de pecado’. Muita gente vive presa nessa teia: corrupção, vício, mediocridade, violência de uma sociedade que mata quem não mata… Ora, enquanto nós somos solidários com Adão no pecado, Jesus se torna solidário conosco para resistir-lhe e vencê-lo. A solidariedade no mal pode e deve ser superada pela solidariedade no bem, alicerçada em Jesus Cristo. Somos chamados a ser solidários com Cristo na sua ‘obediência’, pela qual ele supera a ‘desobediência’ de Adão e nos liberta dos laços do pecado; e a ser solidários com os nossos irmãos, em Cristo, em vez de ‘adorar’ riquezas e vantagens que o diabo nos apresenta, e que resultam na opressão dos mais fracos.

Por isso, cantamos no dia de hoje: “Senhor, eis aqui o teu povo, que vem implorar teu perdão; é grande o nosso pecado, porém, é maior o teu coração”. E também pedimos ao nosso Deus onipotente que, “ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma vida santa”.

4- A PALAVRA SE FEZ CARNE E SE FAZ CELEBRAÇÃO

 

Ao entrar no lugar da celebração nos deparamos, visualmente, com algumas mudanças importantes. O que está faltando? O que está modificado? Sobra alguma coisa? (Deixar que o povo observe o espaço da celebração). O que talvez mais chame a nossa atenção é a cor desse tempo que chamamos de Quaresma. Não por coincidência, chamamos aquelas árvores floridas que encontramos pela cidade de quaresmeiras, por causa da sua cor e do tempo em que se abrem em flor. A cor é aquilo que modificou o lugar em que estamos reunidos para celebrar. E, já que falamos em flores, parece que elas estão ausentes do nosso espaço…e não por falta de jardins, ou de floriculturas. A Igreja pede que nesse período não enfeitemos o espaço da celebração comas flores. É o que falta! Por fim, podemos nos lembrar do que sobre. Se não temos flores, enfeites, sobra espaço. Tudo parece mais vazio…

O lugar da celebração é o retrato da nossa alma. A alma de cada um de nós e a alma da comunidade cristã. É a manifestação daquilo que somos, do que estamos vivendo, do que buscamos, ou até mesmo daquilo que precisamos ser. O quarto bagunçado de um jovem diz muito sobre sua vida, no momento das transformações adolescentes. Precisa que a mãe ou o pai insista: “Fulano, arrume o seu quarto!”. O espaço diz o que somos, como nos comportamos, como nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo à nossa volta. Encontrar o templo vazio de flores e enfeites, modificado nas cores e cheio de espaço para preencher, quer dizer algo do que somos e do que vivemos agora, nesse Tempo da Quaresma. Nossa mãe Igreja nos chama a dar um jeito nas coisas…

O templo vazio nos lembra o deserto, o abandono, a solidão e a busca. Falta vida, alimento, cores, companhia. Ninguém vive no deserto. Passa-se por ele. É caminho necessário pra se alcançar algo. Lembra-nos que somos povo do caminho, peregrino, do deserto. Estamos em busca, passando, fazendo uma páscoa (passagem) para nossa meta. Funciona assim para a vida, funciona assim para a fé: sem atravessar desertos não se chega a oásis algum. Não se alcança a terra prometida, nem os sonhos, nem a vida eterna.

O roxo, simbolicamente, recorda-nos tudo aquilo que não queremos ver. Quando levamos uma pancada, dizemos: “ficou roxo”. Entramos no deserto para ver o roxo da vida, aquelas coisas que nos negamos a olhar e a enfrentar. Tudo aquilo que causa desconforto, mas ao mesmo tempo “grita” aos nossos ouvidos: o que não funciona bem na vida, o que precisa ser mudado, o que me impede de alcançar a meta, ou mesmo de caminhar e fazer a travessia. Nós somos a comunidade dos que desejam o roxo. Queremos olhar, corajosamente, para nossos pecados, nossos demônios, nossos infernos. Sem reconhecê-los, como poderíamos exorcizá-los? E fazemos tempo e espaço para isso. Colorimos tudo isso de roxo, até que tome forma de flor, flor de quaresmeira que proclama a proximidade da páscoa, mesclando os desconfortos da vida com a alegria que pode surgir da coragem de se enfrentar os vazios, as lutas, as feridas e os problemas da vida.

Jesus entra no deserto com a gente, ele fez o seu trajeto, a sua passagem, mas continua a fazê-lo em cada um de nós e em nossa comunidade. Quando tempos medo de enfrentar os nossos “roxos”, ele nos encoraja. Quando nos sentimos sós no caminho e na travessia, ele se mostra presente ao nosso lado. Quando sentimos falta das flores, ele nos incentiva a procurar o jardim…O caminho da quaresma foi primeiro trilhado por ele na sua paixão, nos enfrentamentos da sua missão, no momento em que assumiu e transformou o medo, a tristeza e a dor em vida nova.

  1. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Na verdade, a vitória pascal de Jesus já está aqui no meio de nós, em nossa assembléia, em sua Palavra e, sobretudo, na eucaristia da qual vamos participar. Por essa razão que, enquanto preparamos a mesa para a liturgia eucarística, todos cantamos aquela promessa feita ao profeta: “O vosso coração de pedra se converterá, em novo, em novo coração!”. E o sacerdote concluiu pedindo a Deus “que o nosso coração corresponda a estas oferendas com as quais iniciamos nossa caminhada para a Páscoa”.

A vitória de Jesus sobre todo mal é o grande motivo de louvor e ação de graças ao Senhor, nosso Deus. Por isso que o sacerdote, em nome de todos, abre a oração eucarística com este canto: “Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva”.

E pensar que todos nós participamos dessa vitória, quando Cristo, na liturgia eucarística, se oferece ao Pai e nos oferece com ele! E o Pai, por sua vez, nos entrega de volta o Cristo que recebemos na comunhão. Ele vem nos ajudar a viver intensamente a Palavra. Então, cantamos com o Salmo 91: “Quando invocar, eu atenderei, na aflição com ele estarei: libertarei, glorificarei, minha salvação eu lhe mostrarei”. E, assim, no final podemos rezar: “Ó Deus, que nos alimentastes com este pão, que nutre a fé, incentiva a esperança e fortalece a caridade, dai-nos desejar o Cristo, pão vivo e verdadeiro, e viver de toda palavra que sai da vossa boca”. Que assim seja! Amém!

  1. ORIENTAÇÕES GERAIS

  1. Valorizar a presença das pessoas que estão se preparando para os Sacramentos da Iniciação Cristã na Vigília Pascal.

  1. Em nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa, os símbolos e tudo em nossa prática celebrativa deve nos ajudar a entrar na dinâmica do tempo litúrgico, que nos pede reserva e recolhimento. O verde do Tempo Comum dá lugar à cor roxa; os cactos e galhos secos ornam o espaço; os cantos são mais contidos e o Aleluia é reservado à alegria pascal..

  1. Valorize-se o silêncio durante a celebração, principalmente na liturgia da Palavra.
  2. Um bom ensaio dos cantos previstos para a celebração se faz necessário, para que ela transcorra em clima realmente orante e de fé. A Paulus editou um CD: com os cantos próprios da Quaresma e o Hino da Campanha da Fraternidade e para a Missa de cada domingo quaresmal deste ano A. O CD: da Campanha da Fraternidade 2020 trouxe um belíssimo repertório quaresmal. Não podemos deixar de utilizar o CD: Liturgia XIV, Quaresma Ano B e C, editado pela Paulus, com muitos cantos bíblicos.

  1. O ministro que preside a celebração motiva a comunidade a fazer a caminhada quaresmal, acolhendo os apelos de conversão que emergem da Campanha da Fraternidade 2020

  1. Convém valorizar, ao máximo, na proclamação da Palavra de Deus (leituras, canto do salmo, evangelho). Proclamá-la de tal maneira que a assembléia sinta que é realmente Deus que está falando para o seu povo. Isso requer que a equipe de liturgia com os leitores e o salmista façam um bom ensaio e, mais que ensaio, uma verdadeira vivência da Palavra.

  1. Daí decorre a exigência de a proclamação expressar uma atitude espiritual de quem está sendo porta-voz de Deus que fala ao seu povo.

  1. À preparação espiritual se alia a preparação corporal: postura do corpo, tom de voz, semblante, a maneira de aproximar-se da mesa da Palavra, as vestes dos ministros…

 

  1. MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos “cantar a liturgia” e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com “cada domingo da Quaresma”, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são da Quaresma, “é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado”. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

Canto de abertura. Deus atende o clamor do seu servo (Salmo 90/91,15-17). “Ele chamará por mim e ouvidos lhe farei”, CD:CF-2020, melodia da faixa 3; “Volta, meu povo, ao teu Senhor e exultará teu coração”, CD: CF-2017, melodia da faixa 6, ou CD: CF-2014, melodia da faixa 2.

A Quaresma é um tempo que damos maior liberdade para Deus agir em nós. É tempo de voltarmos para Deus, implorar o seu perdão. A Liturgia também oferece outras opções: “Volta, meu povo, ao teu Senhor e exultará teu coração”, CD: CF-2017, melodia da faixa 6, ou CD: CF-2014, melodia da faixa 2. “Senhor, eis aqui o teu povo”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 1, Quaresma Ano A, ou Hinário Litúrgico 2, página 296; “Dizei aos cativos: “Sai”, Isaias 49, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 11.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII e no CD: CF-2017.

  1. Ato penitencial. Nesse domingo sugerimos a Fórmula 3, própria para a Quaresma da página 397 do Missal Romano. Todos se coloquem de joelhos.

3- Salmo responsorial 50/51. Arrependimento e pedido de restauração. “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós!”, “CD: Cantando os Salmos – Ano A, volume 1, melodia da faixa 14 – Paulus ou CD: CF-2014, melodia da faixa 5 ou CD: CF-2017, melodia da faixa7.

 

4- Aclamação ao Santo Evangelho.Não se vive só de pão” (Mateus 4,4b). “Louvor e glória a ti, Senhor”, CD: CF-2017, melodia da faixa 9.

  1. Canto após a homilia. Se for oportuno cantar após a homilia o Hino da Campanha da Fraternidade 2020, melodia da faixa 1. Seria oportuno entoar este hino após a homilia, para facilitar a vinculação da Liturgia da Palavra com a vida e o tema da CF.

Na Idade Média, era costume o povo responder ao sermão (hoje homilia) com o canto de “Kyrie Eleison!”.

Houve, no passado, pregadores famosos, que deixavam o povo cantar cânticos no início ou no fim do seu sermão.

  1. Apresentação dos dons: O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração no deserto com Jesus. Podemos entoar, “A abstinência quaresmal vós consagrastes. Ó Jesus”, CD:CF-2020, melodia da faixa 7.

A Igreja também oferece outras opções importantes “Bendito és tu, ó Deus criador”, melodia da faixa 10. “Sê bendito, Senhor, para sempre”, CD: CF-2014, melodia da faixa 8. “O vosso coração de pedra”, CD: Liturgia XIII, Quaresma Ano A, melodia da faixa 5. “Eis o tempo de conversão”,CD: Liturgia XIV, Quaresma Anos B e C ou CD: CF 2012, melodia da faixa 12, ou CD: CF 2009, melodia da faixa 13. A partitura está no Hinário Litúrgico II da CNBB, página 217. Outra possibilidade é o Hino da Campanha da Fraternidade 2017, se não foi cantado após a homilia.

  1. Canto de comunhão: “Não se vive só de pão” (Mateus 4,4). “O homem não vive somente de pão”, CD:CF-2020, melodia da faixa 9. “Nós vivemos de toda palavra que procede da boca de Deus” CD: CF-2014, melodia da faixa 11 ou CD: CF-2017, melodia da faixa 13.

A Igreja oferece também outras opções. “Nós vivemos de toda palavra que procede da boca de Deus” CD: CF-2014, melodia da faixa 11 ou CD: CF-2017, melodia da faixa 13. Salmo 90/91; “Quando invocar, eu atenderei”, gravado no CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 15 ou CD: CF 2009, melodia da faixa 20 ou CD: CF 2007, melodia da faixa 9. A partitura se encontra no Hinário Litúrgico II da CNBB, página 53. “Quem vive à sombra do Senhor”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 7; “Agora o tempo se cumpriu”, CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 3; “Reconciliai-vos com Deus”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 6.

O canto de comunhão deve retomar o Evangelho. No primeiro domingo da Quaresma, mergulhamos no deserto de Jesus. A exemplo do Divino Mestre, devemos resistir a toda e qualquer tentação, isto é, provação. Devido o espírito de confiança que anima a liturgia de hoje e certos, da proteção dele, sugerimos que cantemos na comunhão o Salmo 91/90: “Quando invocar, eu atenderei, na aflição com ele estarei…” Vamos também com Ele pregar o Evangelho de Deus. Podemos também cantar Marcos 1,15 “Agora o tempo se cumpriu, o Reino já chegou…”, como estão indicados acima.

8. O ESPAÇO CELEBRATIVO

  1. Se há um elemento, que, sem palavras, cumpre a função mistagógica, isto é, de conduzir para dentro do mistério celebrado, este é o Espaço Sagrado. Por isso, devemos dedicar-lhe todo o nosso cuidado.

  1. Como tempo preparatório para a Páscoa anual, a Quaresma nos convida a uma intensa revisão de vida. Os elementos simbólicos festivos serão reservados. O espaço celebrativo expressa essa “reserva simbólica” através da retirada das flores, do despojamento e austeridade que convém a este tempo. Também a cor roxa da estola (ou casula) e das toalhas ajudará a sinalizar o tom penitencial característico desse tempo.

  1. A cruz é elemento importante em qualquer tempo, mas na Quaresma é, sem dúvida, um sinal marcante da paixão de Cristo e da paixão do mundo. Para que esse sinal seja devidamente enfocado, sugerimos um incensário aos pés da cruz. As brasas sejam alimentadas de forma constante e discretamente, sem excessos. Colocar junto à cruz algumas pedras e um cacto saindo das pedras e galhos secos para lembrar a dureza do deserto.

  1. Para o tempo quaresmal, já é de praxe, o uso da cor roxa nas vestes, velas e paramentos. Mas temos que ir além. Redescobrir, a cada vez, o sentido da chamada “reserva simbólica”: Durante este tempo (a Quaresma) é proibido ornar o altar com flores, cantar o aleluia ou o hino de louvor, o canto de louvor a Deus após a comunhão, com exceção das solenidades e festas.

  1. Isso nos ajuda a preparar o espaço celebrativo levando em conta o tempo quaresmal. O ambiente deve estar “despojado a austero”. Isso vale também para outros tempos litúrgicos. Devemos “fazer uma limpeza” de tudo o que é supérfluo no espaço celebrativo, como cartazes, folhagens, fitas, adornos, faixas, muitas imagens, etc. Os exageros de enfeites causam uma verdadeira “poluição visual”, e é preciso achar um lugar “para pousar o olhar e contemplar”. Por outro lado, devemos valorizar e destacar o que é realmente essencial para a celebração do Mistério de Cristo, isto é, o altar, a mesa da Palavra, a cadeira presidencial e a pia batismal. Durante a Quaresma outros símbolos fortes são importantes, como a cruz, a cor roxa e outros próprios para cada celebração.

  1. A equipe procure caracterizar o ambiente e organizar toda a celebração dentro de uma certa sobriedade (cor roxa, sem flores, sem glória, sem aleluia e sem o canto de louvor a Deus após a comunhão. Isso não quer dizer que o ambiente seja de tristeza. A fé cristã une numa mesma celebração “a dor e a alegria, a luta e a festa”. Na Quaresma se retoma o silêncio, as celebrações são mais silenciosas, sóbrias, simples, austera. Não se enfeita o espaço celebrativo com flores. Os instrumentos apenas acompanham o canto. Não deve ter baterias e instrumentos de percussão fazendo aquele barulho como se fosse uma boate. É o silêncio que predomina. O espaço da celebração, a partir desta quarta-feira, deve ser organizado e permanecer por toda a Quaresma.

  1. O cartaz da Campanha da Fraternidade e outras gravuras afins sejam colocados no mural ou noutro espaço cuja finalidade é informar os fiéis dos acontecimentos comunitários. Não é oportuno afixá-lo, por exemplo, na Mesa do Altar ou na Mesa da Palavra. Caso seja apresentado na procissão de abertura, ou na homilia, deve ser reconduzido a um lugar oportuno.

9- O ROXO NA LITURGIA DA QUARESMA

O roxo, simbolicamente, recorda-nos tudo aquilo que não queremos ver. Quando levamos uma pancada, dizemos: “ficou roxo”. Entramos no deserto para ver o roxo da vida, aquelas coisas que nos negamos a olhar e a enfrentar. Tudo aquilo que causa desconforto, mas ao mesmo tempo “grita” aos nossos ouvidos: o que não funciona bem na vida, o que precisa ser mudado, o que me impede de alcançar a meta, ou mesmo de caminhar e fazer a travessia. Nós somos a comunidade dos que desejam o roxo. Queremos olhar, corajosamente, para nossos pecados, nossos males, nossos infernos. Sem reconhecê-los, como poderíamos exorcizá-los? E fazemos tempo e espaço para isso. Colorimos tudo isso de roxo, até que tome forma de flor, flor de quaresmeira que proclama a proximidade da páscoa, mesclando os desconfortos da vida com a alegria que pode surgir da coragem de se enfrentar os vazios, as lutas, as feridas e os problemas da vida.

Jesus entra no deserto com a gente, ele fez o seu trajeto, a sua passagem, mas continua a fazê-lo em cada um de nós e em nossa comunidade. Quando tempos medo de enfrentar os nossos “roxos”, ele nos encoraja. Quando nos sentimos sós no caminho e na travessia, ele se mostra presente ao nosso lado. Quando sentimos falta das flores, ele nos incentiva a procurar o jardim… O caminho da quaresma foi primeiro trilhado por ele na sua paixão, nos enfrentamentos da sua missão, no momento em que assumiu e transformou o medo, a tristeza e a dor em vida nova.

  1. AÇÃO RITUAL

Iniciamos o tempo da quaresma entrando no deserto para enfrentar as tentações e o pecado que desfiguram as feições divinas em nós. Jesus nos inicia neste caminho: com ele fazemos a travessia rumo à páscoa, à ressurreição.

Fazer a experiência do vazio, da reserva simbólica (ausência de flores, cantos como o glória e os aleluias, moderação nos instrumentos musicais). A pedagogia da liturgia, em sua simplicidade e despojamento manifestados na Quaresma, há de nos ensinar, por si, a adentrar no mistério da Quaresma.

A regra da reserva simbólica vale para todos. A liturgia nos ensina a reservar os elementos festivos para a festa da Páscoa. Assim, os grupos são chamados a serem mais moderados na execução dos instrumentos, evitando “solos instrumentais”, deixando de tocar algum instrumento, ou mesmo cantando algo “à capela” (sem acompanhamentos musicais). É tempo também de escutar, de ser “obediente”, de aguçar o discipulado: uma boa forma de manifestar isso seria assumir o repertório da CNBB para as celebrações.

Ritos Iniciais

  1. É costume antigo da Igreja, marcar com o sinal da cruz, neste domingo, as pessoas aceitas para receber o Batismo na Vigília Pascal. Depois quem preside convida a todos a saudar a Trindade: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e a saudação como de costume”.

  1. Seria muito oportuno a saudação inicial de 2Tessalonicensses 3,5:

“O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco”.

  1. Em seguida quem preside, ou o diácono ou um leigo ou leiga preparado, dar o sentido da celebração com estas palavras ou outras semelhantes:

Domingo do deserto de Jesus. Neste Domingo estamos com Jesus no deserto. Invoquemos o Senhor, de todo coração, para que o seu Espírito nos conduza em nossos desertos e nos liberte de qualquer tentação.

  1. Um símbolo antigo e universal de purificação que poderá a ser valorizado é o rito do sal. Após a saudação inicial e o sentido litúrgico da celebração, se a assembléia não for muito numerosa. Pode-se pedir a bênção de Deus sobre o sal! Para isto, divide-se o sal em vários pires. Trazer uma vasilha com sal e quem preside faz a seguinte oração:

“Senhor, nosso Deus, na vossa infinita misericórdia, vós criastes o sal. Nós vos bendizemos por esta criatura que serve de remédio e dá sabor à nossa comida. E vos pedimos, ó Criador nosso, abençoai este sal, com a graça do Espírito santo. Que ele seja para todos nós um remédio de salvação em Cristo. E que por ele sintamos gosto pelas coisas de Deus, reveladas em sua Palavra. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”. Em seguida, cada pessoa recebe uma pitada de sal e ao colocá-lo na boca faz uma oração pessoal em silêncio ou conduzida por quem preside. Outra possibilidade é distribuir o sal no final da celebração em pequenos saches para que todos levem para casa.

  1. O presbítero motiva os fiéis à penitencia com a Fórmula 2 do Missal Romano página 391:

No início desta celebração eucarística, peçamos a conversão do coração, fonte de reconciliação e comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs.

  1. Reunida em torno da cruz, a comunidade pode fazer, de joelhos ou inclinada, o Ato Penitencial e ser motivada a expressar o desejo de viver a Quaresma, indicando aspectos nos quais é chamada à conversão. Um sinal que pode favorecer a piedade dos fiéis é o colocar-se de joelhos durante esse rito. Sugerimos a Fórmula 3, própria para a Quaresma da página 397 do Missal Romano.

 

Senhor, que fazeis passar da morte para a vida quem ouve a vossa palavra,

tende  piedade de nós… Senhor…

Cristo, que quisestes ser levantado da terra para atrair-nos a vós,

tende piedade de nós… Cristo…

Senhor, que nos submeteis ao julgamento da vossa cruz,

tende piedade de nós… Senhor…

  1. Na Quaresma não se canta o Hino de Louvor.

  1. Na Oração do Dia suplicamos ao Pai, que nos concede acompanhar e conhecer Jesus Cristo de perto e mais profundamente para que possamos e corresponder ao seu amor.

Rito da Palavra

  1. A Liturgia da Palavra pode ser introduzida com o refrão: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que vem do Senhor…”

  1. Em todo o rito, a Palavra se conjuga com o silêncio. Momentos de silêncio após as leituras, o salmo e a homilia, fortalecem a atitude de acolhida da Palavra. O silêncio é o momento em que o Espírito Santo torna fecunda a Palavra no coração da comunidade. Nem tudo cabe em palavras.

  1. A homilia (conversa familiar) interpreta as leituras bíblicas a partir da realidade atual, tendo o mistério de Cristo como centro do anúncio e fazendo a ligação com a liturgia eucarística (dimensão mistagógica) e com a vida (compromisso e missão).

  1. Como os sacramentos de “iniciação cristã” devem ser celebrados nas solenidades pascais e sua preparação imediata é a própria Quaresma, realiza-se habitualmente “o rito de eleição” no primeiro domingo da Quaresma. Depois da Profissão de fé, faz-se o Rito de acolhida, através do qual a comunidade “acolhe as pessoas” que irão receber o Batismo. A última preparação dos “eleitos” coincida com o tempo quaresmal (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos pág. 63, nº 139).

Rito da Eucaristia

  1. Na Oração sobre as Oferendas, peçamos a Deus que as oferendas que trazemos ao Altar lavem os nossos pecados para que sejamos santificados.

  1. Para todos os domingos da quaresma há Prefácios próprios. Nesse caso, recorde-se que as Orações Eucarísticas que aceitam Prefácios móveis são a I, II e III.

  1. É tempo de usar os Prefácios do Tempo da Quaresma, que são muito bonitos e trazem uma boa síntese teológica desse tempo litúrgico, No ano A, os prefácios são ainda mais significativos e se harmonizam perfeitamente aos evangelhos. Nesse caso, as orações possíveis são as três primeiras. As demais não admitem um prefácio diferente. No Prefácio próprio para este Domingo, contemplamos Jesus no deserto vencendo as tentações.

Ritos Finais

  1. Na Oração depois da Comunhão, suplicamos a Deus que depois de comungar o mistério da glória, nos ajude aqui na terra, já participarmos da realidade eterna de Deus.
  2. Recordar aos membros da comunidade os exercícios quaresmais: jejum, esmola e oração, mostrando também o que a comunidade oferece aos seus membros para realizar tais exercícios: obras sociais, momentos de oração, confissões e orientação espiritual, para um acompanhamento e esclarecimentos a respeito do jejum. Jejum dos passos: evitar freqüentar lugares inconvenientes a um bom cristão. (segunda semana).

  1. Concluir com a bênção final solene, própria da Quaresma Missal Romano, páginas 521 a 522 ou a oração sobre o povo número 6, página 531:

Ó Deus, fazei que o vosso povo se volte para vós de todo o coração (nesta Quaresma), pois se protegeis mesmo quando erra, com mais amor o guardais quando vos serve.

  1. As palavras do rito de envio podem estar em consonância como mistério celebrado: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

11- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se até o Jesus Cristo foi tentado, quanto mais o ser humano. Uma vez mais comenta o autor da Carta aos Hebreus: “Ele é capaz de ajudar os que são tentados porque ele mesmo foi tentado e sofreu ao ser tentado” (Hebreus 2,18). Não é fácil discernir no vozerio das pessoas a voz de Deus que interpela a nossa consciência. Aqui nos pode ajudar Jesus que, muito mais do que nós, até ao sangue (Lucas 22,44).

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

 

Um abraço fraterno a todos

Pe. Benedito Mazeti