Artigos, Pe. Hallison Parro › 10/05/2015

Na ótica do Evangelho de Marcos, Jesus, depois do chamado dos seus primeiros discípulos (Mc 1, 16-20), começa a revelar-se como o Messias Libertador, o Servo de Javé, que tem poder de submeter o mal e de salvar o homem de todo tipo de pecado. Cafarnaum, cidade do apóstolo Pedro, torna-se o centro da missão inicial de Jesus na Galileia e o local dos primeiros exorcismos e milagres de Cristo (Mc 1, 21-45). A luta do Messias contra as forças desumanizadoras revela a proximidade do reino de Deus em sua pessoa, em seus gestos e em sua palavra.

stmark (1)A prática do exorcismo não foi uma ação exclusiva de Jesus. Na Antiguidade, tanto pagãos quanto judeus proferiam exorcismos para afastar das pessoas os desequilíbrios mentais, a cegueira moral, a desobediência a Deus, a epilepsia e outras doenças, interpretados como obra dos demônios.

Etimologicamente, demônio provém da palavra grega “daimon”. Para os gregos, os demônios eram poderes espirituais divinos que podiam incidir tanto para o bem quanto para o mal das pessoas. Por outro lado, no Novo Testamento, de acordo com Uwe Wegner, o termo demônio se refere exclusivamente a poderes espirituais antidivinos, que pervertem ao pecado e geram idolatria. Esses “espíritos” são designados de impuros (Mc 1,23). Existem três razões para isso. Primeiro, a impureza não é uma qualificação moral, mas ritual e cultual. Como afirma Wegner, “os espíritos seriam ‘impuros’ precisamente por impedirem que a santidade de Deus se torne plena e abrangente” (p.87). Segundo, a impureza provém do contato dos demônios com coisas, seres ou lugares impuros, como desertos (Lc 8,29), ruínas (Ap 18,2), cemitérios e sepulcros (Mc 5, 2-5). Terceiro, a impureza é decorrente do fato de que determinadas doenças incapacitavam a pessoa para a plena participação nos atos litúrgicos ou nas assembleias das sinagogas, de acordo com a Lei Mosaica.

Não podemos negar o fato de Jesus ter realizado exorcismos. Ele foi considerado um bruxo e enganador por diferentes grupos de letrados judeus (São Justino: Diálogo com Trifon, 69,7). Eles não negaram os prodígios de Jesus, mas antes os consideraram como obras satânicas (Sanhedrín 107b).  Nos Evangelhos, por diversas vezes, Jesus também é acusado de agir pelo poder de Beelzebu (Mc 3,22; Mt 9,34, Lc 13,32; Jo 7,20; 8,52; 10,20). Na análise dos relatos de exorcismo, podemos constatar a eficácia do poder redentor de Jesus frente aos ‘possessos’, independentemente de como eram entendidas as desgraças das quais padeciam as pessoas.

O que o evangelista Marcos nos sugere com essa narrativa? Em primeiro lugar, ele enfatiza a autoridade do ensinamento de Jesus. Enquanto a pregação de Cristo é manifestação do Reino de Deus, a dos escribas pode ser diabólica. O poder de Jesus não se apoia em títulos, mas na força do Espírito Santo (Mc 1, 10-11). Durante o Evangelho, Jesus aparece três vezes falando numa sinagoga (Mc 1,21; 3,1; 6,2). Além do Templo, a sinagoga era o centro da vida judaica. No sábado, o culto era composto de orações, leituras da Escritura e ensino. Qualquer pessoa com instrução suficiente poderia ser convidada a ensinar e a fazer comentários sobre o texto proclamado. De acordo com Marcos, os presentes ficaram espantados com o ensino de Jesus (Mc 1,22). A referência à autoridade das palavras de Jesus pretende sugerir que Ele vem de Deus e traz uma proposta que tem a marca de Deus. Isso nos revela, na sequência da narrativa, que o poder com que Jesus expulsa os demônios é o mesmo poder presente em seu ensinamento. A “autoridade” que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se, também, em ações concretas.

A sinagoga é incapaz de libertar o possesso, porque o seu ensino é estéril. Somente Jesus terá o poder de restituir a dignidade e a pureza àquele homem. Em outras palavras, na sinagoga, encontra-se alguém que não está conforme ao que foi disposto por Deus. Notemos que Jesus cura o homem possesso apenas pela palavra, sem demonstrações rituais ou mágicas. Ele não atribui sua autoridade a outrem, já que detém a plenitude do Espírito Santo.

O grito do endemoninhado visa a interromper o ensino de Jesus, que liberta e cura o homem. Marcos nos relata que o homem possuído declara que Jesus é o Santo de Deus (Mc 1,24). Santidade, no Antigo Testamento, significa uma proximidade extraordinária com Deus (Sb 11,1; 1Rs 17,18) e, consequentemente, separação daquilo que é profano. A vinda do reino de Deus significa o fim do poder dos demônios e a instauração do senhorio do Pai sobre o mundo e a história. O demônio reconhece a identidade de Jesus e seu significado para o reino vindouro, porém de maneira parcial. A santidade de Jesus não significa estar separado do impuro, porque o Senhor irá ao encontro, exatamente, dos pecadores. Por isso, a finalidade da missão de Jesus, assim como a expressa o demônio, é inaceitável para o Senhor.

É fundamental nós observarmos que Marcos, nos últimos versículos, não enfatiza o exorcismo, mas o ensinamento novo de Jesus (Mc 1,27). O evangelista ensina à sua comunidade que a pregação de Jesus desemboca em atos em favor das pessoas que sofrem (6,34ss). A casa da Igreja deve ser um local onde as pessoas são exorcizadas do Maligno, por meio da palavra poderosa de Jesus. A sinagoga não pode conter a manifestação do poder divino de Jesus, de tal maneira que, diante da rejeição do ensinamento do Senhor, Jesus manifestar-se-á onde quer que se liberte as pessoas de todas as suas servidões (2,23-28; 3,1-6; 5,1-20.21-24.25-34.35-43; 7,15; 10,1-9.41-45; 12,13-17).

Podemos concluir, fundamentados em Marcos, que, também, nós corremos o risco de não libertar as pessoas, se nós nos esquecermos da centralidade do Evangelho de Jesus. A Igreja é a casa da Palavra e o local da acolhida de todos os sofredores. Como Jesus, sempre lutaremos contra o Mal presente nas diversas situações de opressão, sejam elas físicas, psíquicas ou espirituais. A nossa missão, como a de Jesus, será acabar com tudo o que subjuga as pessoas e as afasta de Deus. No trecho analisado, não se menciona a presença dos discípulos, mas sabemos, indiretamente, que estão com Cristo na sinagoga. Essa é a primeira lição que Marcos apresenta àqueles que foram introduzidos no Caminho: somente expulsaremos o Mal da nossa vida, se o aprendermos com Jesus, se confiarmos em sua palavra e se aceitarmos receber a oposição e a críticas daqueles que estão dominados pelo egoísmo e pelo pecado. A luta contra os “demônios” que retiram a beleza do mundo e que escravizam os homens, nossos irmãos, é sempre um processo doloroso, que gera conflitos, divisões, sofrimento, mas é, também, uma aventura que vale a pena ser vivida e uma luta que vale a pena travar. Embarcar nessa aventura é tornar-se cúmplice de Deus na construção de um mundo de homens livres.

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