Artigos, Pe. Hallison Parro › 10/06/2015

Na pessoa de Jesus, em suas palavras e obras, o Reino de Deus se fez presente na história da humanidade (Mc 1,15). O Senhor veio até nós para nos conceder a plenitude da vida existente em Deus mesmo. Por isso, ao longo do Evangelho de Marcos, Jesus expulsa os demônios e cura as pessoas (1,34). Essas ações exemplificam para a comunidade cristã a chegada definitiva do fim dos tempos, que tem seu início no mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Para Marcos, o Messias Jesus exorciza, com sua palavra, o mal do mundo, libertando-o das trevas do pecado e da opressão (Mc 1,21-28). Essa libertação não é uma realidade apenas espiritual, já que a salvação oferecida por Jesus se destina ao homem em sua totalidade. Deus, em sua divina misericórdia, quer libertar as pessoas de todos os males que as aflijam, sejam eles físicos, psíquicos ou espirituais (Mc 1,40-45; 5,25-34; 8,22-26).

Nesse sentidstmark (1)o, os milagres realizados por Cristo têm a função teológica de gerar a fé em sua pessoa e de apontar para a vocação última do homem: a vida em Deus. A cura das enfermidades em si mesma não teria valor algum para o Evangelho, se excluíssemos a necessidade do seguimento a Jesus (Lc 17,11-19). Por conseguinte, deve-se tomar cuidado com um cristianismo ou com pregações que visem apenas o milagre ou a cura (Mt 7,21-24), porque se esquecem de mostrar que a verdadeira religião consiste em adorar a Deus na gratuidade, independentemente dos sinais miraculosos que o Senhor, em sua providência, possa conceder à pessoa ou à própria Igreja.

Em Mc 1,29-31, Jesus cura uma mulher, a sogra do apóstolo Pedro, depois de ter libertado, publicamente, um homem possuído pelo demônio (Mc 1,21-28). Ambas as ações acontecem em dia de sábado: uma na sinagoga, outra na casa. O Evangelista Marcos deseja mostrar para a sua comunidade que a santificação do sábado, conforme prevista na Lei mosaica, não impede a realização de atitudes em favor do próximo. Tirar um enfermo, um excluído, do permanente estado de sofrimento, de nenhuma maneira, é visto por Jesus como oposto à honra de Deus (Mc 2,23-28; 3,1-6).

O drama de toda a situação apresentada na narrativa consiste na incapacidade de a sogra de Pedro servir aos irmãos, já que estava de cama com febre (Mc 1,30). Na Sagrada Escritura, a febre era considerada como uma das enfermidades que podiam consumir a vida. Em alguns casos, era vista como maldição divina (Lv 26,17; Dt 28,22). Jesus toma a iniciativa de se aproximar daquela mulher enferma, pois ele recebeu do Pai a missão de realizar a libertação do homem de tudo aquilo que o faz sofrer e lhe rouba a vida. O Senhor levanta a sogra de Pedro da inatividade total e dolorosa, e a devolve à vida normal, assim como o fará com o paralítico (2,9-12), com a menina morta (5,41) e com o rapaz convulsionado pela epilepsia (9,27).

Assim, o primeiro milagre de Jesus no Evangelho de Marcos tem como finalidade restituir a dignidade à pessoa enferma e capacitá-la para o serviço em comunidade. De acordo com Pallares (2002), “em dia de sábado, a mulher serve a Jesus e a seus discípulos. Jesus não a proíbe de fazê-lo; para ele, o serviço a Deus não está em contraposição com o serviço ao próximo” (p.23). Isso está em profundo contraste com a mentalidade restritiva dos adversários de Jesus sobre o descanso sabático (Ex 20, 8-11). Para eles, as curas e ações de Jesus, nesse dia, afrontam a Lei Mosaica e, portanto, são blasfemas (Mc 2,24). Por outro lado, para o Senhor, nenhuma lei, embora seja considerada a máxima norma para dar glória a Deus, deve ser um estorvo para acabar com a dor, a marginalização e a opressão que degrada as pessoas (Mc 2,27).

Em seguida, Marcos apresenta um sumário (resumo) das atividades de Jesus na Galileia (Mc 1,32-34). Esses versículos nos mostram a ‘cidade inteira’ reunida diante da porta da casa de Pedro. As multidões veem em Cristo um sinal de esperança, porque são como ovelhas sem pastor (Mc 6,34). Jesus não permanece indiferente nem cruza os braços diante do sofrimento do povo. O que ele começou em um espaço sagrado, na sinagoga (1,21-28), e continuou em uma casa particular (1,29-31), o concluiu em um lugar público (Mc 1,33). A casa de Simão Pedro pode ser considerada como uma representação da Igreja. A humanidade sedenta de esperança e de paz busca olhar para a comunidade cristã e encontrar nela a pessoa de Jesus. Nesse sentido, a Igreja, como o seu Senhor, deve sempre aproximar-se das pessoas que sofrem e libertá-las com o poder da Palavra. As portas da casa de Pedro não podem estar fechadas para o mundo, mas abertas, de modo que as pessoas encontrem acolhida e resposta para as suas angústias existenciais.

Novamente, Jesus impõe silêncio aos demônios, para que eles não revelem a sua identidade messiânica (Mc 1,25.34b). Essa proibição momentânea tinha como objetivo evitar um entendimento inadequado de sua pessoa pelas multidões. O Senhor não queria ser reconhecido como um messias político e guerreiro, mas como o servo sofredor que veio libertar a humanidade, cuja revelação apenas se dará plenamente na cruz (Mc 15,39).

Jesus, ao término de sua jornada, retira-se para rezar (Mc 1,35). A oração, para o Senhor, é a fonte e o cume de sua ação. Na intimidade com o Pai, Jesus encontra força para se libertar da tentação do sucesso e da popularidade fácil e centrar a sua vontade na vontade daquele que o enviou. Jesus ora para que não fracasse a obra que empreendeu. Sem oração, Jesus não pode realizar sua missão (9,29); mais ainda, sem a oração sua missão carece de força (11,22-24) e de sentido (14,36).

Simão Pedro e os outros discípulos não entendem porque Jesus se afastou de um lugar onde tudo parecia indicar êxito, já que toda a cidade reconhece o poder do Senhor. Existe, nesses versículos, uma contraposição interessante entre o barulho da cidade e o silêncio do lugar deserto. A vida de apostolado corre um sério risco de afundar-se no ativismo pastoral, se não houver pausas restauradoras. Causou muito mal à nossa Igreja uma espécie de teologia que afirmava que a ação já é oração. Isso foi, na realidade, uma desculpa para se fugir do verdadeiro encontro com Deus e para não se romper com uma teologia caracterizada pelo pragmatismo.

A Igreja apenas será fiel a Cristo se ela constantemente, depois de seu testemunho incansável na cidade, retirar-se para o encontro com o seu Esposo. O final de nosso texto termina com uma importante lição: do seu encontro com o Pai, brota, no coração de Jesus, uma vontade renovada de evangelizar, de levar a outros lugares a libertação do poder do mal e a cura de todas as enfermidades que assolam o homem. Também, nós, como Igreja, deveríamos realizar o mesmo processo: do nosso encontro com Cristo na vida de oração, partirmos como missionários ao encontro das pessoas. Se nós não o fazemos, é sinal de que a nossa vida de oração não é um verdadeiro colóquio com Deus ou, por outro lado, estamos presos à tentação do sucesso e das comodidades oferecidas por um mundo pagão.

 

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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