Artigos, Pe. Hallison Parro › 10/02/2015

Oração Inicial

Após um breve momento de silêncio, reze:

Espírito Santo, a Ti consagro os meus pensamentos: ilumina-me. Ordena os meus sentimentos e as minhas atitudes segundo a vontade do Pai. Que eu conheça Jesus Mestre como o meu Salvador e entregue a Ele o meu coração e toda a minha vida. Amém.

1- Leitura de Marcos 1, 1-13 (Verdade) – O que diz o texto?

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A palavra “Evangelho” não é uma invenção cristã. Esse termo já era utilizado na Antiguidade Clássica para caracterizar, por exemplo, o anúncio (Kerigma) da vitória de um general e de seu exército ou ainda de algum feito grandioso de reis e de imperadores. Quem proclama o “evangelho”, ou seja, essa boa palavra, esse bom anúncio é sempre um arauto revestido de autoridade.  Marcos inicia o seu texto com a seguinte afirmação: ‘Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’. Para o evangelista, Jesus é, por excelência, o definitivo arauto do Pai. Ele é o sujeito do anúncio. O próprio Jesus proclama a proximidade de Deus e seu Reino, na aurora dos tempos (Mc 1,14-15). Por meio de sua pregação, as promessas do Primeiro Testamento (AT) realizam-se na própria pessoa do Messias. Em segundo sentido, Jesus é o objeto do anúncio da comunidade cristã e do próprio texto marcano. O evangelista narrará o itinerário de Cristo pelos caminhos dos homens, entre o Jordão, onde é batizado, na fronteira da Galileia, e o novo encontro na Galileia, marcado com os seus discípulos, antes de sua prisão em Jerusalém (14,28), mas que, somente, será recordado no túmulo do qual seu corpo está ausente (16, 1-8).

Nesse sentido, o termo ‘evangelho’ não se refere, primeiramente, ao gênero literário, mas à mensagem sobre a salvação dos homens em Jesus. Esse uso constituiu a base para o uso posterior da mesma palavra para designar o ‘gênero literário’ do relato sobre Jesus, no qual a comunidade cristã expressa e reafirma sua fé em Jesus de Nazaré como o Cristo, como o Messias esperado de Israel. Além de Cristo, Jesus, também, é, para a Igreja nascente, o Filho de Deus. Podemos afirmar que, desde o início da sua narrativa, Marcos tem como objetivo conduzir os ouvintes à experiência do centurião aos pés da cruz (Mc 15,39), que, diante do Crucificado, o reconhece também como o Filho de Deus, aquele que foi verdadeiramente obediente à vontade do Pai.

O texto que nós propomos para o estudo e a meditação faz parte de um conjunto de três cenas iniciais (Mc 1,2-8; 1,9-11; 1,12-13), nas quais Marcos sintetiza, inicialmente, toda a verdade teológica sobre a missão específica e a verdadeira identidade de Jesus, a serem desenvolvidas e apresentadas ao longo de todo o Evangelho.

Segundo Combet-Galland (2009), Deus é o primeiro a tomar a palavra no texto de Marcos; o Pai fala pelas Escrituras em um texto atribuído a Isaías, que na realidade é uma junção de vários versículos (Ex 23,20; Ml 3,1; Is 40,3): “Eis que eu envio o meu mensageiro diante de ti a fim de preparar o teu caminho; voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas” (Mc 1,2-3). João Batista, caracterizado ao estilo do profeta Elias, propõe um retorno ao deserto, à experiência de conversão de Israel ao projeto da Aliança. O Batista anuncia a proximidade da ação de Deus na história para destruir o mal. João, ao se vestir de pelos de camelo e ao comer mestre silvestre, questiona toda a corrupção reinante na sociedade de seu tempo, que havia elegido a futilidade como projeto de vida. A palavra presente na boca do Batista é um verdadeiro urro de leão, que ecoa nos corações endurecidos dos habitantes da Judeia e de Jerusalém.  Assim, o reconhecimento dos pecados contra a Aliança e seu consequente arrependimento é condição para a pessoa ingressar na futura comunidade do Messias.

Desde o início de sua fé, a comunidade cristã necessitou explicitar a relação entre Jesus e João Batista. Este último é interpretado como uma testemunha autorizada do Pai a preparar os corações para o Evangelho de Seu Filho. O batismo no Espírito Santo é prerrogativa apenas do verdadeiro Messias (Is 9,5-6; 11,2). Portanto, o testemunho de João sobre a sua indignidade em relação a Jesus para realizar até mesmo o serviço costumeiramente feito por um escravo (desatar a correia das sandálias) nos demonstra que João não é o Messias, mas apenas o Precursor. De fato, para Marcos, somente em Jesus, a promessa chegou ao seu cumprimento, pois o Filho veio ao mundo para libertá-lo do poder do mal e dar vida definitiva ao povo de Deus.

Marcos não se preocupa em explicar o motivo de Jesus ter recebido o batismo de João, mas em destacar como a identidade de Jesus é revelada nesse acontecimento (Mc 1, 9-11). O texto marcano se inscreve entre dois batismos, o da água no rio Jordão, no meio de todo o povo que ali se reúne, e o da Paixão, momento em que Jesus é abandonado inclusive pelos seus. Por isso, o batismo de Jesus no Jordão ocorre em vista desse acontecimento final da cruz e da ressurreição. Ao receber o Espírito, o Messias Jesus se propõe como o Servo de Javé (Is 42,1). A voz do Pai atesta: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Mc 1,11; Sl 2,7). O Filho de Deus não realizará a sua missão no triunfalismo e no pacto com os poderes humanos, mas como um servo obediente que se propõe ao homem como resposta para a sua busca de Deus (Is 42, 2-3).

O céu está aberto sobre Jesus. A sua comunhão de vontade com o Pai, “toda a justiça”, que Ele realiza, abre-nos, definitivamente, o céu. Isso nos mostra que, em Jesus, o Pai age de maneira radicalmente nova na história da humanidade. Se quisermos fazer a experiência de Deus, precisamos contemplar e aderir à proposta do Crucificado desde o seu batismo no Jordão até o seu batismo definitivo na Cruz do Calvário.

A primeira missão de Jesus, revestido com a autoridade do Espírito Santo, é iniciar a sua luta contra Satanás. Marcos, diferentemente de Mateus e de Lucas, não aborda o conteúdo das tentações sofridas por Jesus no deserto. O evangelista coloca, em primeiro plano, a oposição entre Jesus e o velho homem Adão. Este, conforme nos apresenta o livro dos Gênesis, habitava o paraíso, porém rompeu com Deus por meio do pecado da desobediência. Jesus, pelo contrário, está no deserto, mas estabelece, definitivamente, a reconciliação e salvação do gênero humano, já que ‘vivia entre as feras e os anjos o serviam’, uma cena que nos recorda a paz paradisíaca (Is 11,6-9). Como afirma Ratzinger (2007), onde o pecado é vencido, onde a harmonia do homem com Deus é restaurada, segue-se a reconciliação da natureza, a criação dilacerada transforma-se em lugar de paz (cf. Rm 8,19).

2- Meditação (Caminho) – O que o texto me diz?
Desde o dia de meu batismo, sou chamado, como cristão, a seguir os passos de Jesus em seu caminho da Galileia até Jerusalém. A experiência da fé consiste em assumir o Evangelho não como um conhecimento apenas de ordem intelectual, mas como um projeto de vida que determina as minhas opções diante das diversas propostas do mundo. Crer em Jesus como Messias e Filho de Deus é experimentar já agora, mas ainda não plenamente o céu, pois ainda estamos a caminho da pátria definitiva. Nessa peregrinação pelo êxodo da vida, antevemos, pela fé, a promessa que nos está reservada e garantida em Jesus.

Como João Batista, também precisamos preparar o caminho para Cristo. A vida de cada cristão deveria ser um verdadeiro chamado à conversão daqueles que vivem de forma superficial. Precisamos questionar-nos: as nossas comunidades são um sinal profético na sociedade de hoje? Utilizamos métodos e critérios pastorais que são verdadeiramente evangélicos ou temos sucumbido à tentação de agradar a tudo e a todos? A Campanha da Fraternidade deste ano nos mostra que a Igreja tem o papel de ser fermento na massa, de ajudar a sociedade a discernir propostas que promovam a vida pregada por Jesus.

O Senhor se fez batizar no Jordão para nos servir com o seu amor. Ele não veio a este mundo ser servido, mas, como verdadeiro Cordeiro de Deus, se fez oferenda no altar da Cruz. A Igreja realiza a sua vocação de sacramento universal de salvação na medida em que também se insere nessa dinâmica de Cristo. Uma Igreja servidora, atenta aos sinais dos tempos, que leva a misericórdia aos corações feridos é o sinal mais evidente do restabelecimento da reconciliação entre os homens. Diante dessa realidade, somos instrumentos de reconciliação ou de divisão entre as pessoas? Como filho de Deus em Jesus Cristo, promovo a paz por onde passo e denuncio as injustiças? Reconheço Jesus como o meu Salvador, colocando-me diante de d’Ele de forma humilde, apresentando-lhe as minhas incoerências? Recebo a Palavra de Jesus como uma verdadeira bom notícia para a minha vida ou estou surdo aos seus apelos?

3- Oração (Vida) – O que o texto me faz dizer a Deus?
Senhor Jesus, tu és o Cristo e o Filho de Deus. A ti entrego o meu coração e a minha vida. Quando contemplo o teu batismo no Jordão, reconheço a tua solidariedade com a minha miséria. Obrigado pelo olhar misericordioso que lançaste sobre mim, paralisado no meu pecado. Obrigado pela palavra que eu não procurava, mas me quiseste dirigir para me reconduzires à vida. Obrigado pela liberdade nova, que desfez as cadeias que mantinham inerte o meu coração e me deu um impulso antes desconhecido. Obrigado pela alegria da fé que suscitaste em mim. Obrigado pela solidariedade dos irmãos que me conduziram até junto de Ti, como João Batista agia no deserto da Judeia. Ensina-me a ser também solidário com todos os pecadores, para que Te cheguem a Ti e encontrem a misericórdia, o amor, a vida em abundância e em paz. Amém.

4- Contemplação (Vida e Missão)
Quais sentimentos, pensamentos e atitudes a Palavra de Jesus suscitou em mim durante esse momento de reflexão e de oração? Qual meu novo olhar a partir da Palavra? Meu novo olhar é de fé! Em casa, na rua, no trabalho, onde estiver, em alguma situação ameaçadora ou difícil, vou aumentar minha confiança no Senhor, na certeza de que ele está comigo e sempre me salva. Irei, também, como Jesus, servir os irmãos, anunciando-lhes o amor e a ternura do Pai.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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