Artigos, Pe. Hallison Parro › 10/03/2015

Como discípulos de Cristo, precisamos, constantemente, questionar-nos sobre quem, de fato, é Jesus para nós e para a Igreja, uma vez que o nosso seguimento só adquire sentido quando assumimos o Evangelho como um verdadeiro projeto existencial. O evangelista Marcos tinha um objetivo específico ao narrar os feitos do Senhor: proporcionar aos seus leitores/ouvintes uma identificação pessoal com Aquele que é o Cristo e o Filho de Deus, e assim gerar uma fé sólida nos membros de sua comunidade.

 stmark (1)No trecho de Mc 1,14-15, o evangelho nos apresenta que, depois de seu batismo na Judeia e da prisão de João Batista, Jesus retorna para a Galileia, onde chamará os seus primeiros discípulos e exercerá suas ações como Messias-Servo de Israel. Como arauto do Pai, Jesus proclama o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e a proximidade do Reino de Deus. Em que consiste esse Reino que Jesus anuncia? Em primeiro lugar, ‘Reino de Deus’ significa que Deus é rei, que Ele reina. Segundo Johan Konings (1977), essa verdade nem sempre foi clara a Israel. Em diversos momentos da história bíblica, os profetas precisaram reafirmar a realeza de Deus sobre o povo, já que esse facilmente cedia à tentação da idolatria, de querer adotar deuses ou costumes estrangeiros alheios ao projeto do Deus da vida. (1Sm 8,6-7; 12, 11-13.19; Sl 95; 97,9; 99).

Em Israel, os reis terrestres sempre foram vistos como servidores de Deus e, por isso, deviam obedecer à Palavra e garantir o direito e a justiça (Os 2,21). Caso contrário, o verdadeiro Rei (Deus) questionaria as infidelidades desses reis, fazendo-os provar de Seu poder. Portanto, os governantes deviam promover a justiça social e garantir a proteção dos mais fracos: o órfão, o estrangeiro e a viúva (Is 1,17). Como não realizaram esse mandato, o povo de Deus experimenta o exílio, a perda da autonomia política e o fim da realeza (2Rs 25,7). Até na época de Jesus, havia o desejo da restauração da realeza davídica, de modo que, para muitos contemporâneos de Jesus, o messias seria um chefe político com capacidade para expulsar os romanos dos territórios ocupados. Também, vários judeus pensavam que Deus reinava apenas sobre o povo de Israel, considerando Jerusalém a verdadeira luz para as nações, por meio da qual o Senhor estabeleceria o seu domínio religioso e político sobre a face da terra. (Is 2,2-4; Mq 4,1-3; Is 61,4-6).

O Reino que Jesus anuncia não corresponde a nenhuma dessas expectativas. O Senhor não anuncia um reino de grandeza política e material, nem mesmo um reino de liderança religiosa do povo judeu (Jo 4,20ss). O Reino de Deus é transcendente a essas esperanças e projeções humanas.

Infelizmente, muitas correntes de teologias atuais acentuam que o Reino seria fruto do agir do homem, do nosso protagonismo na história. Essa visão não se sustenta, pois o governo de Deus sobre a criação não depende do nosso fazer, mas da aceitação, por meio da fé, de seu amor e de sua Palavra. A realeza de Deus não se mede com a medida dos conceitos humanos (Dn 2,44), já que apenas o Evangelho tem a força eficaz para curar e transformar o mundo. O Evangelho do Reino é fruto da ação misteriosa de Deus na história, de seu projeto para os homens, e não obra nossa. Na realidade, a nossa ação apenas manifesta o Reino, se antes for tocada pela graça de Cristo, que nos capacita, por meio da fé, a agir em nome do amor. Por isso, toda pretensão de identificar o Reino com um modelo de sociedade, com uma determinada realidade política ou visão ideológica é mera pretensão humana. Se o fizéssemos, trairíamos a própria pregação de Jesus e sua Palavra, mais cedo ou mais tarde, nos desmentiria.

Para reconhecermos o Reino, o elemento fundamental é a adesão à Boa Nova de Cristo. A Palavra anunciada por Jesus gera arrependimento e fé. Na ótica de Marcos, o Reino chegou, definitivamente, aos homens em Jesus, em suas palavras e em suas ações. O sinal mais evidente disso no evangelho analisado é a expulsão do maligno e a sua consequente derrota. Jesus, por meio de seu profetismo, exorciza da vida das pessoas toda espécie de escravidão, inclusive a que o demônio provoca (Mc 1,25; 5,8).

A Palavra de Cristo tem o poder de revelar em seus ouvintes os pecados cometidos contra a Aliança do Deus da Vida. Se o Reino está próximo em Jesus, a nossa vida precisa abrir-se à sua Pessoa e rejeitar tudo o que contraria a vontade do Pai manifestada em seu Filho. O reconhecimento de nossos pecados, de nosso pacto com o egoísmo e a escravidão é o primeiro passo para fé. “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Jesus não impõe o Evangelho, mas o propõe, para que experimentemos, na liberdade de nosso coração, o poder do Alto. O Senhor ensina como um verdadeiro Servo (Is 42,1-4), despoja o maligno de seu poder (Lc 10, 18-19; Jo 12,31; Ap 12,9-11) e demonstra que o tempo de Deus (Kairós) chegou ao seu cumprimento, ou seja, de que o projeto de salvação que Deus tem para o mundo se manifesta plenamente por meio de Jesus.

Para encerrarmos a nossa reflexão, propomos um texto de Joseph Ratzinger (Bento XVI): “a nova proximidade do Reino de que Jesus fala e cuja proclamação constitui o elemento distintivo da sua mensagem – esta nova proximidade consiste n’Ele mesmo. Através de sua presença e da sua ação, Deus irrompe como atuante aqui e agora na história. Por isso é que agora é a plenitude do tempo (Mc 1,15); por isso é que agora, de um modo único, é tempo da conversão e da penitência, bem como tempo da alegria, porque, em Jesus, Deus se aproxima de nós. N’Ele Deus está agora em ação e é verdadeiramente Senhor – dominando divinamente, isto é, não com o poder do mundo, mas dominando através do amor que vai até ‘o fim’ (Jo 13,1), até a cruz” (Jesus de Nazaré, volume 1, p. 68).

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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