15/09/2015 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

No tempo de Jesus, o sábado não era apenas expressão de uma observância religiosa, mas um sinal característico da identidade judaica, que, juntamente, com a sinagoga e o Templo de Jerusalém, constituía-se como o pilar do judaísmo tardio. No Antigo Testamento, os autores bíblicos buscaram fundamentar, teologicamente, a prática de guardar o sábado como celebração da libertação do poder do Faraó ou como sinal do descanso divino na obra criadora (Dt 5,12-15; Ex 20,10-11; Gn 2,3).

Para o judeu, o shabbat (sábado) é uma instituição divina (Ex 31,12-17) e sua observância é uma resposta de fé a Deus. Para que isso fosse possível, houve a proibição da prática comercial no sábado (Am 8,5), de tal forma que Neemias determinou, no período pós-exílico, o fechamento dos portões de Jerusalém para evitar qualquer tipo de profanação (Ne 13,15-22). No sétimo dia da semana, dever-se-ia abster de qualquer tipo de trabalho, para que todos pudessem participar da assembleia litúrgica, ou seja, do culto na sinagoga (Lv 23,1-3). O descumprimento da Lei sabática poderia ter como consequência a pena de morte ou exclusões da vida comunitária (Ex 31,14). Por outro lado, os profetas já haviam criticado a redução do sábado a uma realidade meramente ritual (Is 1,13), pois a santificação de um dia a Deus pressupunha o respeito e a solidariedade em relação aos pobres, aos órfãos e às viúvas.

Com base na Lei mosaica (Torah), os rabinos discutiam sobre a natureza do descanso sabático e suas exceções. Havia algumas proibições como acender o fogo, bater palmas, saltar, dar palmadas na coxa e visitar doentes. Como um verdadeiro judeu, Jesus guardava o sábado e participava do culto na sinagoga (Mc 6,2; Lc 4,16.31), mas criticava esse excessivo rigorismo, bem como a concepção de Deus desses teólogos. Para Jesus, o núcleo da Lei é o amor a Deus associado ao amor ao próximo. Assim, nem mesmo no dia dedicado ao Senhor, deve-se omitir o serviço da caridade para tirar o outro de uma situação de opressão ou de pecado. No confronto com os fariseus, está em jogo uma visão de Deus e da sociedade. Se a lei de Deus deve estar a serviço de um pobre inválido, é preciso mudar por completo a relação das autoridades com o povo. Não é possível ser indiferente ao outro ou dominá-lo, pois isso é incompatível com o culto que se presta a Deus, ainda que se sigam fielmente as prescrições rituais.

No trecho de Mc 2,23-27, os fariseus criticaram os discípulos porque teriam infligido a proibição da lei sobre o trabalho no sábado (2,23-34). Marcos apresenta essa situação para demonstrar, à luz de Cristo, a real compreensão da comunidade primitiva sobre a função do sábado: toda a lei, mesmo a mais sagrada, é em função do homem e não vice-versa (Mc 2,27). Na realidade, profana-se o sábado fazendo dele uma desculpa para fugir ao próprio dever de providenciar as próprias necessidades essenciais ou de fazer o bem ao próximo. Os cristãos guardaram esses ditos de Jesus, porque, provavelmente, a comunidade primitiva começou a sofrer críticas do judaísmo rabínico ou de próprios cristãos judeus sobre a relativização do sábado, ao incorporar os pagãos convertidos.

Além do ‘trabalho’ dos discípulos, as curas realizadas por Jesus em dia de sábado tornaram-se também objeto de controvérsia (Mc 3, 1-6). Como na cura do paralítico (Mc 2, 1-12), Marcos une um milagre a um debate, a fim de demonstrar que Jesus é poderoso em obras e palavras. O próprio milagre (o ato de curar) torna-se a causa principal do conflito. É interessante observar, na narrativa, os seguintes elementos: a) o homem enfermo não pede para ser curado (Mc 3,3); b) apenas Jesus dirige suas perguntas aos adversários (Mc 3,4); c) diferentemente das outras curas, ninguém se admira nem bendiz a Deus; d) os dirigentes mantém o silêncio e a sua indiferença (Mc 3,4b.6).
Em primeiro lugar, Marcos nos demonstra que a sinagoga é incapaz de incluir o homem com a mão atrofiada. Os fariseus não têm olhos para ele, nem muito menos se detêm em como remediar seu desamparo (3,1-2). Jesus coloca esse homem no centro, para enfatizar que a honra a Deus não está em contraposição à honra do homem, pois “a glória de Deus é o homem vivo” (Santo Irineu de Lião). A atitude de Jesus é diametralmente oposta a dos fariseus: enquanto ele age publicamente em plena luz do dia, seus adversários agem à espreita.
A pergunta-chave de Jesus é revelatória: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar?” (Mc 3,4). Portanto, para Jesus, não se trata de salvar uma vida somente quando se está em perigo mortal (o que era permitido), mas de agir como ele mesmo age, porque essa é a vontade de Deus. Existe implicitamente, nesse texto, a afirmação de que Jesus, o Filho do Homem, tem autoridade sobre o sábado (Mc 2, 27-28). O silêncio dos fariseus tem a finalidade de não se comprometerem com o anúncio de Jesus, pois estão surdos à pregação do Reino.

Nas outras controvérsias, Jesus foi questionado sobre o perdão dos pecados (2,1-12), sua amizade com os pecadores públicos (2, 15-17), o jejum dos discípulos (2, 18-22) e o trabalho no sábado (2, 23-27). Na última controvérsia (3,1-6), está em causa a sua visão sobre a proximidade do Reino de Deus em sua pessoa, em suas palavras e ações. Os fariseus, ao não poderem calar a Jesus com palavras, aliam-se aos seus próprios inimigos para tramar a morte do Senhor (Mc 3,6).

O olhar de indignação de Jesus emerge da constatação de que esses homens religiosos se negam, em nome do próprio Deus, de promover o fim da humilhação e da degradação das pessoas. Essa ira do coração de Jesus o levará a expulsar os vendilhões do Tempo, que se utilizavam de Deus como fonte de enriquecimento e de status social (Mc 11,15-19). O ardor profético de Jesus o faz comparar os fariseus ao povo rebelde do Antigo Testamento (Jr 7,24; 9,13; 13,10; 16,12), que fica insensível perante a demonstração da bondade de Deus para com seus filhos mais desprotegidos.

Interroguemos-nos: será que nós, como Igreja, temos buscado unir a nossa prática religiosa a um compromisso efetivo com o próximo? Por que, muitas vezes, pregadores apresentam um Jesus light, adocicado, que não gera mudança de vida? Temos medo do profetismo de Jesus? Uma Igreja ensimesmada, sem missionariedade, não seria a expressão mais contundente de uma cegueira e de uma surdez espirituais presentes entre os próprios cristãos? Deixemos a Palavra de Jesus nos questionar em setembro, neste mês dedicado à Sagrada Escritura.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Catedral de São José