Artigos, Pe. Hallison Parro › 14/10/2015

stmark (1)O evangelista Marcos nos demonstrou, nos versículos precedentes, que a sinagoga e as demais instituições judaicas do tempo de Jesus foram incapazes de acolher a novidade do Evangelho do Reino de Deus. Para tanto, o redator bíblico apresenta uma oposição entre a visão das autoridades religiosas e das multidões a respeito do ministério do Messias. Para os escribas e os mestres da Lei, Jesus é um blasfemo e age pelo poder de Satanás (Mc 3,22), já que ele engana as pessoas e corrompe a fé verdadeira. A pregação do Nazareno representa um real perigo para a ortodoxia judaica, porque ameaça a centralidade da observância do sábado (2,27), da autoridade da sinagoga (1,21-27) e da prerrogativa dos vínculos familiares sobre os indivíduos (3,34-35). Por outro lado, a multidão converge para Jesus e o reconhece como alguém capaz de dar uma resposta às suas angústias (3,7-12). Evidentemente, ainda não se trata do reconhecimento de Jesus como Messias (8,29). É um entusiasmo superficial, já que o povo busca unicamente a cura de seus males. É interessante notar a mudança de paradigma: ao passo que Jesus foi até seus primeiros discípulos (1,16-20), agora o povo converge para ele como centro de atração (3,8).

O sucesso inicial de Jesus se torna uma verdadeira tentação. Era tanta gente ao redor do Senhor que ele precisou subir em um pequeno barco como refúgio contra a pressão da multidão. Jesus atraiu pessoas de várias regiões, como a Galileia, a Judeia, de Jerusalém e da Idumeia, da Transjordânia, de Tiro e Sidônia, terras pagãs. Então, os espíritos impuros aproveitam a ocasião para revelarem a identidade messiânica do Senhor e para encenar uma grande propaganda. Eles dizem a verdade com o objetivo de reduzir a glória de Jesus ao sucesso humano e de impedir a consumação do mistério da cruz em Jerusalém. A proibição de Jesus aos demônios sobre a proclamação de sua messianidade e de sua filiação divina (1,1;5,7;15,39) tinha como objetivo evitar equívocos sobre a sua pessoa (1,25; 1,34). Entretanto, neste caso, Jesus demonstra que ele não é um simples curandeiro, mas o enviado definitivo do Pai, que revela aos homens a sua misericórdia e o seu amor.

Após esse resumo das atividades de Jesus pela Galileia, o evangelista nos apresenta a bela narrativa sobre a escolha e a instituição dos Doze. Marcos já havia narrado o chamado inicial que Jesus fez aos seus primeiros discípulos (1,16-2; 2,14). Também, verificamos, nas entrelinhas do texto bíblico, que muitas outras pessoas já estavam seguindo o Senhor. Isso nos faz indagar sobre o real significado teológico da escolha desses homens por Jesus. Na realidade, trata-se do primeiro passo simbólico para a constituição do povo escatológico do reino de Deus. Doze é uma alusão às tribos de Israel. Com isso, Jesus forma a sua nova família, o Israel de Deus, e lança os fundamentos de sua futura Igreja. Essa família não é determinada pelos laços de consanguinidade (3,35), mas pela fé no Evangelho do Senhor. Nesse sentido, a comunidade messiânica é aberta para acolher todos aqueles que quiserem ter uma relação de amizade com Cristo.

Marcos faz questão de demonstrar que a escolha dos Doze é um ato da vontade do próprio Senhor (3,13). É um momento da manifestação do poder do Messias, porque essa decisão acontece sobre um monte. Os montes ou as montanhas, na literatura bíblica, é o local, por excelência, das revelações de Deus para o seu povo (Ex 1,20; 24,12; Nm 27,12; Dt 1,6-8). Inclusive, a transfiguração e a morte de Cristo se darão sobre um monte (9,2; 15,22). O grupo é convocado para estar mais intimamente unido a Jesus, já que, na ótica marcana, o ideal do discipulado é estar com o Senhor e compartilhar seu ministério (3,14-15), ou seja, a pregação do Reino e o exorcismo sobre o poder do maligno. O novo povo de Deus não adotará a atitude das autoridades judaicas nem o frenesi das multidões. Ele se constituirá ao redor de Jesus, reconhecendo a centralidade de sua pessoa e de seu Evangelho. Para os discípulos, Jesus ocupa o lugar da Lei, enquanto aquele que é a realização de todas as promessas do Pai ao seu povo. Para os judeus contemporâneos do Senhor, isso era e é um absurdo, porque alude a uma prerrogativa divina de Jesus.

Estar com Jesus implica em estar unidos entre si. Jesus não constituiu um grupo uniforme, mas plural na unidade da fé (3,16-19). O Messias insiste na unidade do amor, mas também sobre a dimensão missionária, nascida da experiência da misericórdia do Pai por meio da acolhida do Evangelho. Todos esses doze discípulos estavam capacitados para exercer, com a autoridade de Cristo, a missão de expulsar os espíritos maus. Porém, nem todos usaram essa capacidade para fazer o bem. A menção ao nome de Judas Iscariotes, “aquele que o entregou” (3,19) é muito sugestivo nesse sentido. Isso nos revela que existe a tentação de usar o Evangelho e o próprio nome de Jesus para benefício próprio, com comportamentos que desagradam a Deus: dinheiro, poder e demais prazeres mundanos. Por outro lado, não podemos pensar que apenas Judas praticou infidelidades para com Cristo. Os outros discípulos também o fizeram, quando abandonaram o Senhor em Jerusalém, deixando-o sozinho em sua dolorosa paixão.

A autoridade para pregar em nome de Jesus não é apenas formal, mas fundamentalmente existencial. O Evangelho não é um amontoado de saberes teológicos ou de elaborados conceitos sobre a realidade, mas um projeto de vida e de salvação. Mais do que citações de versículos bíblicos ou de eloquentes discursos, precisamos de uma vida convertida ao Senhor, que reconheça o seu poder e a sua centralidade na comunidade cristã. Todos os carismas, sejam eles apostólicos ou não, devem estar a serviço da missão de Jesus: a pregação do Reino e a luta contra o maligno. Caso contrário, sucumbiremos à tentação do sucesso humano ou, mesmo pregando sobre Jesus, seremos como as autoridades judaicas, emperdenidos em nossas manias e em nosso egoísmo que recusa a alegria do Evangelho.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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