Artigos, Pe. Hallison Parro › 25/11/2015

marcosO evangelista Marcos não deixa de sublinhar a reação dos familiares do Senhor sobre a sua atividade messiânica na Galileia. Jesus era tão intenso em sua obra evangelizadora, que não lhe sobrava sequer tempo para alimentar-se (3,20). Enquanto a multidão anseia pelos sinais e pelas palavras de Jesus, paradoxalmente tanto a sua família quanto os escribas de Jerusalém, cada um a seu modo, tentam impor-lhe barreiras.

Com base na leitura dos versículos precedentes, a atitude da família de Jesus pode ter sido influenciada por muitas razões. Há muito tempo Jesus estava fora do ambiente familiar, ou seja, de Nazaré, porque peregrinava com seus discípulos por toda a região anunciando o Evangelho do Reino (Mc 1,15). Além do mais, havia boatos e notícias contraditórias sobre a sua atividade e a sua mensagem. Os escribas e os fariseus, por exemplo, o acusavam de louco e herético, porque, na opinião desses homens, Jesus não seguia a tradição dos antigos sobre o sábado (2,23-3,6) e o jejum (2,18-22), bem como comia publicamente com os pecadores.

Assim, a intenção original da família de Cristo era reconduzi-lo ao caminho reto de um autêntico judeu. A opinião dos familiares alarmados por certos rumores não significa que seja necessariamente a de Maria, embora ela pudesse estar presente, como se deduz dos versículos 31 a 35. Nesse episódio, podemos constatar que Maria precisa até mendigar o direito de ver o Filho e de falar-lhe. Ela não abre caminho no meio da multidão, aproveitando o fato de ser a mãe de Jesus. Por isso, como Jesus teve que despojar-se de seus legítimos direitos e de suas prerrogativas divinas, assumindo a condição de servo, também Maria, em sua obediência a Deus, precisou despojar-se de seus legítimos direitos como mãe do Messias, parecendo diante de todos uma mulher como as outras. “O Senhor não deixou a sua mãe perder tempo nem contemporizar com sentimentos e consolações naturais. Ele a arrasta para o despojamento total, para chegar a união com Deus. Na realidade, ensinou a Maria a renúncia a si mesma. (CANTALAMESSA, R. Maria, um espelho para a Igreja, p.76)

Para Marcos, portanto, a consanguinidade não é suficiente para dar o salto da fé. A nova família de Jesus, ou seja, a sua comunidade, não se caracterizará pela pertença a uma nação (judeus) ou a uma família biológica, mas pela adesão consciente ao Evangelho e à pessoa de Jesus. Os seus familiares, em vez de o apoiarem e o seguirem, querem recomendar-lhe prudência humana. Com isso, o evangelista nos instrui que devemos seguir Jesus sem cálculos nem reservas humanas, porque ser discípulo de Cristo é fazer a vontade de Deus. Ser irmão de Jesus não é questão de sangue ou de mérito, mas fruto do poder da graça. É interessante recordarmos que, posteriormente, Tiago, irmão do Senhor, governará a Igreja de Jerusalém (At 15,13). Isso nos permite concluir que essa recusa inicial se transformará em experiência de fé também entre os parentes do Senhor (Mc 6,3).

Fazer a vontade do Pai consiste em escutar e obedecer ao seu chamado. Essa obediência presente em Abraão, em Maria e no próprio Cristo não é uma fria execução de ordens severas, mas um envolvimento apaixonado do coração humano com o coração de Deus. O “Eis-me aqui” de todos os discípulos de Jesus se baseia no sim, na entrega definitiva de Jesus na cruz para a nossa salvação.

Santo Agostinho entende esse relato da seguinte maneira: “Entendo que somos irmãos do Cristo e que são irmãs de Cristo as santas e fiéis mulheres. Mas, em que sentido podemos ser mães de Cristo? Que poderemos dizer? Teremos, por acaso, a ousadia de nos chamar mães de Cristo? Sim, temos a ousadia de nos chamar mães de Cristo! Se vos chamei a todos de seus irmãos, não teria a ousadia de chamar-vos sua mãe? E muito menos ouso negar o que Cristo afirmou. Eia, pois, caríssimos, observai como a Igreja – o que é evidente – é a esposa de Cristo; o que se entende com maior dificuldade, mas é a pura verdade, é que seja a mãe de Cristo. A Virgem Maria antecedeu a Igreja, como sua figura. Como é que, eu vos pergunto, Maria é Mãe de Cristo, senão porque gerou os membros de Cristo? Membros de Cristo sois vós, aos quais eu falo: quem vos gerou? Ouço a voz do coração: “a Mãe Igreja”; esta mãe santa, honrada, semelhante a Maria, gera e é Virgem. Os membros de Cristo geram, pois, com o Espírito, como Maria virgem gerou Cristo no ventre: sereis assim mães de Cristo. Não é algo que está longe de vós; não está fora de vós, não é incompatível; vós vos tornastes filhos, sede mães também” (Sermão 72A).

Jesus, de maneira alguma, aboliu os laços naturais da família, mas ensinou que tais afeições ‘da carne e do sangue’ devem estar subordinadas a um bem superior, o cumprimento da vontade de Deus. A família de Cristo, a sua Igreja, será fundada sobre o amor do Cordeiro, que levou até as últimas consequências sua fidelidade ao Pai. A comunidade dos discípulos apenas exercerá uma verdadeira maternidade espiritual, se souber apresentar-se aos homens como instrumento de salvação, atenta aos desejos e ao projeto de Cristo, aquele que nos tornou irmãos na fé.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Catedral de São José

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