5º DOMINGO DA QUARESMA ANO C – 13 de março de 2016

Leituras

Isaias 43,16-21. Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos.

Salmo 125/126,1-6. Mudai a nossa sorte, ó Senhor.

Filipenses 3,8-14. Já fui alcançado por Cristo Jesus.

João 8,1-11. Eu também não te condeno.

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“QUEM DENTRE VÓS NÃO TIVER PECADO SEJA O PRIMEIRO A ATIRAR-LHE UMA PEDRA”

1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da pecadora perdoada. Já estamos bem próximos das celebrações pascais. Neste Quinto Domingo da Quaresma, o Pai misericordioso, que sempre nos aguarda em sua casa e alegra-se com nossa chegada, quer nos convencer ainda mais de que nossa situação de pecado não o imobiliza.

Ele não leva em conta o nosso passado, porque seu amor enxerga nossa possibilidade futura de mudança e transformação. Que o Senhor defenda a nossa causa contra a impiedade e venha em socorro de nossa oração.

Já fizemos uma boa caminhada quaresmal. Durante essa caminhada, lendo o Evangelho de Lucas, vimos e celebramos: o Jesus que vence o tentador; o Jesus que lá na montanha (Monte Tabor) nos revela seu brilho divino; o Jesus que nos alerta para a importância da conversão; o Jesus que nos mostra de que jeito Deus é: um Pai misericordioso que acolhe o filho arrependido de retorno à casa. Neste Quinto Domingo mais uma vez contemplamos a misericórdia de Deus que acolhe e perdoa.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Primeira leitura – Isaias 43,16-21. O povo de Israel estava cativo na Babilônia. O trecho da primeira leitura é parte do poema de um profeta, discípulo de Isaías, cujo tema é a relação histórica de Deus com Israel.. Este Isaías, cujo tema é a relação histórica de Deus com Israel. Este Isaías “júnior” teve a missão de animar a esperança frágil dos exilados. Trazendo à memória o Êxodo, ele garante que Deus vai realizar um novo Êxodo, por meio da força e organização do próprio povo. Nesta primeira parte (vv. 14-21), o oráculo anuncia a libertação do exílio da Babilônia.

Deus manifestando seu amor e bondade para com Israel enviando Ciro contra a Babilônia para abrir as portas dos cárceres (versículo 14) e assim podem os exilados voltar em paz. Podemos ver que no original não aparece o nome de Ciro, mas é submetido, do contrário a frase ficaria ininteligível.

O povo é convidado a preparar-se, transformando a própria consciência para esse novo êxodo pelo deserto, não mais pelo mar como na saída do Egito. Ele lembra as maravilhas que Deus realizou em favor da libertação de seu povo e garante que fará ainda mais, através da organização, da força e da boa vontade do próprio povo oprimido. Em sua visão acontecerão novo paraíso e novo Êxodo ao mesmo tempo, até no deserto vão se abrir caminhos e os animais cantarão o louvor de Deus.

A memória, a lembrança do que Deus, no passado, realizou por nós ajuda-nos a acolher a novidade que ele nos oferece, no dia-a-dia, para avançar na construção de nova vida.

Para o cristão a intervenção de Jesus Cristo na história é um acontecimento primordial. É sempre em referência a este acontecimento primordial que o Povo de Deus não cessa de ler sua própria história. Jesus é o Homem. Sua morte e sua vida dominam nossa morte e nossa vida ao ponto de dar-lhes sentido. Nossos sofrimentos realizam o que já estão contidos nos seus (Filipenses 3,8-14).

O Salmo responsorial – 125(126),1-2ab.2cd-3.4-5.6. No Salmo a lembrança da libertação é intensa: aquela alegria inesperada se torna presente. Na libertação o Senhor revelou a sua grandeza, de modo que até os pagãos a puderam reconhecer. O Salmo mistura ação de graças coletiva (1b-3) e a súplica, expressa em forma de desejo: “Que o Senhor mude a nossa sorte, como as torrentes no deserto…” (4-6). Nós o consideramos súplica coletiva (“a nossa sorte”), celebrando as vitórias do povo, e súplica coletiva, em forma de desejo de transformar o sofrimento em esperança, as lágrimas em canções. O Salmo expressa, na oração, o sentimento que perpassa os textos deste Domingo: “Muda, Senhor, nossa sorte”.

O rosto de Deus no salmo. Uma ação passada e uma ação esperado (futuro) marcam o rosto de Deus neste salmo. A ação passada é o fim do exílio na Babilônia (mudança de sorte para Sião), e a ação esperada é repetição da anterior (mudança de sorte para o povo, transformando a situação de “deserto” em vida). Na ação passada, nações e Israel reconhecem que Deus foi grande para com seu povo. Para a ação futura, espera-se que continue sendo grande, transformando as lágrimas de semear em canções de colher. Por que? Porque Deus é essencialmente o aliado que liberta seu povo sempre e em qualquer situação, realizando para ele o que o ser humano mais deseja, a liberdade e a vida. Fica muito claro que o rosto de Deus é de um Deus libertador.

Vários aspectos deste salmo ecoam na vida de Jesus. A vida de Jesus foi a mudança de sorte para os pobres, e a ressurreição dele é a grande mudança de sorte para o povo, a ponto de os discípulos se sentirem fora de si por causa da alegria e do espanto (Lucas 24,41; João 20,19-20). E quando subiu ao céu, voltaram cheios de alegria. Jesus comparou os sofrimentos de seus discípulos às dores de parto que geram o novo, fazendo esquecer as lágrimas passadas (João 16,20-24). Maria assume como próprio este salmo, celebrando o Senhor que fez grandes coisas em seu favor (Lucas 1,49).

Retomando este salmo como qual o povo proclamava a volta do cativeiro, cantemos a alegria profunda de podermos, nós também, sair de nossos cativeiros e proclamarmos as vitórias que acontecem na caminhada do povo, pela vitória de Jesus Cristo.

MARAVILHAS FEZ CONOSCO O SENHOR,

EXULTEMOS DE ALEGRIA!

Segunda leitura – Filipenses 3,8-14. A segunda leitura, da Carta aos Filipenses, mostra Paulo lembrando-se de seu passado e o considerando como esterco, pelo afastamento da verdadeira proposta de Deus. Ele nos convida, como fez Jesus à mulher, a deixar o passado para trás e nos lançarmos em busca do seguimento de Cristo, que é nossa vida. Para isso precisamos ser verdadeiros atletas. Seguir Jesus é conquista diária, conversão constante.

A Lei que fora considerada pelos judeus como sinal de predileção por parte de Deus, desde que Cristo “alcançou” Paulo, passou a ser considerada por ele como perda. Sua conversão modificou sua vida e seus valores. Tudo o que há no mundo não resiste a uma comparação com a riqueza do conhecimento de Cristo. Não se trata de um ressentimento de Paulo contra o Judaísmo, mas de uma realidade nova que envolve o Apóstolo, aprofundou-se com o tempo.

O único ganho agora é Cristo, e ser possuído por Ele. Assim o termo “meu Senhor”, usado por Paulo, é uma verdadeira profissão de fé em Jesus, Senhor como Javé. Chegar à plena comunhão com Cristo é agora sua única aspiração.

É claro que a ressurreição que Paulo espera alcançar não é a ressurreição em geral que se imporá a bons e maus, mas trata-se da ressurreição para a vida. Certos fiéis em Filipos aceitavam a assemelhar-se a Cristo só quanto à ressurreição e consideravam a doutrina da participação nos sofrimentos como escândalo. Nesta carta, o Apóstolo mostra a dupla dimensão da vida: morte e ressurreição.

O Apóstolo Paulo escreve aos irmãos da comunidade de Filipos lembrando-lhes a responsabilidade de participar com totalidade no mistério da morte e ressurreição do Senhor. Ele mesmo, estando na prisão, dá provas de extrema fidelidade a Jesus Cristo, e, assim, por meio da força e organização do próprio povo.

O Apóstolo compara a vida do cristão é como uma corrida no estádio, mas ele não deve apenas competir, ele é convidado a vencer, a alcançar a meta proposta.

Evangelho – João 8,1-11. O Evangelho de hoje é reconhecido como texto de João; no entanto, o vocabulário, o estilo e o tema levam a pensar que não pertence ao quarto evangelho. O trecho de João 7,53-8,11 não se encontrava nos manuscritos mais antigos. Chamando de “perícope lucana”, trata-se de uma tradição independente, inserida posteriormente. Alguns manuscritos colocam-na após Lucas 21,38.

O monte das Oliveiras é o lugar de oração pessoal de Jesus, onde às vezes passava a noite orando. A madrugada é considerada o momento da graça, propício para ouvir a Palavra de Deus. Jesus encontra-se no Templo de Jerusalém e enfrenta uma cilada armada pelos escribas e fariseus contra ele, usando a fraqueza de uma mulher. Se Jesus aceitar a acusação que recai sobre a mulher, estará aprovando o homicídio e contrariando suas atitudes de bondade e acolhimento dos pecadores; se libertá-la, desobedecerá à lei de Moisés. A lei decretava pena de morte por apedrejamento à mulher, prometida ou desposada, infiel ao homem a quem pertencia, mesmo que ainda não convivesse com ele (cf. Levítico 20,10; Deuteronômio 22,21).

Como caso legal prático, os fariseus apresentam-no a Jesus como armadilha para condená-lo. Como caso particular, querem um conselho sobre a aplicação da lei mosaica, uma vez que viram Jesus se “distanciar da lei” ao perdoar pecadores e com eles conviver.

Jesus apresenta uma solução inesperada pelos inimigos: manda que a lei seja cumprida, mas por aqueles que são impecáveis, “justos”. Desmascarados, vão saindo “de fininho”. De acusadores, passam a acusados. Se o adúltero fosse um homem, o castigo não era a morte. A autoridade de Jesus faz com que os acusadores (homens) tomem consciência da incoerência, da injustiça de dois pesos e duas medidas, do tratamento desigual entre homem e mulher.

Jesus, porém, não responde e começa a escrever no chão (versículo 6). Estamos diante de um gesto obscuro. João não diz o que Jesus escreve. Em Jeremias 17,13, o nome dos que se afastam do Senhor é escrito na terra: “[…] os que se afastam serão escritos no pó, porque abandonaram o Senhor, manancial de água viva”. Ao rabiscar no chão, Jesus poderia estar se referindo ao texto do profeta. A atitude dele desmascara os acusadores. Há um adultério mais grave: a infidelidade dos dirigentes a seu Deus, denunciada pelos profetas, como em Ezequiel 16.

Jesus, então dirige à mulher um olhar de profunda compaixão e ternura. Ele desaprova os que se julgam melhores que os demais e compadece-se de quem aceita sua misericórdia.

O evangelho diz que a mulher estava no “centro” e “ficou de pé”. É a ação e atitude de Jesus que devolvem à mulher seu lugar, ajuda-a perceber que é importante e possui dignidade, que é maior que o pecado e pode superá-lo. É preciso olhar para frente. Deus sempre realiza “uma coisa nova” em nós. O comportamento de Jesus com a mulher revela seu amor e delicadeza, sua capacidade de acreditar nas pessoas e sua rejeição a todo tipo de farisaísmo.

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

A Palavra de Deus neste domingo é um anúncio de alegria, perdão e confiança na transformação da humanidade. O Senhor diante de nossa fraqueza, não faz cobranças, mas, com amor e delicadeza, ergue-nos, coloca-nos no centro, muda nossa sorte, impulsiona-nos, abre novos caminhos no deserto da vida. Nada fizemos para merecer tanto carinho! No Primeiro Testamento, várias vezes, Deus é chamado de esposo de Israel. O cristianismo adorou esse simbolismo e chama Cristo de esposo da Igreja, em uma nova e perfeita Aliança.

Com sua atitude, Jesus nos ensina um jeito novo de ser e de agir diante de pessoas que consideramos erradas, pecadoras e perdidas. A lei foi feita para homens e mulheres, e Jesus não veio para julgar e condenar, mas para salvar e redimir. Só o amor verdadeiro leva alguém a mudar de vida e encontrar a salvação.

Na quaresma somos confrontados não simplesmente com a Lei de Deus, para saber se a estamos praticando ou não, mas sim com a misericórdia de Deus, para saber se a estamos buscando ou não. O episódio na mulher no Evangelho de hoje nos lembra, em primeiro lugar, que Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva. É, pois, um convite de Deus para que o procuremos com confiança, voltando-nos para Ele que de nós, pecadores, tem misericórdia. Lembra-nos também de que não podemos atirar pedras em ninguém que erra, mas devemos sempre olhar para nós mesmos e reconhecer que todos falhamos e por isso todos nós podemos ter a chance de recomeçar e acertar os passos. Não podemos ser juízes da vida dos outros, mas refletirmos a misericórdia de do Pai manifestada em Cristo Jesus.

Aprendemos também que o perdão é essencial na vida. Do ponto de vista da economia, conforme a Campanha da Fraternidade Ecumênica desta ano, é necessário pensar também numa forma de perdão das dívidas de muitos que, tantas vezes sem condições de pagá-las, vêem se exaurindo seus recursos de vida, entrando no círculo vicioso da dependência econômica. É necessário lutar por um mundo mais justo, onde as relações comerciais também sejam pautadas nos princípios da solidariedade, mais do que na busca do lucro e no estrito acerto de contas.

Que direito temos de continuar “jogando pedras” naqueles a quem o sistema injusto insiste em excluir da vida?

Jesus nos pede um coração misericordioso, compassivo. Como esta Palavra nos ilumina hoje e nos ajuda a rever nossas atitudes?

4- A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO

Eu sou bom, compassivo e clemente

O versículo da aclamação ao evangelho retoma um hino do profeta Joel e, pondo-lhe na boca de Deus, revela sua benevolência. A liturgia entende que tal bondade ao ser reconhecida e bendita tem por beneficiário o próprio povo que a publica e por ela dá graças. Este é o sentido exato do convite à ação de graças nas anáforas: “Demos graças ao Senhor nosso Deus! É nosso dever e salvação”. Por isso se entende que, mesmo tendendo, às vezes, ao pecado e à morte a criação por natureza, é boa e bela porque decorre do querer criativo de Deus, sendo ressonância de sua voz. A reconciliação que celebramos, portanto, consiste em “embelezar-nos” mediante a escuta de sua Palavra, recuperando, por graça, a condição de partícipes da bondade e beleza divinas.

Ter o coração nos Céus

Um antigo documento, datado do século V denominado Testamento do Senhor, traz uma proclamação diaconal imediatamente antes da Oração Eucarística. Seu conteúdo se refere diretamente ao que acontecerá em seguida e versa sobre a disposição dos que vão dela participar: “Tende os vossos corações nos Céus. Se alguém tem ódio de seu próximo reconcilie-se (…)”. Percebemos que, para ser admitidos à Ação de Graças, os fiéis deveriam ter clareza de ter o coração no alto, o que verificavam contemplando suas ações aqui em baixo, quer dizer, no mundo, nas relações interpessoais, na história.

Conforme esta compreensão, nosso agir é decorrência do agir de Deus. Assim, o Divino alcança o mundo, envolve-o em seu amoroso e terno abraço mediante a misericórdia e a compaixão de suas criaturas que n’Ele têm seu discernimento, sua inteligência, seu coração.

É nesse sentido, inclusive, que se pode entender a intercessão sobre a Igreja na Oração Eucarística III: “Que esse sacrifício de nossa reconciliação estenda a paz e a salvação ao mundo inteiro.”Isto é, uma vez que a Eucaristia nos faz “ter coração em Deus”, nossa vida como decorrência desse acontecimento testemunha, mediante as relações justas e fraternas, vividas na Paz de Cristo, a reconciliação que Jesus, pela sua morte e ressurreição, realizou (= termos, como no princípio da Criação, o coração em Deus!).

5- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Como esposa adúltera e infiel nos apresentamos diante do Senhor, confiando no seu amor misericordioso, sempre aberto ao perdão. Por sua morte e ressurreição, ele nos traz de novo para o centro de suas atenções de esposo, lançando nossas fraquezas para longe de seus filhos. Assim, educa-nos para a misericórdia, faz-nos lançar para longe as pedras que carregamos contra a vida e a dignidade de nossos irmãos e irmãs.

Em nossas celebrações litúrgicas podemos ver e encontrar Jesus. Ele está presente, tanto na pessoa do ministro, quanto nas espécies eucarísticas. Jesus está presente nos sacramentos, de tal forma que, quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza. Ele está presente pela sua Palavra, pois é Ele mesmo quem fala, quando se lêem as leituras na Igreja (cf. SC,7). Eles está presente na comunidade, que é o seu corpo reunido renovando a sua misericórdia de ser sempre fiel à sua Palavra.

Cantamos louvores, dando graças ao Pai que em Jesus nos perdoa, santifica-nos e nos alimenta para realizarmos, no dia-a-dia, nosso êxodo, nossa Páscoa.

ORIENTAÇÕES GERAIS

Um mundo que corresponda ao misericordioso amor de Deus é o horizonte de cada Eucaristia celebrada. Neste tempo de Quaresma, o coração dos fiéis deseja estar em sintonia com o latejar do coração divino, a fim de que as nossas ações misericordiosas sejam a oportunidade para o Senhor abraçar, carinhosamente, a criação que, em Cristo, foi redimida e salva.

O monte é o lugar onde Jesus assume o projeto de Deus, “Não vou beber o cálice que o Pai me ofereceu? (João 18,11), e o Templo de Jerusalém é o lugar da rejeição de Jesus por parte das lideranças judaicas que merecem duas palavras: “ai de vós letrados e fariseus, hipócritas, que fecha ao homem o Reino de Deus” (Mateus 23,13).

A mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia formam um só ato de culto; portanto, é preciso manter um equilíbrio de tempo entre as duas. Demasiada atenção dada à procissão com o Lecionário ou com a Bíblia, homilias prolongadas, introduções antes das leituras parecendo comentários ou pequenas homilias, tudo isso prejudica o rito eucarístico, que em conseqüência acaba sendo feito às presas.

Um erro grave nas celebrações da eucaristia é a distribuição da comunhão do sacrário como prática normal. Assim pecamos contra toda a dinâmica da ceia eucarística, que consta da preparação das oferendas, da ação de graças, sobre os dons trazidos, da fração Fo pão consagrado e da distribuição àqueles que, com a oblação deste pão, se oferecem a si mesmos com Jesus ao Pai (cf. IGMR 56 h).

MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo da Quaresma, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do 5º Domingo da Quaresma, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB e o Ofício Divino das Comunidades nos oferecem uma ótima opção, que estão gravados nos CDs Liturgia XIII, XIV e CD: CF 2016.

1- Canto de abertura: “Deus livra-me do ímpio”, Salmo 43/42,1-2. Sem dúvida, um canto de abertura condizente com o mistério celebrado e poderá cooperar para que a assembléia seja nele inserido é na procissão de entrada, entoar um canto que expresse a misericórdia de Deus é: “Senhor eis aqui o teu povo”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 1, Quaresma Ano A. Outro canto interessante é “Ah! Se o povo de Deus no Senhor cresce” CD: Liturgia XIV, faixa 14. O canto de abertura deve nos introduzir no mistério celebrado deste 5º Domingo da Quaresma.

2- Ato penitencial. Senhor, que nos mandastes perdoar-nos mutuamente. CD: CF 2013, melodia da faixa 4.

3- Salmo responsorial 26/27. “Quando o Senhor fez voltar os cativos, parecia ser um sonho”. “Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!”. CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 15.

4- Aclamação ao Evangelho. “Convertei-vos a mim… sou benigno e misericordioso” “Honra, glória, poder e louvor. “Ninguém se atreveu à mulher condenar…” CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 12.

5- Canto para acompanhar a procissão com as pedras. “O vosso coração de pedra se converterá”, CD: Liturgia XIII, faixa 5.

Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração neste Quinto da Quaresma. Como canto de apresentação dos dons, uma boa opção é: “O vosso coração de pedra se converterá”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 5. Outra opção o canto “Eis o tempo de conversão”, CD Liturgia XIII, faixa 6. Se não houver a ação ritual da procissão com as pedras, a melhor opção seria: “O vosso coração de pedra se converterá”.

Canto de comunhão: “Nem eu te condeno; vai e não peques mais”, João 8,10-11. Contemplando a misericórdia de Deus cantemos: “Tanto que esperou pudesse um dia”, CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 17 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 130. Para este Domingo da Quaresma, conforme a tradição do Missal Romano para esse tempo, sugerimos outra possibilidade ótima que é o Salmo 32/31 com esse refrão tirado do próprio Evangelho, com a melodia do canto “Então da nuvem luminosa”, do segundo domingo da Quaresma, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 8. Também se encontra no Hinário Litúrgico II da CNBB, página 41. Com certeza estes cantos nos ajudarão a fazer a ligação da Ceia do Senhor com o Evangelho.

A mesma orientação dada para o canto de abertura vale para o canto de comunhão. Mas na mesma liberdade e bom senso, sugerimos um canto bem conhecido da série Povo de Deus:

R: NINGUÉM TE CONDENOU?

NEM EU CONDENAREI.

EM PAZ TU PODES IR,

NÃO PEQUES MAIS,

DISSE O SENHOR.

Salmo 32/31

Feliz o homem cuja culpa é perdoada,
Que foi no sangue do Senhor purificada!

Feliz o homem que caminha na verdade,
Em cuja alma não há mais duplicidade!

Feliz o povo que confessa seu pecado,
Porque será pelo Senhor purificado!

Feliz quem deixa se instruir pelo Senhor
E seus caminhos vai trilhando com amor!

Feliz aquele que confia em seu nome:
Seu coração não sentirá, jamais, a fome!

Feliz aquele que confia em seu nome:
Seu coração não sentirá, jamais, a fome!

Quem se confia no Senhor, sinceramente,
É envolvido pela graça, inteiramente!

Felizes todos os de reto coração!
Louvai a Deus, porque ele é graça e compaixão!

Misericórdia e bondade é o Senhor!
Povo remido, cantai hoje seu louvor!

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o corpo e sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho.

8- O ESPAÇO DA CELEBRAÇÃO

Todos nós sabemos que o Tempo da Quaresma exige sobriedade quanto à ornamentação do espaço da celebração. Ele deve manifestar nossa fragilidade diante do mistério, nossa nudez diante da graça de Deus que nos acompanha e nos solicita total perseverança evangélica. A ausência de flores, com exceção do quarto domingo (Domingo Laetare), quer causar a sensação de sobriedade, sem aparência festiva.

Arrumar o espaço celebrativo: colocar junto à mesa da Palavra ou junto à cruz um cacto com pedras, sinalizando, a partir do Evangelho deste domingo, que a verdadeira conversão exige melhor conhecimento das próprias fraquezas e atitude permanente de compaixão pelas fraquezas dos irmãos(as).

Preparar o espaço celebrativo levando em conta o tempo quaresmal. O ambiente deve estar despojado a austero. Isso vale também para outros tempos litúrgicos. Devemos “fazer uma limpeza” de tudo o que é supérfluo no espaço celebrativo, como cartazes, folhagens, fitas, adornos, faixas, muitas imagens, etc. Os exageros de enfeites causam uma verdadeira poluição visual, e é preciso achar um lugar para pousar o olhar e contemplar. Por outro lado, devemos valorizar e destacar o que é realmente essencial para a celebração do Mistério de Cristo, isto é, o altar, a mesa da Palavra, a cadeira presidencial e a pia batismal. Durante a Quaresma outros símbolos fortes são importantes, como a cruz, a cor roxa e outros próprios para cada celebração.

AÇÃO RITUAL

Um refrão meditativo seguido de oração silenciosa permite à comunidade entrar com inteireza no mistério a ser celebrado. Isto ajuda a criar um ambiente próprio para celebrar que convida à oração.

Ritos iniciais

Sugerimos iniciar a celebração cantando “Senhor, eis aqui o teu povo” (Hinário Litúrgico II da CNBB, página 296).

Seria muito oportuno a saudação inicial de 2Tessalonicensses 3,5:

“O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco”.

Em seguida quem preside, ou o diácono ou um leigo ou leiga preparado, dar o sentido da celebração com estas palavras ou outras semelhantes:

Domingo da pecadora perdoada. Às vésperas da Páscoa somos convidados a seguir em frente, abandonando qualquer sinal de condenação. Jesus nos convida a ter as mãos abertas sem pedras. Que o Senhor defenda a nossa causa contra toda a impiedade e venha em socorro de nossa oração.

A recordação da vida, lembrando os fatos da semana, sinais da Páscoa acontecendo na vida, pode ser feita logo depois da saudação de quem preside e ser seguida de um momento penitencial. Trazer os fatos da vida de maneira orante e não como noticiário. O símbolo da pedra pode ser evidenciado neste momento ou após a homilia, “O vosso coração de pedra” (cf. Hinário Litúrgico 2, p. 176) é um canto apropriado para o momento.

O Ato penitencial pode ser feito por toda a assembléia, de joelhos, defronte a cruz do Senhor. Quem preside convida a assembléia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus.

O presbítero motiva os fiéis à penitencia com a Fórmula 3 do Missal Romano página 392:

O Senhor disse: “quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. Reconheçamo-nos todos pecadores e perdoemo-nos mutuamente do fundo do coração.

Reunida em torno da cruz, a assembléia pode fazer, de joelhos ou inclinada, o Ato Penitencial e ser motivada a expressar o desejo de viver a Quaresma, indicando aspectos nos quais é chamada à conversão. Sugerimos a Fórmula 1, própria para este 5º Domingo da Quaresma, da página 396 do Missal Romano.

Outra opção é substituir o Ato penitencial com a aspersão com a água.

Na oração do dia contemplamos a alegria da caridade que levou Cristo ao dom de sua vida. Morrer e ressuscitar, pois a glória é alcançada através da doação, por amor, até a morte.

Rito da Palavra

As leituras e o Salmo responsorial deste domingo contêm densidade e vitalidade ímpares. Por isso, caprichar em sua proclamação: com calma, pausadamente, com unção, com voz suave, mas firme e orante. Para tanto, faz-se necessário prepará-la, através de uma boa leitura, da meditação, da oração. A pessoa que vai proclamar a Palavra deve de fato incorporá-la como um ator ou atriz que incorpora o personagem. Deste modo, a assembléia poderá sentir que é Deus mesmo que fala com seu povo.

Ao final da leitura, nunca dizer “Palavras do Senhor” ou “Palavras da salvação” (no plural), pois não são “palavras” que são proclamadas e sim “a Palavra (Deus mesmo, Cristo que fala ao povo reunido em assembléia!)

O Evangelho pode ser cantado ou dialogado, com vários personagens: um(a) narrador(a), o presidente da celebração representando Jesus, a mulher pecadora, os fariseus e mestres da lei. Isso deve ser combinado, ensaiado, treinado, vivenciado antes, com a equipe de liturgia. Não pode ser improvisado, em razão da imensa dignidade da Palavra de Deus e da necessidade da vivência orante da Palavra. Onde for possível pode ser encenado. Não é preciso que as pessoas se vistam com figurino da época, mas assumam a “psicologia” dos personagens. No caso da dramatização, é importante que a narrativa seja feita da Mesa da Palavra e do Evangeliário, para resguardar o sinal e a linguagem ritual.

Cada pessoa, à entrada da igreja, pode receber uma pedra para o rito sugerido a seguir:

“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Com esta frase lapidar de Jesus, a celebração deste domingo foca a misericordiosa ação de Deus em cuidar de suas criaturas. Ele, que despreza o pecado e acolhe o pecador oferece um itinerário de conversão cujo horizonte é a Páscoa de seu Filho, que nos liberta definitivamente da morte.

Esta ação ritual para este domingo pode ser feito, com a sequência: homilia – bênção da água – credo – ablução – conclusão do rito – preces.

Como proceder:

a) Depois da homilia, convida-se a assembléia para a oração de bênção a seguir. Importante que a homilia termine com uma exortação a todos para deixarem de lado “as pedras” que trazem consigo e, com as mãos livres, mergulharem nas águas que recordam o batismo que nos fez semelhantes a Jesus.

Senhor Deus de Bondade

Vós que amais o pecador

Mas desprezais o pecado,

Manifestai vossa bondade

Diante de vosso povo reunido em prece,

No dia que Vos é consagrado.

Abençoai esta água, para que seja

Recordação do nosso batismo,

Renovando em nós a fonte viva da vossa graça

Para que, abandonando as pedras de

Nossas Acusações,

sejamos semelhantes a vós

Misericordiosos e cheios de ternura.

Por cristo, nosso Senhor.

Amém.

b) Todos rezam o Credo

c) Em seguida, faz-se a procissão, cada pessoa levando suas pedras e deixando-as junto à pia ou recipiente com água. Para acompanhar essa ação ritual é muito oportuno cantar: “O vosso coração de pedra se converterá”

Outra opção é após a homilia, o grupo de cantos entoa um refrão orante que ajudará a assembleia a meditar a Palavra que ouviu. Sugerimos o refrão da comunidade de Taizé, que pode ser encontrado na internet: “Deus só pode nos dar seu amor. Nosso Deus é ternura! Ó… Deus é ternura. Ó… Deus que perdoa”.

Onde houver Batismo na Vigília Pascal, depois da homilia, e da ação ritual acima, os catecúmenos, junto com os padrinhos e madrinhas, colocam-se diante do presidente da celebração para o terceiro escrutínio. É dia de oração especial sobre os eleitos para receberem os sacramentos na noite de Páscoa (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, pág. 77). O livro Dia do Senhor. Guia para as celebrações das comunidades – Ciclo pascal, página 98-99, traz um exemplo deste rito. A entrega da Oração do Senhor pode ser feita também na semana depois do terceiro escrutínio.

Se for Celebração Dominical da Palavra, entoa-se, após a oração dos fiéis, um louvor ou ação de graças a Deus (ver orientação dada pelo Guia Litúrgico-Pastoral, da CNBB, página 62-64). Por exemplo, a “Louvação Quaresmal II (Conversão)” (Hinário Litúrgico II da CNBB, página 154) ou outro canto de louvor apropriado.

Rito da Eucaristia

A procissão dos dons ao Altar simboliza toda a comunidade que apresenta sua própria vida nos sinais do pão e do vinho. Neste Domingo, o rito da Eucaristia poderia ser precedido com uma breve monição:

“Somos Igreja peregrina e levamos ao Altar as nossas vidas”. O pão e vinho que apresentamos será nosso alimento e nossa força, para nos libertar dos males que nos paralisam.

Na oração sobre as oferendas, peçamos a Deus que o sacrifício eucarístico nos purifique.

A oração eucarística é a oração do povo sacerdotal chamado a celebrar a Aliança que Deus, seu parceiro, estabeleceu por meio da Páscoa de seu Filho. Fazem-se necessários o conhecimento e o aprofundamento de seu sentido e estrutura literário-teológica como a confissão da fidelidade de Deus e da fragilidade humana. A oração eucarística é um todo, cuja unidade de estrutura e gênero literário deve ser respeitada. Vale lembrar que apenas a oração eucarística I e a III não têm prefácio próprio e a oração eucarística II admite troca de prefácio. As demais orações eucarísticas são uma unidade inseparável.

Quanto à narrativa da “última ceia”, assim orienta o Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB, página 27-28: “Nem pelo tom de voz nem de qualquer outra maneira, se isole a narrativa da última ceia do resto da Oração Eucarística, como se fosse uma peça à parte”. Muitos presidentes das celebrações mudam o tom de voz como se a narrativa da ceia fosse uma peça à parte. Não convém de deter na apresentação do pão e do vinho (impropriamente chamado de elevação), já que a Oração Eucarística é a ação de graças dirigida em adoração ao Pai. A verdadeira elevação do Corpo e Sangue de Cristo é na Doxologia final (Por Cristo, com Cristo em Cristo…). A narração da instituição da Eucaristia não é uma imitação da última ceia, por isso, não se reparte o pão neste momento. O partir o pão, como Jesus fez, corresponde à fração do pão em vista da comunhão.
A comunhão nas duas espécies reafirma e anima, ainda mais, a nossa participação no Mistério Pascal de Cristo, para a qual fomos chamados, por meio de sua entrega de amor na cruz. É oportuno que a comunhão seja feita sob as duas espécies para toda a assembleia, conforme IGMR, n. 240.

Ritos Finais

Na oração depois da comunhão, suplicamos a Deus que sejamos sempre contados entre os membros daquele cujo corpo e sangue comungamos.

Concluir com a benção solene, de acordo com o Missal Romano, pp. 521-522.

As palavras do envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: “Nem eu te condeno, vai e não peques mais”. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

O tema central da liturgia de hoje é a “renovação” (cf. primeira leitura). É neste sentido que o Evangelho quer ser entendido. Estamos na Quaresma, tempo de penitencia. Deus não nos condena, mas quer que de nosso pecado brote “o não mais pecar”.

O objetivo da Igreja e da nossa equipe diocesana de liturgia é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

Benedito Mazeti

Assessor diocesano de liturgia

Pe. Benedito Mazeti

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