A CERTEZA NAS INCERTEZAS DE MAIO

A CERTEZA NAS INCERTEZAS DE MAIO

03/05/2021 0 Por Marcos Perussi

São passados quatro meses do “ano novo”, 2021, e nos sentimos como se estivéssemos
no velho ano de 2020, com todas as tribulações iniciadas em fevereiro daquele ano, que
vieram agravar a nossa situação, que já não era fácil. Maio chegou entre tantas
incertezas, impondo em nossos ombros o medo que insiste em nos assombrar. No
penúltimo dia de abril, 29, o Brasil chegou a 400 mil pessoas falecidas, resultante da
infecção pela covid 19.
Milhares de falecidos, mas milhões afetados por sequelas da infecção, pelo subemprego,
desemprego, pela carestia, fome e miséria. São dores por todos os lados, uma noite
escura que se espraia sem limites, fazendo-nos prisioneiros de nós mesmos e uns dos
outros. Estamos num “purgatório”, para não dizer outra coisa, sem data para terminar,
com forças arrefecidas, pois não se vislumbra o “fim do túnel” e muito menos a luz.
A fé esmaece, está a gotejar a caridade e a esperança, que por isso vão minguando.
Assim, como se não bastassem as doenças do corpo, ficamos enfermos na alma e no
espírito, estamos como que sonâmbulos, catatônicos, andando a esmo, apavorados
diante do medo que ocorra uma terceira onda infecciosa do “bichinho”. Lágrimas
silenciosas, às vezes escondidas, rolam a “torto e a direito”, sem “porto seguro”, sem
amparo sólido, que arrefeça a solidão.
No Brasil, nestes últimos quatorze meses, poucos não choraram, não perderam o sono,
não tiveram pesadelos, não se horrorizaram, não tiveram medo da “barriga roncar de
fome”, não se perguntaram como será o amanhã, diante da atrocidade do hoje, que não
viram a morte rondar o quintal da família, da vizinhança, dos amigos ou dos colegas de
trabalho. Há um cansaço, uma desilusão caminhando e lançando raízes no coração das
pessoas e nas estruturas da sociedade.
Há um cinismo avassalador que toma conta de boa parte das “pessoas públicas”, de toda
natureza, que como “cuidadores – pastores” do povo, se esquecem que “todos são filhos
e filhas de Deus”, e pautam as suas ações seletivamente, sem olhar para a globalidade
dos cidadãos que lhes são confiados, pela missão que operam ou deviam operar na
sociedade, sendo para isto, eleitos ou não. Alguns parecem viver e ou agir sob uma
redoma, surdos diante do grito de socorro que clama aos céus, ecoado de todos os
cantos e recantos deste Brasil.
Temos sinais promissores: os estudos científicos para descobrir medicamentos contra a
covid 19 e a produção e distribuição de vacinas, estas já em uso; a caridade e a
filantropia das pessoas, igrejas e organizações da sociedade civil, que socorrem os que
são privados dos meios de subsistência; a ação profissional de pessoas que se situam na
linha de frente no atendimento aos infectados, aos falecidos e nos processos de
higienização; descoberta de novo meios de organização da sociedade civil, reinventando
formas de trabalho; a redescoberta do que é essencial na vida.
Bom seria uma unificação dos programas de assistência social, dos governos, para criar
uma “ajuda emergencial”, um projeto de “renda mínima”, para assistir pessoas e
famílias desempregadas ou subempregadas. Os recursos para este fundo poderiam ser os
já existentes e previstos nos planejamentos governamentais, um imposto sobre as
grandes fortunas, redução salarial e de benefícios de pessoas do alto escalão do
executivo, legislativo e judiciário, nas três esferas, e redução de gastos públicos com
propaganda e marketing.
A certeza de maio é que não estamos sozinhos, Deus está conosco; não estamos
vencidos, mas “pelejando”; acuados, mas não derrotados. Canta a canção “Segura na
mão de Deus e vai”. Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado caminha conosco, como
esteve com os discípulos de Emaús. Que o Divino Espírito Santo abra a nossa vida para
compreendermos e vivermos a Sagrada Escritura, luz para os nossos passos.
Procuremos o alimento da Eucaristia, pão dos sofredores. Procuremos o conforto da
amizade e sejamos solidários. Assim, não nos faltará o terno e materno amor de Nossa
Senhora, ao longo deste maio.

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP


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