A SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA: UMA TAREFA DE TODOS NÓS

O Brasil é um país pacífico. O brasileiro é um povo alegre, amistoso e acolhedor. Será mesmo? Sérgio Buarque de Holanda cunhou, em 1936, a expressão “homem cordial”, para definir o comportamento do brasileiro. No entanto, em seu livro “Todos contra todos”, o historiador Leandro Karnal questiona essa máxima, apresentando uma reflexão histórica, filosófica e psicanalítica da violência no país.

De fato o Brasil apresenta índices de violência comparáveis a países que vivem em situação de guerra. De 2011 a 2015, por exemplo, cerca de 250 mil pessoas morreram na Guerra da Síria, no mesmo período quase 280 mil pessoas morreram no Brasil vítimas de arma de fogo. A população negra está ainda mais exposta a situações de violência. O Brasil é o primeiro país no mundo em número absoluto de assassinatos, sendo que, desse total de assassinatos, 71% das vítimas são negros. Os jovens também estão muito vulneráveis. De acordo com o Mapa da Violência de 2017, 48% dos assassinatos no Brasil é de jovens entre 15 e 29 anos. Da mesma maneira, outros grupos sociais historicamente sofrem de maneira mais intensa situações de violência, como as mulheres, idosos, pessoas portadoras de deficiências, pessoas em situação de rua e etc.

A violência institucional é também extremamente cruel e decorre de fatores como a desigualdade social e a corrupção generalizada, que drena os recursos imprescindíveis para a aplicação de políticas públicas adequadas e necessárias, especialmente em regiões mais empobrecidas e nas periferias das grandes cidades.

Trazemos ainda arraigado em nossa cultura um tipo de violência mais sutil, quando não reconhecemos situações como violentas, quando invertemos a lógica e colocamos na vítima a culpa pela violência sofrida, ou ainda quando defendemos a vingança ao invés da justiça para a reparação da violência.

Nesse cenário a Igreja no Brasil nos desafia a refletir e buscar caminhos de superação da violência. Olhando para Jesus encontramos o caminho e a resposta: “Vos sois todos irmãos”, disse o Senhor (Mt 23,8). Enxergar o outro não como um inimigo, como uma ameaça, mas com a dignidade de um filho amado de Deus não é tarefa fácil. Faz-se necessário um profundo e verdadeiro caminho de conversão pessoal.

Os trabalhos das pastorais sociais são belos exemplos de superação da violência. A pastoral carcerária, por exemplo, visita semanalmente os presídios da região prestando, além do apoio espiritual, a presença humana e fraterna naquele ambiente tão hostil. A pastoral da sobriedade desenvolve um caminho de luta e apoio com aqueles que buscam vencer o vício das drogas e do álcool. As pastorais da saúde e da pessoa idosa levam amor, amparo e a presença fraterna àqueles muitas vezes segregados do convívio social. E assim tantos outros trabalhos desenvolvidos por pastorais e movimentos de nossa Igreja. Portanto, é necessário conhecer, divulgar e participar de forma comprometida e séria.

A participação em instrumentos da gestão pública é também imprescindível para a superação da violência. Os conselhos municipais de saúde, de assistência social e de educação são, por exemplo, mecanismos que, se bem utilizados, têm grande poder de intervenção social. Somos ainda chamados a superar a violência em nosso cotidiano, seja no trânsito, seja nos ambientes nos quais estamos inseridos: família, escola, trabalho. O desafio que a Campanha da Fraternidade nos apresenta é sermos agentes de desconstrução da cultura da violência e, por outro lado, semeadores da paz. A chamada Civilização do Amor que sonhamos, como nos ensinava São João Paulo II, só pode ser fecundada pela ação do Espírito Santo, gerando homens novos e mulheres novas para um mundo novo de justiça e paz.

Uma santa e fecunda Campanha da Fraternidade a todos!

João Adriano Alves
Eng. Químico / Especialista em Gestão Ambiental
Membro da equipe diocesana da CF

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