Artigo – Desigualdade sentida na pele

Você, em um lago, águas calmas, lança uma pedra. Ela, onde toca, provoca um movimento forte. A partir dali, ondas se formam e, ao mesmo tempo, vão perdendo intensidade à medida que se distanciam do centro.

Considerada a ilustração, ela não se aplica às manifestações que se seguiram após a morte de George Floyd. A onda de protestos não diminuiu nos Estados Unidos (onde o cidadão, negro, fora morto em uma ação policial) e segue ganhando força mundo afora. Ultrapassada a nobre expressão de solidariedade, que uniu o mundo, o grito de Floyd encontrou outros “sufocados” igualmente gritando: “não estou conseguindo respirar”. O racismo e o preconceito estão por toda a parte e multidões – fora qualquer limite étnico – se mostraram sensíveis aos seus efeitos.

Desde o último dia 25 de maio, data daquela trágica ocorrência policial, até aqui, todos os Estados americanos registraram protestos. Cidadãos, em países de outros continentes, também foram às ruas. Mesmo quem não saiu de casa, via redes sociais, destacou o apoio à pauta publicando um quadrado preto e a inscrição “Vidas Negras Importam”. Essa marcação atingiu até domingo, 7 de junho, quase 21 milhões de citações em todo o mundo.

Considerado tão amplo contexto, e comentando a morte ocorrida nos Estados Unidos, o bispo de São José do Rio Preto, dom Tomé Ferreira da Silva, lançou luz, em especial, às formas veladas de preconceito. “No Brasil, a discriminação; o racismo, ele é mais disfarçado (em comparação com os Estados Unidos). Quando há crimes por causa da raça, da cor, não temos tantas reações ou tão intensas como tem ou como ocorre nos Estados Unidos da América”. (…) Se lá “o problema do racismo deixa feridas abertas, imagine no Brasil. É uma questão que nós ainda não superamos. Aqui (no país) os negros são muito mais discriminados, não só por serem negros, mas estão mais na margem da pobreza. O acesso ao trabalho qualificado, à universidade não é o mesmo para outra pessoa que às vezes tem uma condição mais privilegiada”, sublinhou o Epíscopo em seu programa Fato em Foco.

Dados do IBGE confirmam a leitura exata da situação feita por dom Tomé. No país, alguns “abismos” fazem a desigualdade ser sentida na pele: a população negra presente nas universidades, com idade até 24 anos, por exemplo, é de 12,8%. Brancos superam os 30%. Ainda se considerada a cor da pele, o desemprego atinge de forma mais forte o grupo afrodescendente. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentou outro dado: a renda dos brancos, em média, é superior (R$ 1.780,60/mês contra os R$ 1.012,76 dos negros).

Desencadeadas pela morte de Floyd, as manifestações contra o racismo e a discriminação são legítimas e necessárias (em qualquer parte). O Papa Francisco, na Audiência Geral de quarta-feira, 3 de junho, reforçou essa ideia, mas acrescentou: “não podemos fechar os olhos para qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a violência (durante as manifestações) é autodestrutiva e autolesionista. Nada se ganha com a violência e muito se perde”, disse o Pontífice que, em outro gesto de apoio, ligou para o bispo americano Mark Seitz para agradecê-lo pela homenagem feita à Floyd, em comunhão com alguns padres da Diocese de El Peso, no Texas. Ainda nesse contexto, dom Tomé indicou: “eu imagino que um dos próximos desafios que o Brasil deverá enfrentar no futuro é, justamente, o da igualdade entre as pessoas. De forma disfarçada, a desigualdade ainda continua sendo cultivada não só na sociedade, mas também dentro das próprias famílias e organismos e instituições que compõem a sociedade”.

 

André Botelho
Jornalista | Colunista do jornal Diocese Hoje

 

– Texto escrito e enviado para a redação do jornal Diocese Hoje

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