Artigo – O sacramento do Corpo de Cristo

Com certeza nesta pandemia a quarentena fez com que muitos cristãos católicos tomassem consciência da importância e da falta que a eucaristia faz nas nossas vidas cristãs. E é ainda nesta situação de isolamento social que celebraremos o Corpus Christi.

O Corpus Christi é uma celebração litúrgica católica que ocorre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes. Essas datas litúrgicas nos indicam que no auge da revelação cristã está o mistério da Trindade e entre os sacramentos o cume é a eucaristia, sacramento do corpo e sangue de Jesus, que constrói a Igreja no tempo ao fazer dela o corpo místico de Cristo.

O Novo Testamento atesta o sacramento da eucaristia formalmente em quatro narrações (Mateus, Marcos, Lucas e Paulo, 1 Cor 11, 23-26) da Última Ceia. A Igreja primitiva leu aí a instituição pelo próprio Jesus da refeição que ela devia celebrar.

E para compreender a natureza e o perfil da eucaristia é preciso partir da ideia de memorial, saída das palavras: “Fazei isto em memória de mim”. Dadas as referências ao corpo entregue e ao sangue derramado, esta memória diz respeito à paixão de Jesus, mas também ao seu fim, à Ressurreição.

A Eucaristia não é somente a recordação que a própria comunidade reunida repete do acontecimento fundador. É um ato de obediência àquele que se empenhou por expressar claramente a sua vontade. Assim como Jesus empenhou-se até à morte de cruz, empenhou-se igualmente em tornar sacramentalmente presente o dom que fez de si mesmo, uma vez por todas, cada vez que a Igreja celebra essa refeição. Portanto, a eucaristia é um memorial no sentido mais expressivo.

A celebração da eucaristia não é, de modo nenhum, uma repetição da Cruz, é uma reiteração da Última Ceia. A sua relação à Cruz é de uma outra ordem: ela “atualiza” a realidade para nós; ou ainda, torna-a presente ao “re-presentá-la”. De alguma forma, ela torna os cristãos de todos os tempos contemporâneos da Cruz. Não é um novo sacrifício que Cristo oferece cada dia a seu Pai, visto que o Novo Testamento nos diz que Jesus se ofereceu “uma vez por todas” (Hb 9, 12).

A eucaristia renova os crentes na sua participação no mistério da Cruz. Convida-nos a fazer da nossa vida um memorial desse sacrifício existencial.

A eucaristia é sacramento, através dos gestos simbólicos da refeição instituída por Jesus, do seu sacrifício existencial. “Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós” (Lc 22,19). Em suma, Jesus Cristo torna-se presente no e pelo dom do pão e do vinho, porque a sua carne que foi entregue à morte é portadora do Espírito de Ressurreição, e torna-se, no pão e no vinho, corpo e sangue de Cristo, o alimento da vida eterna para nós.

 

Érico Fumero
Doutor em Filosofia, mestre em Teologia e Professor

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