Centenário do Bem-aventurado Charles de Foucauld

No dia 01 de dezembro a Igreja Católica abriu oficialmente as comemorações do Centenário da morte (páscoa) do Bem-aventurado Charles de Foucauld. Ele viveu entre 1858 e 1916, filho de uma família rica, até os 28 anos esteve distante da fé. Depois de uma temporada desperdiçada e desregrada, influenciado pelo encontro com o Islã, conhecido no Marrocos por meio da fé humilde e adoradora de muitas pessoas simples, se perguntou: “Mas Deus, existe? Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça”. Voltando ao convívio familiar descobriu a fé cristã se apaixonou por Jesus e pelo Evangelho, e decidiu imitar os passos do Nazareno com o compromisso total da vida. Assim, a experiência espiritual de Charles de Foucauld é para nós, cristãos, um testemunho de criatividade no seguimento do Messias.

Charles_de_FoucauldCom a experiência do irmão Charles de Foucauld aprendemos o que não pode ser apreendido nos livros, nem com os grandes teólogos, porque é uma experiência de vida. Sua espiritualidade nos ensina que viver o Evangelho é vivenciar a vida com espírito. E não há teologia cristã melhor do que a do Evangelho. E quando nos esquecemos disto, a teologia se converte em especulação ou simplesmente em ideologia religiosa.

Do testemunho deste homem admirável surgiram muitos seguidores, marcados pelo mesmo espírito do amor de Cristo, gratuito e universal. Aliás, esta diversidade das experiências de seus seguidores nos mostra que a experiência espiritual não se restringe a uma única forma de viver. A variedade na família foucauldiana constitui para a Igreja e o mundo uma riqueza. No princípio Charles sonhou em escrever regras para os irmãos e irmãs que poderiam vir a ter, no entanto, posteriormente compreendeu que precisava deixar aberta a experiência para que o Espírito pudesse a partir dele inspirar e vivificar diversas formas de vida.

A experiência espiritual do irmão Charles de Foucauld não se confunde com uma espiritualidade teórica ou abstrata, pelo contrário, ela está ligada ao concreto da vida, como deveria ser qualquer espiritualidade cristã. É um caminho, um modo de ser. Assim como Charles entrou no caminho e deixou-se conduzir, quem nele se inspira para seguir Jesus de Nazaré, não pode elaborar um projeto, nem uma teoria com ideias claras.

Desde o começo até o fim da sua vida, a experiência espiritual do irmão Charles é de busca. Após a primeira conversão ao cristianismo compreendeu que ser cristão não é se adequar a uma experiência pronta. Por isso, constantemente se perguntava: “Deus existe? Quem é Deus? Como é? Onde está?”. Essas e muitas outras perguntas foram sendo respondidas ao longo da sua vida, mas nunca ficou totalmente satisfeito, continuou perguntando-se: “O que quer de mim? Como responder? O que devo fazer?” Nunca se contentou em restringir a espiritualidade a um conjunto de doutrinas.  O Deus para Foucauld é sempre inalcançável. Sempre maior do que ele era capaz de compreender. Deus estava sempre “ailleurs”, em outra parte, e quando tentava fixar-se ou fixá-lo, escapava-lhe.

Ao se aventurar pelo caminho da fé Irmão Carlos descobre que Deus está acima de tudo e deseja responder ao seu amor com a maior generosidade possível. “Me dei conta, que não podia fazer outra coisa que viver unicamente para Ele”. O “Absoluto de Deus” não é um conceito teológico, nem uma teoria: “Rejubilemo-nos, porque Deus é Deus”. É uma experiência mística. “Que grande é Deus! Que diferença entre Deus e tudo o que não é Ele!”. Esta constatação provocou uma insatisfação crescente e uma busca por mais, fazendo com que relativizasse o que não era Deus, justificando assim, de modo radical a busca da vontade de Deus.

A insatisfação do irmão Charles de Foucauld não é a nossa pequeno burguesa insatisfação do “estou cansado, estou farto!”, mas uma insatisfação pela procura do “Absoluto de Deus” para fazer-lhe a vontade, seja no seguimento do caminho de Jesus, na leitura orante da Palavra de Deus, na oração contemplativa, na celebração e adoração eucarística, na entrega aos pobres e excluídos. É a insatisfação da fé, que o faz ir além de si, em um sentir-se irmão de todos e de querer amar a todos, cada um que se lhe apresentava no concreto da vida cotidiana.

Assim é que o irmão Charles de Foucauld foi se deixando conduzir pele Espírito num configurar toda a sua vida por e com Jesus, pelo seu mistério de encarnação, pela humanidade, vida oculta e cruz. Irmão Charles percorreu o caminho, marcado por sucessivas e radicais conversões até chegar a ser pobre com e como os pobres, a ponto de deixar-se conduzir por eles na última etapa de sua vida. Deste modo se entende que a configuração causou alegria, sofrimento, dor, felicidade e morte. Igualmente, se pode entender o que significou para ele: “Gritar o Evangelho com a vida”.

O testemunho de Charles nos mostra que não há uma única maneira de viver, mas de qualquer modo, para os discípulos de Jesus, é preciso encontrar-se com Deus encontrando-se com o mundo (“Deus no coração do mundo”), encontrando-se com os outros: “É amando os seres humanos que se aprende a amar a Deus”.

Em 2005, véspera da beatificação do Ir. Carlos, Dom Luciano Mendes escreveu no Jornal Folha de São Paulo: “Em meio ao egoísmo, ao desperdício e ao vazio dos valores em nossa sociedade, ele nos revela a paixão pelo absoluto de Deus e a felicidade de quem aprende com o coração de Cristo a dar a vida por amor pelos irmãos”.

Por tudo isso e muito mais, Charles de Foucauld permanece no início deste terceiro milênio, um ponto de referência fecundo, um convite a um estilo de vida radicalmente evangélico.

Érico Fumero, Professor de Filosofia no Centro de Estudos Superiores Sagrado Coração de Jesus.

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