Igreja no Mundo › 07/07/2020

De Lampedusa à Covid-19

Criança sendo resgatada nas águas internacionais do Mediterrâneo, em julho de 2019 (AFP or licensors)

Reprodução: Vatican News | 07/07/20 – 14h10

 

Sete anos depois da sua visita à ilha, o apelo do Papa Francisco feito naquela oportunidade, para nos sentirmos e nos vermos como irmãos uns dos outros, é ainda mais urgente. Na era da pós-pandemia, não há possibilidade de nos salvarmos sozinhos, a fraternidade é a única maneira para construir o futuro.

 

Por Alessandro Gisotti

 

“’Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim’, diz o Senhor Deus. Essa não é uma pergunta dirigida aos outros, é uma pergunta dirigida a mim, a ti, a cada um de nós”. Já se passaram sete anos da visita do Papa Francisco a Lampedusa e daquela pergunta dirigida à humanidade na missa celebrada no campo esportivo da ilha, no coração do Mediterrâneo.

Uma viagem que durou apenas algumas horas, mas que foi de alguma forma “programática” para o Pontificado. Ali, na ponta sul da Europa, Francisco mostrou o que entende quando fala de “Igreja em saída”. Ele tornou visível a afirmação de que a realidade pode ser vista melhor a partir das periferias do que a partir do centro. Em meio aos migrantes que fugiram da guerra e da miséria, ele mostrou concretamente o seu sonho de uma “Igreja pobre e para os pobres”. Em Lampedusa, por outro lado, falando de Caim e Abel, também colocou a questão da fraternidade em primeiro plano. Um questionamento fundamental para o nosso tempo. Ou talvez, de todos os tempos.

Sobre o eixo da fraternidade gira todo o Pontificado de Francisco. “Irmãos” é precisamente a primeira palavra que ele dirigiu ao mundo como Papa na noite de 13 de março de 2013. A dimensão da fraternidade está, se assim se pode dizer, no DNA deste Pontífice que escolheu o nome do Pobrezinho de Assis, um homem que queria para si, como único título, aquele de “frate”, frater, irmão precisamente.

Fraterno é também o modo como define a sua relação com o Papa emérito Bento XVI. Após a assinatura da Declaração sobre a Fraternidade Humana, esse valor do Pontificado certamente aparece mais marcado e evidente a todos. No entanto, voltando aos primeiros sete anos de Pontificado de Francisco, encontramos vários marcos no caminho que levou à assinatura, juntamente com o Grande Imã de Al Azhar, do documento histórico em Abu Dhabi, em 4 de fevereiro de 2019. Um caminho que agora continua, porque aquele evento em solo árabe foi um ponto de chegada, certamente, mas também de um novo começo.

Voltando à “questão de Lampedusa”, é particularmente significativo que o Papa retome as mesmas palavras em uma outra visita altamente simbólica, aquela que faz ao Sacrário Militar de Redipuglia, no centenário do início da I Guerra Mundial. Também aqui, em setembro de 2014, o diálogo entre Deus e Caim, após a morte do irmão Abel, volta a ressoar com todo o seu drama. “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão”? (Gn 4,9). Para Francisco, naquela recusa de se sentir o guardião do irmão, de cada irmão, está a raiz de todos os males que abalam a humanidade. Essa atitude, enfatiza o Papa, “é exatamente o oposto do que Jesus nos pede no Evangelho”, “Aquele que cuida de seu irmão, entra na alegria do Senhor; aquele que não o faz, com as suas omissões diz: ‘O que me importa?’, fica de fora”.

Com a passagem do Pontificado, vemos que a pertença comum à fraternidade humana é declinada em todo o seu dinamismo multiforme, desde o ecumênico ao inter-religioso, da dimensão social àquela política. Mais uma vez o poliedro é a figura que melhor representa o pensamento e a ação de Francisco. A fraternidade, de fato, tem muitas facetas. Tantas quantas forem os homens e as relações entre eles.

Francisco fala de irmãos no encontro de oração e de paz nos Jardins do Vaticano com Shimon Peres e Abu Mazen. “A vossa presença”, enfatiza ao se dirigir ao líder israelense e aquele palestino, “é um grande sinal de fraternidade, que cumprem como filhos de Abraão, e uma expressão concreta de confiança em Deus, Senhor da história, que hoje nos olha como irmãos, uns dos outros, e deseja nos conduzir em seu caminho”.

Em nome da fraternidade, animada pela fé comum em Cristo, há também o encontro, impensável até poucos anos antes, do bispo de Roma com o Patriarca de Moscou, um evento abençoado pelo Patriarca de Constantinopla, o irmão Bartolomeu I. Em Cuba, Francisco e Kirill assinam um documento comum que, em suas palavras iniciais, enfatiza: “Com alegria, nos encontramos como irmãos na fé cristã, que se encontram para ‘falar de viva voz”.

Fraternidade é também a palavra-chave que nos permite decodificar um dos atos mais fortes e surpreendentes do Pontificado: o gesto de se ajoelhar para beijar os pés dos líderes do Sudão do Sul convocados ao Vaticano para um retiro espiritual e de paz. “Aos três, que assinaram o Acordo de Paz”, diz o Papa com palavras sinceras, “peço-lhes, como irmão, que permaneçam na paz. Eu lhes peço de coração. Vamos adiante”.

Portanto, se a Declaração de Abu Dhabi foi como a floração de sementes plantadas no início e, depois, durante todo o Pontificado, certamente a “mudança de época” que estamos vivendo, acelerada pela pandemia, torna improrrogável assumir a responsabilidade em relação à questão da fraternidade humana. “Onde está o teu irmão?” Aquela pergunta-apelo, levantada na ensolarada manhã de 8 de julho de 2013 em Lampedusa, é hoje “a” questão.

O mundo, convencido de poder fazer sozinho, de poder ir adiante com a lógica egoísta do “sempre se fez assim”, ao invés disso, se viu no chão, incrédulo e impotente diante de um inimigo invisível e esquivo. E agora luta para se levantar porque não encontra a base correta para se sustentar. Essa base, nos repete Francisco, é a fraternidade. Ali estão as únicas bases sobre as quais construir uma casa sólida para a humanidade.

O coronavírus mostrou dramaticamente que não importa quão diferentes sejam os níveis de desenvolvimento entre as nações e a renda dentro das nações, todos nós somos vulneráveis. Somos irmãos no mesmo barco, abalados pelas ondas de uma tempestade que atinge todos e a cada um indiscriminadamente. “Com a tempestade”, afirma o Papa sob a chuva de 27 de março na Praça São Pedro vazia, “caiu a maquiagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’, sempre preocupado com a própria imagem; e ficou descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.

Isso é o que pode despertar as nossas consciências um pouco anestesiadas diante das muitas “pandemias”, como a guerra e a fome, que bateram às nossas portas, mas que não nos curamos, porque não conseguiram entrar em casa. “Há muitas outras pandemias que fazem as pessoas morrerem”, lembrou Francisco na missa na Santa Marta em 14 de maio, “e nós não nos damos conta, olhamos para o outro lado”. Hoje, assim como há sete anos em Lampedusa, o Papa nos diz que não devemos olhar para o outro lado porque, se realmente nos sentimos irmãos, membros uns do outros, o outro lado não existe. O outro lado somos nós.

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