› A Trindade como história: ensaio sobre o Deus cristão – Bruno Forte

Por: Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Especialista em Filosofia (UFOP), graduado em Filosofia e Teologia (CEUCLAR) e em Letras com habilitação em Literatura e Língua Espanhola (UNESP)
Assessor da Pastoral Universitária e do Setor Juventude
Vigário da Catedral de São José
E-mail: hallisonparro@hotmail.com

FORTE, B. A Trindade como história: ensaio sobre o Deus cristão. São Paulo: Paulinas, 1987.

Resenha

O Deus em quem nós, cristãos, cremos não é o Deus da pura razão solitária ou a imagem de um sentimento de angústia perante a grandiosidade do cosmos, mas o Deus de Jesus Cristo. Nos fundamentos da fé cristã, existe a convicção de que o próprio Deus toma a iniciativa de vir ao encontro da humanidade, mostrando, por meio de suas ações na história, o seu verdadeiro ser.

Em, com e por Jesus, os homens fazem a experiência de que Deus é pura oblatividade, oferta ilimitada de amor e redenção. Na medida em que Jesus se entregou na cruz e se entrega a nós, constantemente, em sua Igreja, somos assumidos pela Trindade e inseridos em sua comunhão de amor, pois Deus se fez homem, para que o homem pudesse fazer-se Deus por participação.

Dessa forma, o mistério trinitário é o centro de toda a teologia e vida cristã. No Espírito Santo, o cristão conforma-se a Cristo, torna-se filho no Filho, para que, em sua existência e em seu coração, reconheça o rosto misericordioso do Pai. Inserido em uma comunidade de fé, o fiel experimenta o amor trinitário e, em resposta a Ele, coloca-se a serviço do outro por amor e por gratuidade, porque tem consciência de que Deus o amou por primeiro.

Bruno Forte defende que a experiência com o Mistério Pascal tal como nos é apresentado pela Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja é o lugar, por excelência, da experiência trinitária. Para ele, por meio do Mistério Pascal de Cristo, a humanidade tem acesso à vida divina, uma vez que a morte foi vencida pela ressurreição de Jesus. O Senhor nos revela plenamente o mistério de Deus, por meio de seus gestos, palavras e ações, mas, principalmente, na Cruz, onde, ao entregar o Espírito ao Pai, esse mesmo Espírito é derramado sobre a humanidade, para que o pecado da divisão e da discórdia seja superado pela im-potência do amor e, assim, os homens redimidos façam a experiência da vitória da ressurreição.

 Mistério pascal, fonte da experiência trinitária

Teólogo de renome internacional, Bruno Forte foi nomeado Arcebispo de Chieti-Vasto em 2004. É doutor em Teologia pela Faculdade Teológica de Napoli-Capodimonte. Ensinou teologia dogmática na Faculdade Teológica da Itália meridional. Autor de vários livros como “Jesus de Nazaré. História de Deus. Deus da história”, “A missão dos leigos”, “Teologia da História: ensaio sobre a revelação, o início e a consumação”, “A Trindade como história”, entre outras, Forte busca, a partir de uma teologia da história, refletir sobre os principais tratados teológicos, no intuito de dialogar com o mundo contemporâneo.

Neste livro resenhado, o autor se pergunta se o Deus cristão é o Deus dos cristãos. Em sua visão, muitos cristãos são apenas monoteístas, uma vez que muitos rezam a Deus, mas não em Deus. Forte afirma que o exílio da Trindade do pensamento teológico foi o responsável pela cisão entre a teoria e a práxis da fé.

Esse processo se deve, na opinião do autor, à tentativa cristã de ser um discurso convincente no mundo greco-helenístico. Ao partirem da essência una de Deus, para em seguida, afirmar a Trindade de Pessoas, os teólogos buscavam garantir a inaudita humanidade de Deus, que nos é revelada em Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, possibilitar o diálogo com a filosofia grega. A consequência desse tipo de argumentação adotada foi a adoção de uma doutrina monoteística prévia, sem relação efetiva com o conceito de Deus e da salvação dos homens.

            Atualmente, a Teologia, consciente da necessidade de recuperar o seu tratado principal, se volta à história da revelação, uma vez que se torna insustentável a separação entre o discurso sobre a divindade una e única e o discurso concreto sobre as pessoas divinas. Essa história é fundamental para o conhecimento de Deus, já que a Trindade na história manifesta a Trindade na glória.

O argumento central de Bruno Forte consiste na afirmação de que toda a doutrina sobre Deus encontra a sua origem na natureza do evento Cristo e na fé pascal. O trabalho do teólogo tem o encargo de perscrutar no Deus revelatus o Deus absconditus para contar na história dos homens a história de Deus. Além do conhecimento de Deus, a história da revelação proporciona à pessoa um encontro com o próprio mistério da divindade, pois, na correspondência entre economia e teologia, a Trindade se oferece como realidade de salvação e de experiência da graça aos homens.

Contra Rahner, o autor argumenta que a Trindade econômica é a Trindade imanente, mas a Trindade imanente não pode ser compreendida totalmente pela economia. Essa não exaure a profundidade de Deus, já que a sua transcendência e a sua ulterioridade apresentam-nos o mistério como apófase (a inefabilidade do totalmente outro) e como escatologia (o vindouro e o novo do ainda não de Deus).

Forte conclui que a tese “a Trindade econômica é a Trindade imanente” corresponde à antítese “a Trindade imanente não é a Trindade econômica” resguarda a dimensão escatológica da fé, na síntese em que a história e a glória viverão numa dimensão plenamente reconciliada, quando Deus for tudo em todos.

Escrito para estudantes, professores e estudiosos de Teologia, o texto analisado exige uma concepção prévia do leitor e uma familiaridade com a especulação teológica. O autor realiza um trabalho dedutivo sobre a doutrina trinitária, o que, para muitos leitores iniciantes, pode tornar a leitura um pouco mais morosa. O livro é fundamental para se entender que a economia de salvação, cujo centro é o mistério pascal, é o lugar sempre vivo para se pensar a Trindade. A Páscoa de Jesus é a base sempre atualizada para a narrativa das comunidades cristãs sobre a constituição de Cristo como Senhor e revelador do Deus Trino (Deus pro nobis et in se ipsum).

 

 Conclusão

Para nós cristãos, Deus nos transcende e não podemos enquadrá-lo em nossas construções filosóficas e teológicas, mas, ao mesmo tempo, Ele está entre nós, porque se fez um de nós. Além disso, Deus está em nós, no mais íntimo de nosso ser. O nosso encontro com Ele nos surpreende e nos questiona radicalmente. Assim, não podemos viver uma religião verticalista, na qual a norma tem a prioridade. Também, a Igreja não pode contentar-se com a dominação dos seus líderes em relação aos fiéis, numa perspectiva horizontalista, e nem com uma “anarquia carismática”, que se importa somente em satisfazer as necessidades intimistas das pessoas.

Na pós-modernidade, precisamos falar de Deus e do homem a partir de sua dimensão intersubjetiva e social. O discurso trinitário não pode tirar suas conclusões somente com base na dimensão intelectual humana, mas em termos de comunidade e alteridade. É fundamental, como apontaram muitos teólogos contemporâneos, a recuperação da Trindade a partir de sua manifestação na história econômica da salvação. Ainda que sejam importantes os estudos na área de Teologia Filosófica no que diz respeito à construção de argumentos lógicos sobre a existência de Deus, hoje precisamos compreender qual o significado dessa existência para os crentes e o que isso implica no avanço do ateísmo.

O maior desafio para apresentar Deus ao homem contemporâneo está na recuperação de um discurso teológico eminentemente bíblico, que apresente uma cristologia aberta à realidade da imanência e da transcendência de Deus. Testemunhar a Trindade ao mundo não é uma questão de decorar fórmulas dogmáticas, mas em que sentido essas fórmulas evidenciam a experiência cristã fundamental, ou seja, que Jesus de Nazaré, o Cristo, está vivo e que, por meio de seu Mistério Pascal, nos salvou e nos conduziu para a vida e vida em abundância, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6).

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