› O SÉTIMO SELO – Ingmar Bergman

Por: Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Especialista em Filosofia (UFOP), graduado em Filosofia e Teologia (CEUCLAR) e em Letras com habilitação em Literatura e Língua Espanhola (UNESP)
Assessor da Pastoral Universitária e do Setor Juventude
Vigário da Catedral de São José
E-mail: hallisonparro@hotmail.com

INTRODUÇÃO

A morte sempre foi um fato que trouxe preocupação aos seres humanos. Ela desperta no espírito humano a vontade de questionar e tentar explicar o porquê da realidade, já que o homem está, a priori, totalmente desprovido de qualquer possibilidade de vencer a sua finitude. Essa angústia existencial dá à pessoa a consciência de que ela é um ser que caminha rumo à morte e ao nada.

A filosofia antiga, por exemplo, defendia que o homem tinha que aceitar a morte como um acontecimento natural. Para tanto, deveria subjugar o corpo em função de sua alma racional, eterna e indestrutível. Dentro dessa concepção, também a morte era motivo de vitória e de louvor, quando sustentada em prol de uma causa heroica.

Vale ressaltar que a certeza existencial da morte causa certo temor ao homem e, consequentemente, um sofrimento de ordem psicológica, já que tanto o sofrimento quanto a morte são realidades da vida humana e não têm explicação nem soluções definitivas. O principal sofrimento do homem consiste na luta pela sobrevivência diária e pela necessidade da realização pessoal. Todo ser humano almeja ser feliz e sofre muitas vezes inconscientemente, por saber que essa busca, às vezes, é meramente ilusória ou ameaçada pela possibilidade da morte.

Por isso, para que o homem possa dar um sentido para a sua própria existência em meio a essas duas realidades – morte e sofrimento –, é preciso que haja uma libertação, na qual a dor e o tédio sejam ressignificados. Existencialmente, a religião tem esse papel, na medida em que ela apresenta a morte como um instrumento ou uma etapa para uma vida mais intensa do que a vida biológica.

Em O Sétimo Selo, Ingmar Bergman destaca a imprevisibilidade da morte e questiona as respostas consoladoras da religião. Esse cinegrafista consegue explorar, de forma magistral, o enigma do sofrimento associado à finitude humana, diante da qual todas as pessoas, crentes ou não, se questionam e buscam uma resposta para o evento do morrer. Vejamos, sucintamente, o enredo do filme e realizemos uma apreciação filosófica e teológica do sofrimento humano presente na morte.

ANÁLISE CRÍTICA

“O Sétimo Selo” retrata a mentalidade medieval, especialmente, no período em que a Europa cristã foi assolada pela peste negra, pela fome e pela guerra entre França e Inglaterra, bem como dos cristãos contra os mulçumanos (Cruzadas). A experiência cotidiana da morte, portanto, era uma realidade nessa cosmovisão impregnada pela busca de Deus e pela submissão do homem à sua vontade.

O título faz referência ao livro do Apocalipse, no capítulo 8, quando o Cordeiro de Deus realiza a abertura do último selo, o sétimo, e o julgamento definitivo da história. Ocorre uma série de catástrofes sobre a face da terra, porém os cristãos santos se alegram porque se aproxima a libertação definitiva da maldade e a condenação dos ímpios. No enredo do filme de Bergman, o Cavaleiro Antonius retorna de uma cruzada, juntamente com o seu escudeiro. Quando eles chegam à sua terra natal, deparam-se com a peste e o delírio das pessoas de se flagelarem, porque creem que o motivo da peste é a ira de Deus. Nesse sentido, Bergman introduziu o canto Dies Irae no início da peça, para exemplificar, com sutileza, o contexto no qual haverá a partida de xadrez entre Antonius e a própria Morte.

O cristão Antonius confia em Deus e espera vencer a morte, um verdadeiro cavaleiro que não tem escrúpulos para ganhar a partida contra a vida. Antonius e a Morte haviam combinado que a partida de xadrez definiria se Antonius permaneceria vivo ou não. Durante o desafio, ambos discutem sobre o sentido da vida e o porquê da finitude humana. Com esperteza, a Morte se utiliza de uma trapaça: escuta a confissão de Antonius para descobrir a sua estratégia para vencê-la. Antonius protege três pessoas das garras da Morte: os jovens Mia e Jof e seu bebê. No final da narrativa, a morte retorna. O escudeiro representa o ateu convicto que, mesmo diante do término da vida, permanece convicto em sua visão da não-existência de Deus. Já o cavaleiro Antonius suplica por Deus em nome da fé, para que o próprio Deus tenha piedade de todos os personagens diante da foice da morte.

O filme termina com Jof observando todos os demais personagens presos pela Morte. Ele observa que a morte os faz dançar a sua música e não há como sair de suas garras. Enquanto isso, Mia diz a Jof para parar com suas fantasias e continuar o percurso, agora permeado pela luz do dia em contraste com as sombras e as trevas, vivenciados pelos personagens aprisionados pela morte.

Bergman, por meio deste filme, questiona a existência de Deus, a validade da oração e apresenta suas próprias dúvidas em relação ao mistério do homem, principalmente, o da morte. É interessante que Antonius consegue retardar sua morte, mas não vencê-la por completo, porque o cavaleiro da morte não é honesto e se utiliza de todos os meios possíveis para ganhar a batalha contra a vida. Na ótica bergmaniana, a morte o consegue, mas o mais importante é encará-la de frente, sem ter medo de reconhecer  o sofrimento e a própria condição finita de nossa vida, existindo ou não o Deus benevolente dos cristãos.

CONCLUSÃO

Ao se pensar na realidade do sofrimento, da morte e no seu significado pessoal e ao mesmo tempo coletivo, não se pode, enfim, deixar de notar o fato de que este mundo como que se adensa de modo particular nalguns períodos de tempo e em certos espaços da existência humana. É o que acontece, por exemplo, nos casos de calamidades naturais, de epidemias, catástrofes e cataclismos, ou de diversos flagelos sociais. Pense-se, entre outros, no caso de um período de má colheita e, relacionado com isso – ou por diversas outras causas –, no flagelo da fome.

Desde a teologia do sofrimento até a antropologia do sofrer, multiplicam-se tentativas de resolver esse problema tão real que persegue a criatura humana, sempre lhe mostrando o seu limite, a sua contingência, a sua finitude. Não faltam interpretações racionais, éticas e religiosas circundando essa problemática.

A antropologia moderna secularizante tem procurado desvincular o sofrimento do mal da culpa. A tendência atual, tecnicamente falando, é a de inverter a assimilação, conduzindo o mal da culpa como uma espécie de mal psicossomático, uma perturbação doentia, capaz de ser curado por métodos psicanalíticos ou afins. Entretanto, não são poucos os psicanalistas que reconhecem, na prática, que a crença religiosa serve como bálsamo para o sofrimento e como incentivo para vencer a dor da morte. No fundo de cada sofrimento experimentado pelo homem, aparece inevitavelmente a pergunta: por quê? É uma pergunta acerca da causa, da razão e também acerca da finalidade (para quê?). Trata-se sempre, afinal, de uma pergunta acerca do sentido. Essa não só acompanha o sofrimento, mas faz com que esse sofrimento seja propriamente um sofrimento humano.

 Os sofrimentos provenientes do modo de viver nossa contingência e finitude jamais desaparecem de uma só vez, mas podem ser suavizados. A carta apostólica Salvifici Doloris (2001) – O sentido cristão do sofrimento humano – ilumina com muita precisão a experiência da dor. Nela, o papa João Paulo II afirma que a pergunta sobre o sentido do sofrimento é plenamente humana e reconhece que o homem sofre de um modo humanamente ainda mais profundo se não encontra resposta satisfatória. Não raramente, essa pergunta é feita a Deus, que a espera, escuta-a e responde. A resposta que Cristo oferece à pergunta sobre o sentido do sofrimento não é abstrata, não responde por meio de uma doutrina. Ele acolhe com seu sofrimento a essas perguntas que os homens lhe dirigem e quer responder-lhes da Cruz, do meio do seu próprio sofrimento.

Cada sofrimento humano contém uma potencialidade inimaginável de bem e de paz não apenas para quem sofre, mas para todos. Quando supera a sensação de inutilidade do sofrimento, a pessoa descobre que, por meio dele, pode contribuir de modo particularmente fecundo, aceita si mesma com sua humanidade, sua dignidade, sua missão. Revela-se, assim, a urgência em se comunicar o imponderável valor de experiências que não podem ser totalmente dominadas pelo ser humano; somente nelas o homem pode ser conduzido a participar em primeira pessoa de um mistério e de uma beleza, de outro modo, imperceptíveis. É uma batalha para que a vida humana e o próprio homem não fiquem mais pobres e mais frágeis.

Para o Cristianismo, a cruz do sofrimento e da morte não é anulada, mas é ressignificada a partir da Ressurreição de Cristo, que conduziu a humanidade para a libertação para uma vida em Deus, em sua plenitude, a partir da qual o sofrimento adquire o seu real sentido e finalidade.

 BIBLIOGRAFIA
JOÃO PAULO II. Carta apostólica Salvifici Doloris: o sentido cristão do sofrimento humano. São Paulo: Paulinas, 2001.
O SÉTIMO SELO. Direção: Ingmar Bergman. In: http://www.youtube.com/watch?v=nzJ1I-Bj3Dg. Acesso em: 11 set. 2014.

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