› Romaria – Renato Teixeira

Por: Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Especialista em Filosofia (UFOP), graduado em Filosofia e Teologia (CEUCLAR) e em Letras com habilitação em Literatura e Língua Espanhola (UNESP)
Assessor da Pastoral Universitária e do Setor Juventude
Vigário da Catedral de São José
E-mail: hallisonparro@hotmail.com


Romaria – Renato Teixeira
 (1977)

É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló
Dessa vida cumprida a sol

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão, minha mãe, solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

Me disseram, porém, que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

Sou caipira, Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

 

A “Romaria”: genuína expressão da piedade popular

Na América Latina, a iniciação à fé cristã ocorre num ambiente marcado pela religiosidade popular, especialmente a devoção à Virgem Maria. A dimensão mariana da fé popular expressa o desejo de imitar a Mãe do Salvador, como aquela que conduz a Cristo, no qual se realiza verdadeiramente a vocação humana. Presente nas canções populares e nas diversas festas religiosas, essa fé em Maria se associa, muitas vezes, direta ou indiretamente, à valorização da família, ao sentido de solidariedade e a crença na vida eterna.

Entre as diversas formas de piedade popular, destacam-se três: a coroação da imagem de Nossa Senhora realizada no mês de maio, as peregrinações aos santuários marianos e as procissões, que estão muito presentes na nossa realidade atual.

No mês de maio, quase todas as paróquias brasileiras celebram e encenam a coroação da Virgem Maria. As crianças vestidas de anjos coroam Maria, e a proclamam rainha e mãe do céu. Essa tradição se enraizou no seio do povo brasileiro e adentrou na liturgia, servindo de um espaço muito frutuoso para uma catequese e um aprofundamento da fé das comunidades.

Já as peregrinações se tornaram um desafio nos dias atuais. Os santuários se transformaram em minis shoppings centers, onde o “romeiro” não vai somente rezar, mas também fazer compras para a família inteira. Em vez de evangelizar, se dissemina mais o consumismo e a simonia.

Algo muito característico no Brasil são as procissões. Todas as paróquias do território possuem essa prática devocional, que foi introduzida desde a colonização portuguesa. As de maior destaque são aquelas celebradas nas regiões do centro de Minas Gerais, que preservam ainda hoje a mesma forma, cânticos, vestes, imagens, etc, do período colonial.

Essa fé popular é expressão viva da inculturação do Evangelho, conforme a mentalidade de um povo que crê e simboliza a sua pertença católica por meio do crucifixo, do rosário, de uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, entre outros. A piedade popular é a base espiritual com a qual a Igreja pode levar a fé do povo ao amadurecimento. O evangelizador tem consciência da necessidade da purificação das práticas de piedade, não no sentido de eliminá-las, mas de promover o crescimento dos valores evangélicos presentes na vida do povo.

Como a canção “Romaria” (1977), de Renato Teixeira apresenta a fé do eu-lírico em Maria, em sua intercessão junto ao seu Filho Jesus, necessitamos apresentar, a priori, a concepção católica atual sobre a Mãe do Salvador. Para a nossa teologia, Cristo sempre associa a si sua amada Esposa, a Igreja. Paralelamente, concebe-se que Maria é um exemplo para a Igreja, pois ela foi a primeira associada à obra salvífica de Cristo. Logo, todas as vezes que a Igreja volta-se para Cristo, cujo mistério celebra, volta-se também para Maria, seu modelo máximo de atitudes, com o qual deve unir-se ao mistério de Cristo, assim como Maria uniu-se em sua realização.

Essa dinâmica foi muito bem compreendida e vivida pela Igreja primitiva, pois, logo cedo, os cristãos viram que, em razão de sua missão maternal, Maria não poderia estar dissociada da obra de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, sempre que se faz referência à obra salvífica do Filho, é justo que se recorde a Virgem Mãe, pois ela esteve indissoluvelmente unida a Ele.

A contribuição pessoal de Maria, querida por Deus na economia da salvação, é celebrada sempre que se celebra e se atualiza o mistério de seu Filho. Por isso, deve-se concluir que Maria é o fruto mais sublime da obra da redenção, de forma que esperamos ter a realização das promessas de Cristo, e em Maria, desde já, a Igreja a contempla como seu ícone escatológico. Entretanto, isso não nos deve fazer perder de vista o centro, que é a união de Maria com o mistério de Cristo no Espírito Santo e a sua contribuição na economia da salvação, bem como sua exemplaridade no mistério da Salvação. Maria está tão unida a Cristo como Cristo está unido à Igreja!

Se Maria está tão intimamente unida a Cristo, é obvio que ela se torna o modelo por excelência para toda Igreja. O Magistério também ensina que a Igreja terrestre faz comunhão com a Igreja celeste através da oferta de Cristo, e é na comunhão com a Virgem Maria e fazendo memória dela que a Igreja oferece o sacrifício Eucarístico. Na Eucaristia, a Igreja, com Maria, está como que, ao pé da cruz, unida à oferta e à intercessão de Cristo. (CIC, 1370).

Maria é venerada como Mãe de Deus, e sob sua proteção, os fiéis de todos os tempos se refugiam de todos seus perigos e necessidades. Contudo, este culto difere-se ao prestado a Cristo, Verbo encarnado do Pai pela ação do Espírito Santo. O culto de adoração prestado pela Igreja ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo é único. (LG, n°66).

O Magistério da Igreja, porém, ainda adverte a toda Igreja, na pessoa dos teólogos e dos pregadores da Palavra, para que se tenha bom senso quanto à reflexão sobre a Virgem Maria, para que não se exceda a falsos exageros nem se deleite em simples devocionismo vazio de argumentos teológicos, mas que, sob a direção do Magistério, bebam nas Sagradas Escrituras, nos Santos Padres e Doutores e nas liturgias das Igrejas, para retamente ilustrar os ofícios e privilégios da Bem-Aventurada Virgem Maria, que por sua vez sempre aponta a Igreja para Cristo, origem de toda verdade, santidade e piedade. (LG, n°67).

Com isso, a Igreja zela pra que a fé na Mãe de Deus não caia numa devoção estéril e de emoções passageiras, nem numa certa credulidade sem fundamentos. A fé em Maria deve proceder de uma fé verdadeira pela qual somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, provocados a um amor filial para com nossa Mãe e à imitação de suas virtudes. (LG, n°67)

Na música de Renato Teixeira, Maria é reconhecida como a Mãe de Deus, capaz de solidarizar e de se compadecer dos pobres sofredores, de um eu-lírico que carrega consigo mesmo suas dores e seus traumas existenciais. Existe uma confiança desse eu-lírico no poderoso auxílio da Virgem Mãe. Em “Romaria”, transparece, de forma evidente, o homem caipira, o retirante que sofreu com as intempéries da vida, que sai em procissão a buscar na Virgem Maria a paz para um destino dramático. A simplicidade e a intensidade da súplica do eu-lírico dessa canção ressalta o seu poder de expressar um sentimento filial à Virgem Maria. Ressalta-se a dimensão do olhar, da contemplação desse caipira em relação à Virgem e da Virgem em relação ao caipira. O jiló, o amargo da vida, é apresentado a Maria por um caipira de Pirapora, uma cidade romeira, por um homem que encontra na religião a força ou resposta das pessoas para que a sua mina escura da vida seja iluminada ao se encontrar com a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, no Santuário Nacional.

Podemos concluir que a canção de Renato Teixeira ressignifica a fé católica, a partir do contexto vivido pelo eu-lírico, sem, contudo, romper com a religiosidade popular. Por isso, essa canção se tornou representante de uma fé cristã católica inserida num tecido humano, que assume o risco da história, a precariedade e a óbvia provisoriedade das categorias de pensamento e das situações da vida. A música “Romaria” expressa uma fé cristã existencial, capaz de unir a vida à teologia e a teologia à vida, de forma a reconhecer em Maria, como aquela que caminha com o povo e não é indiferente às suas dores.

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