Artigos, Pe. Hallison Parro › 10/04/2015

Cada passo no caminho de Jesus, no Evangelho de Marcos, parece ser acompanhado por um passo dos seus discípulos. Nos últimos dois artigos, tivemos a oportunidade de estudar e de meditar sobre a experiência de Jesus no deserto (Mc 1,12-13) e o início de sua pregação sobre o Reino (Mc 1,14-15). Neste trecho, Jesus convida quatro homens (Simão, André, Tiago e João) para constituírem o grupo inicial de seus seguidores. Juntamente com Pedro, com exceção de André, os dois filhos de Zebedeu formam uma espécie de círculo íntimo entre os Doze (cf. 1,29-31; 3,16-17; 5,35-43; 9,2-13; 10,35- 45; 13,3; 14,32-42),  que estará, posteriormente, com Jesus nos momentos cruciais de sua vida como a Transfiguração e agonia no horto do Getsêmani. O que Marcos nos sugere com isso? Em primeiro lugar, a nossa participação no Reino não se faz segundo os nossos conceitos ou segundo a nossa vontade, mas com base na imagem de Deus, revelada em Jesus. É o Evangelho do Rstmark (1)eino, proclamado pelo Senhor, que desperta nos coração desses pescadores o desejo da conversão e a fé em Sua Palavra. Não existe, portanto, discipulado cristão sem a escuta e a acolhida da proposta evangélica. Marcos faz, na realidade, uma bela catequese sobre a vocação da Igreja, nascida a começar do anúncio (kerigma) de Cristo. Jesus é aquele que, sempre, toma a iniciativa de convidar os homens a ingressarem na comunidade do Reino. Esse convite é uma prerrogativa da autoridade de Jesus.

Naquela época, era comum que os discípulos dos rabinos procurassem um mestre com prestígio e se ligassem a ele (Jo 1,35-42), mas, no evangelho, é Jesus quem convoca os seus (Mt 4,18-22; Lc 5,1-11). Seguir a Jesus (Mc 1,17) pressupõe participar de seu destino, abandonar tudo (Mc 10,21.28) e estar preparado para o sofrimento e para a cruz (Mt 16,24).

Vale ressaltar que Marcos não descreve, em seu relato, os questionamentos e o processo psicológico que estavam envolvidos na decisão dos primeiros discípulos de abandonar a família e a segurança financeira. O evangelista apenas afirma que, diante da palavra de Cristo, os discípulos abandonaram imediatamente as redes (Mc 1,18.20). Com isso, ele ressalta que o chamado de Jesus é sempre categórico, exigente e radical. Jesus não explica nada, não dá garantia nenhuma e nem sequer se volta para ver se os chamados responderam ou não ao seu desafio. Em outras palavras, Jesus e seu chamado foram tão marcantes na vida desses discípulos, de tal forma que eles precisaram de pouca ou de nenhuma deliberação para assumir o compromisso proposto por Jesus para pescar homens para o Reino.

Notemos que Marcos sugere que Jesus é o verdadeiro pescador. Para pescar com eficácia, os discípulos não precisam frequentar as aulas de um mestre qualquer ou aprender uma doutrina especial. Na realidade, ser discípulo consiste em conviver com Jesus, para fazer com Ele uma experiência de vida e aprender a ser uma pessoa nova, que ama, verdadeiramente, a Deus e aos irmãos.

Também, é interessante observar que Pedro e seus companheiros não pedem garantias para seguir o Senhor. Simplesmente, abandonam tudo e o seguem. O seguimento de Jesus sempre implica sacrifício e abnegação de algo: família, pessoas, trabalho e hábitos. Se o chamado de Jesus é tão exigente, como acolhê-lo e vivê-lo no cotidiano? Marcos nos sugere que Jesus passa, vê e chama. É o olhar de Cristo sobre a nossa história, a sua passagem pela nossa vida e a força de sua graça que nos capacitam a assumir os compromissos com o projeto do Reino.

O convívio com Cristo dará a autoridade de que os discípulos necessitarão para continuar a missão do Mestre, quando Jesus voltar para o Pai. Por isso, no início da fé e da experiência cristã, não se encontra a contemplação de uma teoria ou a prática de filantropia, mas o encontro pessoal com Jesus. Quem não fez a experiência de ser seduzido por Cristo, quem não se encantou com as suas palavras, quem não se dispôs a superar o egoísmo e o comodismo pessoais, jamais falará de Cristo com autoridade, ainda que tenha estudado inúmeros tratados de teologia, exercido ministérios na comunidade ou frequentado as Missas. O discipulado não se resume a teorias, mas consiste num seguimento radical a Jesus, que implica conversão, compromisso pessoal com a Palavra de Jesus e testemunho do Evangelho no cotidiano de vida.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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