Artigos, Pe. Hallison Parro › 17/08/2015

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Entramos em uma nova parte do evangelho de Marcos (2,1-3,6), na qual os gestos de Jesus não provocarão apenas assombro e admiração das multidões, mas também repulsa e obstinação de seus adversários. Em artigos anteriores, verificamos que Jesus tem o poder de expulsar o demônio e de vencer o maligno (Mc 1,21-28.34b), bem como de restituir a dignidade das pessoas, por meio da cura de enfermidades (Mc 1, 29-34. 40-45). Esses sinais evidenciam, para a comunidade de Marcos e para os leitores de seu relato evangélico, a chegada do Reino de Deus e a confirmação do messianismo de Jesus de Nazaré.

Nesta seção, Marcos elenca alguns oponentes do Senhor como os escribas (2,6), os escribas dos fariseus (2,16), os discípulos de João Batista (2,18), os fariseus (2, 18.24) e os herodianos (3,6). Enquanto o povo acolhe a pregação de Cristo, essas pessoas, instaladas em suas certezas e seguranças teológicas, recusam Jesus e o buscam desqualificar. Dessa forma, perceberemos, ao longo de todo o evangelho, o crescimento desse conflito que culminará na crucificação de Jesus.

Em Mc 2, 1-12, o evangelista, sabiamente, escreve uma narração muito bem elaborada, ao fundir o fato da cura do paralítico a um ensinamento de Jesus sobre a remissão dos pecados. A primeira das controvérsias, portanto, combina uma cura (2,1-5a.10b-12) com um debate teológico de Jesus com os escribas (2,5b-10a). Não se trata de uma reportagem jornalística, já que a intenção do redator bíblico é oferecer-nos uma lição catequética: demonstrar que Jesus é poderoso tanto em palavras quanto em atos: seu poder para perdoar pecados é confirmado por seu poder para curar o paralítico. Segundo o Comentário Bíblico São Jerônimo, essa combinação de cura com controvérsia “tem o efeito de ligar a doença e o pecado em uma relação causal – uma relação rejeitada por Jesus em outro lugar (Lc 13,1-5; Jo 9,2-3)” (p.75).

No Antigo Testamento, isso era habitual, já que a doença e a morte eram, muitas vezes, compreendidas como consequência da ruptura com Deus (Gn 3,19; Sl 40, Ez 18,4). Para o homem bíblico, o pecado gera desarmonia na obra criadora e divisão no coração do homem, afastando-o da presença de seu Senhor e Criador. Consequentemente, o pecado é a negação da vida divina, de tal modo que o pecador morre um pouco cada vez que peca. Assim, o homem pecador sofrerá desventuras enquanto não se arrepender e suplicar por libertação (Sl 38; 51), para o restabelecimento de sua aliança com Deus. Dentro desse contexto, a saúde e a prosperidade eram um sinal de efetiva pertença ao Senhor e de obediência à sua palavra (Ex 15,26; Dt 7,15). Posteriormente, o livro de Jó questiona essa mentalidade, ao contrastar a obediência desse homem à sua situação objetiva de sofrimento.

O raciocínio dos escribas (2,7) se apoia nas passagens do Antigo Testamento (Ex 34,6-7; Is 43,25; 44,22), nas quais se afirma que Deus perdoa os pecados. Vale ressaltar que todas as pretensões messiânicas de Jesus foram consideradas blasfemas (Mt 26,65; Mc 14,64), bem como sua afirmação de que tinha o poder de perdoar pecados (Mt 9,3; Mc 2,7; Lc 5,21). Por outro lado, para o Novo Testamento, o Messias é o agente do perdão divino para os homens, pois, por meio de sua palavra e de suas atitudes, gera o arrependimento e a volta ao projeto da Aliança (Mc 1, 15).

O Filho do homem tem poder na terra para perdoar pecados (Mc 2,10), já que o Pai lhe concedeu o poder de julgar (Jo 5,27). Jesus não apenas declara a vontade de Deus como os profetas, mas a personifica. Enquanto Filho do homem, Jesus se fez solidário aos pecadores e, na condição de servo de Javé, tomou sobre si todos os pecados (Is 53,4ss). Um fato interessante a notar é que Jesus cura o paralítico somente pelo poder de sua palavra (Mc 2,11), o que confirma a autoridade de suas palavras a respeito do perdão.

Os nomes do paralítico e dos quatro ajudantes não são citados. Todos eles são anônimos e sem voz. Marcos, talvez, sugira aos seus leitores que essa experiência de cura e de perdão não se restringe a esses personagens, mas está aberta a todo aquele que tem fé. O paralítico, na realidade, é todo homem que não pode mover-se por si mesmo e que não tem liberdade de ação. E os quatro homens, todos aqueles que se propõem a levar os ‘paralíticos’ desse mundo a Jesus, o verdadeiro Salvador. No relato, Jesus valoriza a fé do paralítico e, em uma segunda possível interpretação, também a dos quatro homens. O reconhecimento de Jesus como Messias e Senhor é condição para o perdão dos pecados (Jo 3,17-18), para a superação da paralisia existencial ou da petrificação do coração.

Os escribas, sentados em sua condição de mestres (Mc 2,6), não se abrem a Jesus e, assim, não chegam à fé, que consiste em aderir ao evangelho e acolher a proposta do Reino. O que estava paralítico passa a caminhar. Assim, também acontece com todo aquele que acolhe a palavra de Cristo, pois, pela adesão a Jesus, a humanidade pecadora fica totalmente reconciliada com Deus.

O perdão de Cristo é radical e total, porque torna nova a criatura e restitui-lhe integralmente suas possibilidades. Ele é sinal da compaixão do Senhor, que retira o pecador do nada do pecado, porque “o pecado é um entregar-se nos braços do nada, do não sentido” (Raniero Cantalamessa). Por fim, Jesus concebe sua vida e sua morte como gesto supremo do perdão de Deus e como remissão dos pecados (Mt 26,28), que gera, no homem, uma vida nova e de uma nova Aliança até a comunhão definitiva com o Pai. Experimentemos essa palavra de Jesus como dirigida a nós, quando os nossos limites e pecados falarem mais alto: Levanta-te e anda!

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Catedral de São José

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

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