Artigos, Pe. Bendito Mazeti › 28/07/2017

FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR ANO A – 06 de agosto de 2017

Leituras

Daniel 7,9-10.13-14. Sua veste era branca como neve.
Salmo 96/97,1-2.5-6.9. Que se apoia na justiça e no direito.
2Pedro 1,16-19. Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu.
Mateus 17,1-9. Jesus foi transfigurado diante deles.

“O SEU ROSTO BRILHOU COMO O SOL E AS SUAS ROUPAS FICARAM BRANCAS COMO A LUZ”

Transfiguração
1- PONTO DE PARTIDA

Festa da transfiguração do Senhor. Neste domingo somos convidados a subir com Jesus à montanha para celebrarmos uma liturgia pascal e fazermos a experiência da glória. Com Jesus, estamos subindo rumo a Jerusalém, a cidade onde Ele vai sofrer muito, ser morto e ressuscitar.

Ele é o Filho querido e amado do Pai, de quem recebeu poder, glória e realeza. Na feste de hoje somos convidados a contemplar a face luminosa de Cristo e também ouvir a Sua voz e seguir Seus passos.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos bíblicos

Primeira leitura – Daniel 7,9-10.13-14. Todo o capítulo 7 encerra uma interpretação teológica da história que decorre do sexto século antes de Cristo, isto é, desde a ruina de Jerusalém em 587, até o tempo em que o autor tinha sua visão (em mais ou menos 167 antes de Cristo).

Este texto pertence ao estilo apocalíptico com uma linguagem figurada. Na seção proposta hoje pela liturgia, Daniel vê Deus que Se prepara para o Juízo (versículos 9-10). Depois, de forma inesperada e não exigida pelo contexto, vê um “filho do homem” que recebe do Senhor autoridade, poder e realeza (versículos 13-14.

A leitura de hoje tirada de Daniel é texto messiânico para judeus e cristãos. O contexto encerra anuncio solene de futuro império, eterno e universal. O capítulo 7 abre a segunda parte do livro de Daniel, notável pelas visões proféticas que, embora enquadradas na época babilônica, insinuam fatos ligados à perseguição de Antíoco Epifânico contra os judeus.

O “Ancião” sentado no trono é Deus. A “a veste branca” como a neve é o símbolo da Sua glória celeste, e os “cabelos” brancos, da Sua eternidade (versículo 9b). O “rio de fogo” é o rigor da Sua sentença; os “livros” contêm as ações dos homens (versículo 10).

A parte inesperada da visão diz respeito a “alguém semelhante a um filho de homem” que aparece “sobre” as nuvens, elemento habitual nas teofanias, e ser dirige para o “Ancião” (versículo 13). Deste recebe atributos divinos e o Reino eterno (versículo 14). Portanto, os versículos 13-14 contêm a visão do Filho do Homem, vindo sobre/com as nuvens. O profeta contempla “um ser semelhante ao Filho do Homem” que se aproxima do tribunal do Ancião, juiz eterno, sendo revestido de realeza universal. No caso de Cristo, Ele era todo-poderoso desde sempre (Mateus 28,18; 1Coríntios 15,25; Lucas 10,22).

A expressão “Filho do Homem” ocorre 116 vezes na Bíblia: em 30 lugares refere-se a Jesus, ao passo que, nos outros 86 vezes, exprime o “homem”, especialmente em Ezequiel. Significa aqui alguém que pertence à espécie humana e simboliza um novo reino, divino, que suplantará os 4 reinos, figurados pelos 4 animais, imagem do poder satânico. O título em si expressa a precariedade e pequenez humana diante de Deus (Isaias 51,12; Jó 25,6), a condição de pecador e de mortal (Salmo 14,2s); 88,48; 89,3), a dinastia de Deus.

Quem é este “filho do homem”? durante o Seu processo, Jesus responde a Caifás, citando Daniel 7,13 e o Salmo 109,1, que é Ele mesmo na Sua natureza divina, tanto quer o Sumo Sacerdote rasga as vestes e grita que Jesus blasfemou (cf. Mateus 16,64-65).

No contexto, “Filho do Homem” não é bem uma pessoa, mas uma coletividade, o reino dos santos do Altíssimo (versículo 17), porque se os 4 animais simbolizam 4 reinos, paralelamente o “Filho do Homem” deve ser uma coletividade, a comunidade cristã dos tempos messiânicos. Fora dos evangelhos, o título quase não aparece, a não ser na visão de Estevão no momento do martírio (Atos 7,55s; em Hebreus 2,5-9 e no Apocalipse (1,12-16; 14,14ss). O apóstolo Paulo talvez faz uma referencia indireta a isso, quando fala do “novo Adão”. A carta aos Hebreus vê em Jesus o “Homem”. A reflexão cristã aproxima o “filho de Adão” dos salmos como o “filho do homem” dos apocalipses e o “novo Adão” do apóstolo Paulo. Como “filho de Adão” assumiu nossa fraqueza e sofrimento; como “Filho do Homem” de origem divina e futuro juiz, por sua paixão e morte chegou à glória da ressurreição, qual “novo Adão”, pai da humanidade redimida. No juízo haverá surpresa: lá o tínhamos conhecido misteriosamente oculto em nossos irmãos necessitados (Mateus 25,31ss).

A leitura fala de um Reino que nunca de dissolverá. Um Reino no qual o Filho do Homem é dotado de poder, de majestade e de império. Ele reinará para sempre e as forças do mal, de ontem e de hoje, jamais o destruirão. A manifestação da glória do Reino do Altíssimo inaugurará uma nova era.

Em Daniel, este trecho é uma página de “teologia da História”. Na liturgia de hoje prepara a compreensão da Transfiguração do Senhor. Contemplaremos a “glória divina que brilha no rosto de Cristo” (2Coríntios 4,6).

Salmo responsorial 96/97,1-2.5-6.9.12. A expressão “Deus é Rei!” abre este salmo e o caracteriza como salmo da realeza do Senhor. Tudo o que vem em seguida é uma explicação dessa expressão.

Este salmo é um hino de louvor e de ação de graças a Javé, Rei e juiz de toda a terra. Nas primeiras duas estrofes, o salmista apresenta a grandiosa aparição divina e convida ao louvor as pessoas e a Criação (versículos 1-6). Na terceira celebra o próprio Deus na Sua excelsa dignidade e soberania (versículo 9).

O rosto de Deus. “Deus é Rei!” O Antigo Testamento resumia a função do rei numa palavra: justiça. O salmo diz que ela é a base do trono, isto é, do governo de Deus. O rei de Israel devia fazer justiça em dois níveis, internacional e nacional, externo e interno. Em nível internacional, devia ir à guerra para defender o povo das agressões externas. O salmo mostra uma aparição de Deus Rei, cujas bases do governo são a Justiça e o Direito.

No Novo Testamento, Jesus encerra esse ideal de justiça que faz acontecer o Reinado de Deus. Essa chave de leitura é bem visível principalmente em Mateus (veja o que foi dito, nesse sentido, em outros salmos da realeza do Senhor).

DEUS É REI, É O ALTÍSSIMO, MUITO ACIMA DO UNIVERSO.

Segunda leitura – 2Pedro 1,16 -19. A voz da nuvem. Testemunho de Pedro a respeito da Transfiguração, para dar força à sua pregação sobre a volta gloriosa do Senhor Jesus. Mostra o cumprimento das Escrituras 1,17 cf. Mateus 17,5.

O autor da segunda Carta de Pedro começa por revelar a realidade da vocação cristã e a dignidade de batizados, enquanto “participantes da natureza divina” (2Pedro 1,4). É necessário, porém, que eles tornem “cada vez mais segura a sua vocação e a sua eleição” (cf. 1,10). “Vós depois bem sabeis que o meu ensinamento apoia-se na experiência direta de Cristo”, que no “monte santo” “recebeu de Deus Pai honra e glória”, afirma o autor (versículos 17-18).

A mensagem sobre Jesus que Pedro (o autor serve-se deste pseudônimo) comunica aos leitores, e que os conduziu à fé cristã, não é um conjunto de mitos pagãos, adornados e com nova roupagem (versículo 16), mas sim o fruto da experiência direta da personalidade de Cristo. Como confirmação, recorda o episódio da Transfiguração. Esse acontecimento teve testemunhas oculares e auriculares, no que diz respeito quer à “grandeza” de Jesus (versículo 16b), quer à voz “majestosa” de Deus Pai, que O apresentou como o seu “Filho muito amado” (versículo 17): voz que foi “ouvida” por todos os que estavam “no monte” e que eles depois transmitiram aos outros (versículo 18). Neste ponto Pedro acrescenta um outro elemento: a “palavra dos profetas”, que nos ilumina no presente e até quando chegar a luz definitiva com o regresso glorioso de Cristo (versículo 19). Assim, Pedro dirige-nos uma mensagem realmente atual: a fé apoia-se em acontecimentos divinos e na Palavra divina. A nós cabe a tarefa de acolher essa mensagem com a oração, com a meditação e com o anúncio.

Evangelho – Mateus 17,1-9. Após o primeiro anúncio da paixão e o convite a arriscar a vida pelo Evangelho (Mateus 16,21-28), Jesus levou Pedro, Tiago e João, seus discípulos mais íntimos, a uma alta montanha. O rosto transfigurado de Jesus resplandece como o sol e revela que a glória vem do Pai e do caminho trilhado no serviço, sofrimento e entrega da vida. É como uma antecipação, na vida de Jesus, da glória dos justos ressuscitados no Reino do Pai (Mateus 13,43).

O evangelista Mateus dedica-se, principalmente, a mostrar Jesus como o “novo Moisés”, legislador da nova economia da salvação. Assim espera convencer os judeus-cristãos de que a Lei é ultrapassada com a pessoa de Jesus Cristo e sua “Nova Lei”. Por isso, ao contrário de Marcos 9,4, Mateus cita Moisés antes de Elias (versículo 3). Ele é também o único evangelista que fala do brilho da face de Cristo (versículo 2) em réplica ao brilho da figura de Moisés no monte Sinai (Êxodo 34,29-35; 2Coríntios 3,7-11). Da mesma forma, a voz que fala na nuvem (versículo 5) corresponde à que se manifestou na nuvem do Sinai (Êxodo 19,16-24). A determinação “escutai-o” (versículo 5) traz presente o anúncio feito a Moisés de uma futura réplica de si mesmo “que vós escutareis” (Deuteronômio 18,15). Além do mais, ao contrário de Lucas e Marcos, que citam somente o Salmo 2, eis o meu Filho, Mateus acrescenta algumas palavras tomadas tiradas de Isaias 42,1: “no qual eu pus todo o meu agrado” (versículo 5), referencia ao Servo que é “luz das nações”, por cumprir a vontade de Deus. Enfim, o fato de a transfiguração situar-se no término dos “seis dias” (versículo 1).

Neste momento Ele tem uma entrevista com Moisés e Elias os representantes de todo o Primeiro Testamento. Moisés representa a Lei (Pentateuco) e Elias representa os Profetas. Significa que todo o Primeiro Testamento nas pessoas de Moisés e Elias testemunha Jesus Cristo, isto é, aprova a sua missão. Eles falam com Jesus do “êxodo”, que há de cumprir em Jerusalém. Esse “êxodo” é a passagem para a sua glorificação.

Esses dois personagens da história da salvação, já estão na glória, dão testemunho de Jesus. Podemos chamar Moisés e Elias de “testemunhas celestes”. A Lei e os Profetas, isto é, as Escrituras, testemunham que, por sua morte, Jesus irá realizar o definitivo “êxodo”. Sua entrega na cruz em Jerusalém será o cumprimento do seu programa libertador (Lucas 4,18-20).

Não que os mortos aparecem para comunicar mensagem. Moisés e Elias simbolizam a Lei e os Profetas que naquele momento testemunham Jesus Cristo, isto é, todo o Primeiro Testamento se cumpre em Jesus e também aprova a sua missão. É bem visível que com o Testemunho da Lei e dos profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela paixão e cruz, chegará à glória da ressurreição.

Jesus escolheu e separou para acompanhá-lo, nesta cena, três discípulos: Pedro, João e Tiago maior os quais aparecem mais vezes como testemunhas de confiança dos mistérios de Jesus. Jesus escolheu por testemunhas da Transfiguração aqueles que estariam presentes na sua agonia: Pedro, Tiago e João (2Pedro 1,16ss; Marcos 14,33). Deus não apenas se faz presente e fala no meio da nuvem e do fogo (Deuteronômio 5,2-5), como ainda aparece, diante de Moisés e Elias, aos discípulos, transfigurado pela glória de Deus, o que lhes provocará assombro – temor religioso frente o divino (cf. Lucas 1,29s) – e a reflexão de Pedro que exprime seu júbilo pela glorificação daquele cuja messianidade acabara de proclamar.

Pedro, Tiago e João estão num profundo sono quando a cena aconteceu. Eles serão as “testemunhas terrestres” na hora exata, porque as “testemunhas celestes” se afastam, cedendo o lugar para o testemunho deles. Apesar de estarem dormindo, ainda viram a glória de Jesus. O testemunho das Sagradas Escrituras, das testemunhas celestes, atinge agora o seu ponto alto. Como o Filho se revelará fiel ao Pai, seus discípulos são agora chamados a serem fiéis a Jesus como suas testemunhas: “Escutai o que ele diz!”.
Devido a esta sua condição, “o esplendor da divindade penetra e transfigura a sua humanidade” que transparece na glória do Filho amado do Pai e preanuncia a exaltação final. Aqui, a teologia da cruz aparece unida ao kerigma da ressurreição, e aparece claro o núcleo da cristologia primitiva: “fusão da divindade com a humanidade de Cristo”, Messias e Filho de Deus. Jesus chegará à glória da ressurreição, mas não sem ter passado antes pela prova suprema da sua “paixão e morte”. As leituras recordam o dom de Deus no Filho Jesus para a Nova Aliança. É nesta luz que deve ser entendido o relato evangélico da transfiguração “este é o meu filho predileto”, aquele que é dado e se oferece para a Aliança. Este Jesus transfigurado é quem foi oferecido pelo Pai aos homens e mulheres para restabelecer a Aliança. Uma característica importante é que Elias e Moisés não aparecem aos discípulos, mas a Jesus. A atenção se concentra em Jesus porque Elias e Moisés desaparecem ficando somente Jesus. O êxodo de que fala o Evangelho significa a morte de Jesus. Aí ensina-se que para os justos a morte é um “êxodo”, uma passagem da terra para Deus, e não uma eliminação da companhia dos viventes.

3. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) narram a cena da transfiguração de Jesus depois das tentações. A transfiguração de Jesus é um aperitivo do mundo novo que virá. Não podemos, porém, ficar aí parados, acomodados em tendas. É preciso descer do monte e enfrentar os conflitos do dia-a-dia da nossa vida. Na celebração de hoje entendemos que o começo da fé é escutar Jesus, o Filho amado do Pai, como nos diz a voz saída da nuvem da transfiguração. Cristo é a Palavra pessoal do Pai; e onde melhor se houve é na solidão e no vazio interior. Por isso, devemos “subir à montanha”, com Jesus, para orar e depois descer e enfrentar a realidade de um “Planeta Terra desfigurado” pelos desmandos do ser humano.

Viver é ser chamado por Deus e entregar-se à sua Palavra. Abraão é o exemplo disso. Ouvindo o chamado, ele deixa toda segurança e confia cegamente na promessa de Deus. Jesus, por sua vez, representa o máximo desta atitude. Antes de iniciar seu caminho rumo a Jerusalém, Ele encontra Deus na oração, no alto da montanha. Lá, Deus o confirma na sua vocação. E dá aos discípulos uma garantia, uma segurança, de que não precisam ter medo de segui-Lo: mostra-lhes Jesus transfigurado pela glória e proclama que este seu Filho é portador de todo o seu agrado, de seu projeto.

A prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, a fim de arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o Evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação para caminhar atrás Dele – até a glória, passando pela cruz. Assim como Abraão escutou a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometera, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.

Isso é impossível sem renúncia (para usar um termo que caiu da moda). Renúncia não é algo negativo, mas positivo: é a liberdade que nos permite escolher um bem maior. Isto vale para ricos e pobres. De fato, o povo explorado deve descobrir a renúncia libertadora. Não provação, mas renúncia. O povo precisa renunciar ao medo, ao individualismo e a outros vícios que aprende dos poderosos. Então aprenderá a assumir sua vocação. E os ricos e poderosos, se quiserem ser discípulos de Jesus Cristo, terão de considerar aquilo que possuem como um meio, não para dominar, mas para servir mais, colocando-se à disposição de uma sociedade mais justa e fraterna.

Ser cidadão do céu não é desligar-se da terra e sonhar com os anjos pulando em cima do altar. É viver aqui mesmo de tal forma que, honrando o nome do Senhor, promovamos sua vontade, na justiça, na fraternidade e numa economia voltada para a vida do povo. “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”, rezamos diariamente no Pai- Nosso.

A fé exigida das testemunhas da transfiguração leva hoje a Igreja a não fugir das necessárias encarnações na realidade e do despojamento que essas mesmas encarnações acarretam consigo, a fim de não procurar um Reino de poder que se separe da morte. A Igreja também é alertada a não desejar encarnação sem transfigurar a realidade. Ela só é chamada a estar presente nas estruturas da sociedade para transformá-las. A Igreja só é chamada a transformar a sociedade aceitando morrer a todo conforto e a toda auto-segurança.

Já no século VI, encontramos em Ravena a representação de uma cruz cercada por Moisés e Elias. E hoje, de Norte a Sul, em nosso país se venera o Cristo coroado de espinhos e com as chagas cobertas por um manto. O que significa esta festa para nós hoje?
Ver na transfiguração do Senhor a imagem da nossa futura transfiguração, pois esperamos o Salvador que transformará nosso corpo mortal à semelhança de seu corpo glorioso. Devemos trabalhar constantemente visando à nossa transfiguração, pela prática da justiça, do amor e também pela prática da vida interior e espiritual.
Que a festa de hoje nos leve a ouvir e praticar a Palavra de Deus com mais seriedade.

4- A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO

A Cruz gloriosa

Segundo o Rito Romano, as procissões de entrada em nossas celebrações eucarísticas são presididas pela Cruz. Essa Cruz, segundo a tradição, é a Cruz gloriosa, que manifesta tanto a morte quanto a ressurreição redentoras de Jesus. O costume no início do Cristianismo, era representar o Cristo vivo sobre a mesma, somente mais tarde as cruzes começaram a ostentar o Cristo morto, conforme conhecemos contemporaneamente. Muito antiga também era a Cruz gemada, que recorda as marcas da paixão-ressurreição, do abaixamento e humilhação total de Cristo, nos quais residem toda a sua exaltação e dignidade.

O amor traz consigo a exigência da Cruz, do altruísmo, de um progressivo desapego. A Transfiguração é a profunda liberdade e alegria que resulta deste caminho do desapego para entrar no seguimento de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

A escuta da Palavra

Celebrando o Mistério Pascal de Cristo Jesus na Festa da Transfiguração do Senhor, escutemos de coração a Sua Palavra, deixemos que ela nos ilumine para que sejamos luz para os irmãos e irmãs, que o sacramento do Seu Corpo nos revigore e nos santifique: “Fazei-nos dignos, ó Senhor nosso Deus, de que o nosso corpo se santifique pelo Vosso Corpo Santo…” (Liturgia do Rito Maronita).

Temos motivos de sobra para louvar e agradecer nosso Deus, pois a transfiguração de Cristo nos aponta para a glória da ressurreição, que significa desmascaramento de todo “aparente” poder da violência que crucifica o ser humano.

5. ORIENTAÇÕES GERAIS

1. Convém fazer bem feito a proclamação da Palavra de Deus (leituras, canto do salmo, evangelho). Proclamar de tal maneira que a assembléia sinta que é realmente Deus quem está falando para o seu povo. Para que isso aconteça, fazer previamente um bom ensaio e, mais que isso, uma verdadeira vivência da Palavra de Deus com os(as) leitores e o(a) cantor(a) do salmo responsorial. A Palavra merece, e a assembléia agradece.

3. Ao final da leitura, nunca dizer “Palavras do Senhor” ou “Palavras da salvação” (no plural), pois não são “palavras” que são proclamadas e sim “a Palavra (Deus mesmo, Cristo que fala ao povo reunido em assembleia). É Palavra de uma única pessoa, Deus.

4. À preparação espiritual se alia a preparação corporal: postura do corpo, tom de voz, semblante, a maneira de aproximar-se da mesa da Palavra, as vestes dos ministros…

6. MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos “cantar a liturgia” e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com “cada domingo da Quaresma”, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são da Festa da Transfiguração do Senhor, “é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado”. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

1 Canto de abertura. “O Filho, a voz do Pai, o Espírito na nuvem” (Mateus 17,5. Como canto de abertura, sugerimos o canto: “Vimos aqui, meu Senhor, pra cantar”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 1.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII.

2. Ato penitencial. Cantar o Ato penitencial que está no CD: Partes Fixas da Missa, melodia da faixa 1.

3- Refrão para motivar a Liturgia da Palavra. “A vossa Palavra, Senhor, é sinal de interesse por nós.”

4- Salmo responsorial 96/97. O Senhor é Rei. “Deus é Rei, o Altíssimo, muito acima do universo”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 2.

5- Aclamação ao Santo Evangelho. Este é meu Filho muito amado. “Eis meu Filho muito amado, nele está meu benquerer, escutai-o, todos vós” (Mateus 17,5b). CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 3.
6. Refrão após a homilia. Muito oportuno cantar após o silêncio que segue a homilia este refrão: “Então da nuvem luminosa dizia uma voz: ‘Este é meu Filho amado”, CD: Festas Litúrgicas IV, faixa melodia da faixa 5.

7. Apresentação dos dons: O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração na Festa da Transfiguração do Senhor. Podemos entoar: “Bendito seja Deus Pai, do universo Criador”, CD: Festas Litúrgicas IV melodia da faixa 5.

8. Canto de comunhão: “Quando Cristo aparecer seremos semelhantes a ele”; (1João 3,2).

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho. Como bons discípulos no Domingo da Transfiguração do Senhor, devemos escutar a voz do Pai, já que esse é o seu maior desejo. Devemos também deixar que a nuvem luminosa nos cubra com sua sombra. E, fazendo memória do que ouvimos no Evangelho, como eco e cumprimento do Evangelho podemos cantar: “Então da nuvem luminosa dizia uma voz: ‘Este é meu Filho amado”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 5 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, pág. 31.

O Missal Romano oferece a seguinte explicação: “… entoa-se o cântico de comunhão, que deve exprimir, através da unidade das vozes, a união espiritual dos comungantes, manifestar a alegria do coração e dar um sentido mais fraterno à procissão daqueles que vão receber o Corpo de Cristo. O cântico inicia-se no momento da comunhão do sacerdote e prolonga-se o tempo que for oportuno, enquanto os fiéis comungam o Corpo de Cristo” (IGMR, 74). O Missal oferece muita flexibilidade na organização da comunhão, não diz que se deve cansar a assembleia com muitos cantos. Também não tem sentido depois que os fiéis comungarem, continuar executando o canto até a última estrofe cansando a assembleia. Este canto não é um rito em si, como o Glória, o Salmo responsorial, o Santo, mas acompanha uma ação ritual, isto é, um canto de movimento. É uma regra de bom senso.

7- O ESPAÇO DA CELEBRAÇÃO

1. Destacar no espaço da celebração os símbolos da Cruz e da luz. Colocar em volta da mesa da Palavra uma vela grande acesa ou várias velas acesas lembrando o brilho da transfiguração e o brilho da Palavra de Deus e um ícone da Transfiguração do Senhor ajudam a manifestar o mistério celebrado.

8. AÇÃO RITUAL

A celebração deste domingo nos recorda como homens e mulheres que nasceram no Batismo para ser “luzeiros“ de Deus no mundo, guiando os dias e iluminando as noites.

Ritos Iniciais

1. Motivar para que a procissão de entrada na igreja seja sinal de nosso encontro com o Senhor para cantar a Sua bondade. Vamos fazer com Jesus uma parada na igreja para orar. Nossa igreja vai ser hoje o monte Tabor.

2. Como saudação presidencial sugerimos a de 2Tessalonicenses 3,5 (opção c):

O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco.

3. Após a saudação presidencial, as comunidades que já deixaram de fazer comentário antes do canto de abertura, porque entenderam o rito da Igreja e a primazia da saudação (Palavra de Deus que nos convoca). O Missal deixa claro que o sentido litúrgico da celebração pode ser feito pelo presidente, pelo diácono um leigo/a devidamente preparado (Missal Romano página 390). Em seguida propõe o sentido litúrgico:

Domingo da transfiguração do Senhor. Na celebração de hoje, subimos a montanha junto com Jesus e três dos seus discípulos Pedro, Tiago e João, para fazermos a experiência da intimidade com Jesus e recebermos a visão de sua glória e o mandamento de escutar sua Palavra. Hoje o Divino Mestre nos manifesta o esplendor de Sua vida divina.

4. O Ato Penitencial poderia ser celebrado como preparação à escuta da Palavra. Quem preside convida a assembleia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus.

O Senhor Jesus transfigurado que nos convida à mesa da Palavra e da Eucaristia, nos chama à conversão.

5. Sugerimos para o Ato Penitencial do CD: Partes Fixas da Missa, melodia da faixa 1.

6. Na Oração do Dia suplicamos ao Pai, que estejamos atentos à Palavra do Filho amado e compartilhar da Sua glória na condição de filhos adotivos pelo Batismo.

Rito da Palavra

1. Valorize-se a Liturgia da Palavra com a escolha de bons leitores, para que as leituras sejam bem ouvidas por todos.

2. Antes da primeira leitura, todos entoam suavemente sem instrumentos musicais: “A vossa Palavra Senhor, é sinal de interesse por nós”.

3. Cuidar para que o “Creio” não se torne apenas a recitação decorada, mas a renovação da fé e da adesão ao projeto de Deus que a comunidade, sustentada pela Palavra que ouvimos do “Filho amado”, como o Pai hoje nos propõe, ajudará a criar uma atitude de adesão mais consciente à Profissão de Fé, e a todo o rito eucarístico. Lembrando que a fé da comunidade nasce da Palavra de Deus.

Rito da Eucaristia

1. Na Oração sobre as Oferendas, peçamos a Deus que as oferendas que trazemos ao Altar nos purifique no esplendor de Cristo.

2. Usar o Prefácio próprio da Festa de hoje. No Prefácio, contemplamos Jesus Cristo perante testemunhas escolhidas manifestou a Sua glória. E como cabeça da Igreja manifestou o esplendor que refulgiria em todos os cristãos. Usando este prefácio, o presidente deve escolher a I, II ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não admitem um prefácio diferente e também não podem ter os prefácios substituídos porque causaria grave prejuízo para a unidade teológica e literária da eucologia.

3. É muito oportuno usar a fórmula “b” do Missal Romano, João 8,12 para o convite à comunhão:

Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.

4. Insistimos na importância da comunhão nas espécies do Corpo e Sangue do Senhor, mandato de Jesus para nós, caminhantes na fé. A comunhão nas duas espécies reafirma e anima, ainda mais, a nossa participação no Mistério Pascal de Cristo, para a qual fomos chamados, por meio de sua entrega de amor na cruz. É oportuno que a comunhão seja feita sob as duas espécies para toda a assembleia, conforme IGMR, n. 240.

Ritos Finais

1. Não esquecer após a comunhão, reservar um tempo para a assembléia fazer um profundo “silêncio contemplativo” do encontro havido com Deus. Seria bom que até se fizesse uma breve motivação para esse momento de silêncio orante, previsto pelo Missal Romano, nº 121, página 57.

2. Lembramos que, em si, não há necessidade de um “canto de ação de graças” após a comunhão (como virou costume em muitas comunidades), pois a ação de graças, na verdade, já aconteceu; foi a Oração Eucarística. O Missal Romano orienta que depois da comunhão “guardar durante algum tempo um sagrado silêncio…”. Depois do silêncio contemplativo, “entoar um canto de louvor ou um salmo” (IGMR, nº 121). Lembramos também que durante a Quaresma omite-se este canto, e conserva-se o sagrado silêncio.

3. Na Oração depois da Comunhão, suplicamos a Deus que o alimento celeste por nós recebido nos transforme na imagem de Cristo.

4. Nos Ritos Finais, seria interessante dar a bênção à comunidade com o Livro dos Evangelhos (Evangeliário), conforme venerável tradição, antes reservada ao Papa e agora aberta aos bispos e presbíteros. Apresentamos a seguir a sugestão de bênção solene, inspirada nos oracional e liturgia da Palavra deste domingo:

– Deus que revelou no monte a glória de seu Filho amado, vos ilumine. Amém!

– Cristo, cuja Palavra vos foi anunciada, vos permita assumir a Cruz para celebrar a ressurreição que ela manifesta. Amém!

– O Espírito vos dirija o caminhar, para que o fulgor do Crucificado dê sentido à vossa vida. Amém!

– Abençoe-vos Deus todo poderoso Pai e Filho + (com o Evangeliário) e Espírito Santo. Amém.

5. As palavras do envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: Levantai-vos e não tenhais medo. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

9- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ter fé não significa apenas crer num determinado número de verdades, ou sentir-se membro de uma Igreja, mas significa relacionar-se com Deus no agora da vida. É isto que as leituras de hoje nos mostram. Existe a descoberta de um Deus atual que interroga e que não abandona. Um Deus que se aproxima e nos toca e nos convida a levantar sem medo (Mateus 17,7). Para nós cristãos, o anúncio do sofrimento não deve esmorecer a fé. Fato concreto para as comunidades cristãs é a certeza de que a esperança nunca decepciona (Romanos 5,5). E que o anúncio do sofrimento é sempre seguido do anúncio da glória.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos
Pe. Benedito Mazeti

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