Cnbb › 24/08/2016

Hospitalidade, coração da evangelização

 

Nos últimos tempos, o conceito prático de evangelização tem se confundido com uma ação apologética, muitas vezes agressiva. Basta caminhar pelas praças dos grandes centros urbanos ou fazer uso do transporte público para que se perceba essa realidade. Pessoas se sentem impelidas a pregar nesses ambientes públicos, motivadas pela missão que intuem possuir, de anunciar a Jesus como único e verdadeiro salvador. Essa prática, no entanto, ainda que muito bem-intencionada, geralmente vem acompanhada de um tom apocalíptico e moralista que mais causam repulsa que encantamento, quando não é precedida ou acompanhada por gestos agressivos.

Evangelizar significa anunciar uma Boa-Notícia. Em Jesus encontramos o paradigma de uma atitude permanente de evangelização: em seus gestos e palavras podemos perceber a realização do Reino na vida das pessoas com as quais encontra pelo caminho. Dessa maneira, Jesus inaugura um novo modo de anúncio de que seu Pai deseja fazer comunhão com todos, sobretudo com os empobrecidos do mundo, que têm a predileção de Deus. Essa atitude de Jesus deve, constantemente, inspirar-nos em nossa missão, de continuadores de seu ministério.

A hospitalidade é uma das maneiras mais tocantes de realizar essa missão evangelizadora. Ser hospitaleiro significa ser casa para o outro. Os discípulos de Jesus só compreenderam bem a proposta trazida pelo Mestre depois da Ressurreição. Antes, as coisas não estavam plenamente claras a respeito desse que era o Filho de Deus. Eles faziam experiência, no entanto, dos grandes encontros que as pessoas tinham com Jesus e isso foi, para seus seguidores, de uma profundidade sem limites. Dessa maneira, uma das coisas que eles assimilaram e que marcou o cristianismo nascente – certamente também por herança judaica – foi a hospitalidade como dom para o outro. É o que podemos perceber na narrativa de Lucas, a respeito da experiência dos discípulos de Emaús com Jesus Ressuscitado (cf. Lc 24,13-35).

O Evangelista Lucas é o que melhor demonstra esse aspecto fundamental da vida cristã, a hospitalidade. Para ele, a hospitalidade é uma profunda manifestação de amor, imperativo único da vida cristã. No capítulo sete, ele dedica um longo espaço para tratar da temática. Na narrativa, Jesus é convidado por um fariseu – cumpridor diligente da Lei, a qual inspira a hospitalidade –, mas ele não dispensa a Jesus o cuidado costumeiro para com o convidado. Uma mulher, no entanto, reconhecidamente pecadora, entrou na casa, postou-se atrás de Jesus, lavou-lhe os pés com suas lágrimas e as secou com seus cabelos; depois, ungiu os pés de Jesus. O fariseu, incomodado com a presença da mulher, demonstrou mais incômodo ainda pelo fato de Jesus não ter repelido a mulher, ao que o Mestre disse:

“Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, lavou meus pés com lágrimas e os enxugou com os cabelos. Não me beijaste; ela, porém, desde que cheguei não parou de beijar meus pés. Não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume. Por isso te digo: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, pois ela mostrou muito amor. Aquele, porém, a quem menos se perdoa, ama menos” (Lc, 7,44-47).

Tudo isso ajudou os primeiros seguidores a perceberem o significado da vida de Jesus para o mundo, mesmo que a clareza disso só tenha se dado após fazerem a experiência com a Ressurreição do Mestre. Quanto a nós, seus discípulos e discípulas de hoje, precisamos deixar que nos inspiremos a agir segundo gestos de hospitalidade, para que o verdadeiro anúncio do Reino aconteça. Mesmo que tenhamos outros métodos evangelizadores, a hospitalidade precisa ser assumida como a identidade da vida cristã, pois ela é acontecimento de salvação, como realização do verdadeiro e profundo amor. Felizmente, há muitas pessoas assim! Aprendamos com elas.

* Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.

Fonte: Portal Dom Total

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