Notícias Diocesanas › 21/08/2015

Ideologia do Gênero e a família cristã

Em vários debates nos meios acadêmicos e culturais, escutamos palavras como “gênero”, “heteronormatividade”, “opressão feminina”, entre outros.  Muitas vezes, os católicos, sem um conhecimento profundo dos princípios da fé e dos objetivos dos defensores da ideologia de gênero, consideram esse discurso como uma realidade totalmente compatível com o cristianismo. Não é o que pensa a Igreja!

A maioria dos movimentos sociais que advogam pelos ‘direitos sexuais’ dos indivíduos surgiu com a Revolução Estudantil de 1968. Nessa época, os estudantes lutavam contra a família patriarcal, o fim da repressão da mulher e a livre expressão do prazer sexual, possibilitada pela descoberta da pílula anticoncepcional. No esteio dessas reinvindicações,  as principais defensoras da ideologia do gênero como Kate Millet e Shulamith Firestone argumentaram a favor do fim das distinções sexuais, como pressuposto para uma sociedade mais igualitária. Influenciados por Herbert Marcurse e por pensadores estruturalistas franceses, esses discursos culpavam a moral burguesa pelas injustiças no campo da sexualidade e a relacionavam com a visão cristã sobre a família.  Por isso, seria fundamental desconstruir os valores e as imagens tradicionais sobre os relacionamentos humanos, para possibilitar a inclusão social de homossexuais, bissexuais e transexuais.

A Igreja, portadora do depósito da fé, é chamada a dirigir o Evangelho a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não existe misericórdia sem obediência à verdade da Palavra. Lutar pela família nascida do encontro entre um homem e uma mulher não é ser homofóbico, pois, à luz da razão natural e da fé, a Igreja tem consciência de que a ideologia do gênero erra ao separar a dimensão social da sexualidade dos elementos psíquicos e biológicos da personalidade humana.

O texto do Padre João Bechara Ventura publicado no Jornal O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, no último mês de julho, sintetiza todos os pressupostos dessas correntes teóricas. Vale a pena conferir!

Pe. Hallison Parro

Tudo o que você precisa saber sobre

A Ideologia de Gênero

1- O QUE É A “IDEOLOGIA DE GÊNERO”?

É a idéia de que ninguém nasce homem ou mulher, mas deve formar a sua própria identidade sexual. Diferente do “sexo” masculino ou feminino, que já é definido desde o nascimento, o “gênero” seria algo a ser definido por cada indivíduo: cada um seria livre para ser “transgênero”, “cisgênero”, “gay”, “lésbica”, “neutro”, etc.

2 – ENTÃO NÃO IMPORTARIAM AS DIFERENÇAS FÍSICAS, PSICOLÓGICAS E ESPIRITUAIS ENTRE OS SEXOS?

Para a ideologia de gênero, esses dados não são relevantes. O importante é a “identidade de gênero” que cada um escolhe para si mesmo: tendo nascido homem, alguém poderia se considerar do “gênero feminino”. Além disso, cada um deveria escolher a sua própria “orientação sexual”, isto é, se gosta de relacionar-se sexualmente com homens, mulheres ou ambos.

3 – A IDEOLOGIA DE GÊNERO LEVA EM CONTA ALGUMA LEI MORAL OU RELIGIOSA?

Não. Cada um seria livre para escolher arbitrariamente a sua “identidade de gênero” e a sua “orientação sexual”, independentemente da Lei de Deus, ou de quaisquer valores morais ou religiosos. O único critério seria a vontade do indivíduo e a busca de prazer sem regras.

4 – COMO SE EXPLICARIA QUE A MAIOR PARTE DAS PESSOAS SEJAM HETEROSSEXUAIS?

Segundo os adeptos da ideologia de gênero, a maior parte das pessoas é heterossexual devido a uma “imposição” da sociedade (eles chamam isso de “heteronormatividade”), Dizem que, como as crianças são desde cedo acostumadas a desempenhar “papéis” e comportamentos de meninos e de meninas (por exemplo, meninos brincam de bola, vestem-se de calça e usam cabelo curto; meninas brincam de boneca, utilizam saia e cabelo comprido), acabam sendo constrangidas a assumir a “identidade de gênero” correspondente ao seu sexo biológico, masculino ou feminino. Mas isto, segundo defendem, deveria mudar.

GIRL

5 – POR QUE TENTAM INSERIR A IDEOLOGIA DE GÊNERO NO PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO?

Os defensores do “gênero” insistem tanto em se “discutir gênero nas escolas” por dois motivos principais:

1 – Porque, para definir o seu próprio “gênero”, as crianças deveriam ser introduzidas desde cedo nos mais variados aprendizados e experiências sexuais, livres de regras morais e expostas a uma “educação sexual” que os encoraje à masturbação, às relações sexuais precoces e à homossexualidade.

2 – Porque, para isso, a escola deveria substituir os pais na educação sexual e moral das crianças, uma vez que, em sua maioria, os pais ensinam a heterossexualidade e não aceitam facilmente comportamentos como a transexualidade,a masturbação, as orgias e as relações homossexuais.

Os defensores do “gênero” veem a introdução dessa ideologia na escola como algo essencial, para se superar o “conservadorismo” das famílias!

6- NA PRÁTICA, COMO ACONTECE A IDEOLOGIA DE GÊNERO NAS ESCOLAS?

A ideologia de gênero manifesta-se nas escolas, por exemplo:

– Retirando-se toda separação entre meninos e meninas na educação física, nos banheiros e nos vestiários.
– Obrigando-se os meninos a brincar de bonecas ou casinha, e as meninas a brincar de futebol ou carrinhos, alegando-se que deste modo “eliminam-se as diferenças”, ou dizendo que cada um “pode ser o que quiser”.
– Substituindo-se o Dia dos Pais e o Dia das Mães por “Dia do Cuidador” ou “Dia da Família”.
– Ensinando-se às crianças em aulas, materiais didáticos ou “debates”, que cada um pode viver a sexualidade como achar melhor, equiparando heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade e transexualidade, como se fossem todos comportamentos equivalentes e normais.
– Dizendo que o Casamento entre homem e mulher seria apenas a “família tradicional”, mas que hoje em dia há muitas formas de famílias; e chamando de “conservador”, “fundamentalista” e “homofóbico” quem pense diferente.
– Oferecendo a crianças desde cedo uma “educação sexual” que não leva em conta valores morais, apresentando como única regra o pretenso “direito” de cada um ter prazer como quiser.

7 – COMO A IDEOLOGIA DE GÊNERO É INTRODUZIDA NAS LEIS E NAS ESCOLAS?

A ideologia de gênero é colocada nas leis e projetos pedagógicos deBOY maneira escondida, para que as pessoas não se choquem. Em geral, aparece por meio de expressões como: “debate de gênero”, “identidade de gênero”, “igualdade de gênero”, “diversidade”, “orientação sexual”, “heteronormatividade”, “empoderamento das mulheres”, etc.

8 – COMO AS PESSOAS ACEITAM A IDEOLOGIA DE GENERO, SE ELA É TÃO RUIM?

Para dar uma aparência de bondade a essa ideologia, os seus defensores a justificam e disfarçam como algo inofensivo, alegando que ela visa “acabar com o machismo”, “prevenir a discriminação”, “pôr fim à homofobia”. Em geral, acusam as pessoas que não a aceitam de ser “intolerantes”, “fundamentalístas”, “conservadores” ou “homofóbicos”.

O que a Igreja tem dito sobre a Ideologia de Gênero?

Papa Francisco

“Há as colonizações ideológicas das famílias (…) [há] o erro na mente humana que é a teoria do gênero, que cria muita confusão. Assim a família está sob ataque.” (Encontro com Jovens em Nápoles, 21 de Março de 2015)
“Pergunto-me se a chamada teoria do gênero não é também expressão de uma frustração e resignação, que visa cancelar a diferença sexual porque já não sabe confrontar-se com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução.” (Audiência Geral de 15 de abril de 2015)
“É necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente (…)não é salutar um comportamento que pretenda «cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela»” (Encíclica Laudato Si’, n.155)

Papa Bento XVI

“Salta aos olhos a profunda falsidade da teoria do gênero e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o facto de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria (…) Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação.” (Discurso à Cúria Romana, 21 de dezembro de 2012)

CNBB

“A ideologia de gênero desconstrói o conceito de família, que tem seu fundamento na união estável entre homem e mulher. A introdução dessa ideologia na prática pedagógica das escolas trará consequências desastrosas para a vida das crianças e das famílias. O mais grave é que se quer introduzir esta proposta de forma silenciosa nos Planos Municipais de Educação.” (Nota sobre a Inclusão da Ideologia de Gênero nos planos de Educação, 2015)

PRINCIPAIS IDEÓLOGOS DO GÊNERO

Kate Millet
Em seu livro Política Sexual (1970), afirmou que a verdadeira evolução que mudaria o mundo seria a “revolução sexual”, para a qual seria necessário “antes de tudo, o fim das inibições e das proibições sexuais, especialmente aquelas que mais ameaçam o casamento tradicional: a proibição da homossexualidade, das uniões ilegítimas, das relações sexuais pré-matrimoniais e na adolescência”.

Shulamith Firestone
Influenciada pelo marxismo, em sua obra A Dialética do sexo (1970), apontou a diferença entre homem e mulher como causa das opressões no mundo, devendo portanto ser eliminada. Seria necessária “não apenas a eliminação do privilégio masculino, mas da própria distinção sexual”. Firestone assume posições radicais sobre o incesto. “O tabu do incesto hoje é necessário somente para preservar a família; então, se nós nos desfizermos da família, iremos de fato desfazer-nos das repressões que moldam a sexualidade”; e sobre a pedofilia: “Os tabus sexuais como as relações homossexuais ou entre adultos e menores irão desaparecer, assim como as amizades não sexuais…. todas as relações próximas irão incluir o físico”.

Judith Butler
Atualmente, é a mais renomada teórica do “gênero”. Mas sua posição é ainda mais radical: “o gênero se torna uma artificialidade livremente flutuante. A consequência é que homem e masculino podem facilmente significar tanto um corpo feminino como um corpo masculino, e mulher e feminino podem significar tanto um corpo masculino como um corpo feminino.” (O problema do Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, 1990). Para ela, em outras palavras, não há verdade definida quanto ao “gênero” e tampouco quanto ao sexo biológico: cada qual é aquilo que quiser, e pode mudar a qualquer instante.

VOCABULÁRIO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO

Identidade de Gênero: é o sentimento subjetivo que uma pessoa tem acerca de si mesma: de ser “masculino” ou “feminina”. Seria mais importante do que o sexo biológico da pessoa, podendo coincidir com ele ou não. Uma pessoa poderia mudar de “identidade de gênero” vária vezes ao longo da vida, conforme sua vontade.

Orientação Sexual: Indica os gêneros pelos quais uma pessoa se sente atraída. Poder-se-ia ser assexual, bissexual, heterossexual, homossexual ou pansexual. É interessante notar que, para a ideologia de gênero, um homem transexual (que se identifica como mulher) pode ter orientação sexual voltada para mulheres, considerando-se “lésbica”.

Papeis Sociais: É o conjunto de comportamentos e hábitos associados à masculinidade e à feminilidade: roupas, corte de cabelo, modo de falar, trabalhos, etc. Segundo a ideologia de gênero, não se pode dizer que um papel social (ex. usar saia) seja apenas de mulher ou de homem. Os papeis seriam somente imposições da sociedade, devendo portanto ser incorporados tanto por homens como por mulheres.

Transgênero: É a pessoa que se atribui uma “identidade de gênero” distinta do seu sexo biológico; ou ainda, a pessoa que muda frequentemente de “identidade de gênero”, ora se considerado homem, ora mulher.

Cisgênero: Seria a maior parte das pessoas: indivíduos que se atribuem uma “identidade de gênero” correspondente à do seu sexo biológico (ex.: uma mulher que se considere mesmo mulher).

Diversidade: É o termo pelo qual a ideologia do gênero indica as várias formas de homossexualidade: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros, abreviadas pela sigla “LGBT”.

Heteronormatividade: Seria e “imposição” da heterossexualidade pela sociedade, como se ela não fosse algo natural, mas sim “compulsório”, fruto dos “preconceitos” sociais, políticos e religiosos.

Nome Social: É o nome que a pessoa adoto para si a partir de sua nova “identidade de gênero”: por exemplo, o homem transexual registrado como Paulo que passa a usas o “nome social” Camila.

Tabu: É o modo pejorativo para se aludir aos preceitos morais relativos à sexualidade. Com esse termo, procura-se depreciar e taxar de fanatismo, por exemplo, a proibição bíblica do incesto, dos atos homossexuais, e do adultério.

Fundamentalismo: É o rótulo feito pela ideologia de gênero às pessoas que dela discordam por motivações religiosas.

Homofobia: É a acusação feita àqueles que discordam da ideologia de gênero, rotulando-os de “preconceituosos” ou “intolerantes” com homossexuais, ou até mesmo de “homicidas”.

Fonte
Jornal O São Paulo | Edição de 22 a 28 de julho de 2015 – Páginas 12 e 13

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