Após festa da favela ganhar repercussão nacional, Unimed diz “lamentar mal-entendido”

Foto por: Divulgação/ Redes sociais | Festa da Unimed com cenário imitando uma favela causou polêmica

A Unimed Nacional emitiu nota na tarde desta segunda-feira (9) para “lamentar o mal-entendido” sobre festa realizada pela cooperativa dos médicos em Rio Preto, que tinha como temática o cotidiano das favelas. A polêmica ganhou força com a publicação de um vídeo no qual uma assessora faz comentários sobre a cenografia do evento.

A festa da Unimed, realizada na última sexta-feira (6) em Rio Preto para comemorar os 45 anos da cooperativa, teve a presença de autoridades e médicos associados. No vídeo que viralizou, um homem negro com roupa de garçom faz um churrasco em cima de um simulacro de laje. Roupas penduradas em um varal e até fios enrolados junto a um poste representando uma ligação ilegal de energia completam a paisagem.

A confraternização teve como tema “No país das Maravilhas”, numa alusão direta à obra do escritor inglês Lewis Carrol e ao Brasil, “estabelecendo um paralelo entre as interpretações deste clássico da literatura universal e a realidade brasileira”, segundo a cooperativa. Vídeos da festa foram publicados em redes sociais e geraram reações críticas de pessoas que viram no cenário preconceito ou insensibilidade com os moradores de comunidades pobres.

Vista como discriminatória, a decoração ganhou relevância na internet depois que a deputada federal Sâmia Bonfim (Psol) publicou, em sua conta no Facebook, vídeos da celebração. Até o início da noite de ontem (9), o vídeo já tinha 300 mil visualizações e milhares de compartilhamentos e comentários – a maioria de críticos à temática escolhida. A polêmica ganhou também os meios de comunicação: foram pelo menos 20 veículos de circulação nacional a noticiar a polêmica gerada pelos vídeos.

Sâmia Bonfim classificou a decoração da festa da Unimed como um “deboche à vida nas favelas e nas periferias”. “É revoltante que as pessoas não tenham o mínimo de bom senso e empatia ao fazer da vida da maioria da população motivo para chacota. Mais triste ainda é saber que boa parte dos convidados desconhece ou ignora as mazelas de um Brasil que trata tão mal o povo trabalhador”, disse a deputada.

As imagens do evento foram recebidas com críticas também por outros internautas. “Atender na favela tem muito médico que não quer, mas fazer stories achando a representação cênica da favela exótica eles adoram! Esse povo me embrulha o estômago”, escreveu um deles, Jairo Gonçalves.

Churrasquinho na laje

Em um dos vídeos, publicado no Instagram por uma assessora da Unimed, o espaço caracterizado como favela é classificado por ela como “o mais criativo da festa”. “Olha, tem até um varal”, diz a assessora durante o vídeo, sendo em seguida complementada pelo profissional que projetou o espaço: “E churrasquinho na laje, mostra lá”.

No vídeo, é possível ver uma mulher negra com roupa de baiana de acarajé manuseando um tacho em frente a um cenário de botequim de periferia.

Dentro de um cenário descrito na legenda do vídeo como “casa de favela”, uma garrafa de refrigerante vazia repousa sobra a pia. Junto ao varal, há um isopor em que está escrito “juju”, suco de fruta congelado também chamado de geladinho ou sacolé.

O Conselho Municipal Afro, órgão que faz parte da Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia, foi a primeira entidade a se manifestar em nota.

“A exposição distorcida da vida em uma comunidade apresentada em uma festa de luxo é no mínimo reflexo da insensibilidade com a situação desses povos, refletindo também a absoluta falta de pessoas negras na direção dessa empresa e na elaboração do evento. Para qualquer negro conhecedor das situações de pobreza e da falta de políticas públicas para que as comunidades se desenvolvam é fácil a percepção de que glamourizar a miséria e a falta de investimento público é extremamente problemático”, diz trecho do texto, publicado pela entidade.

Em nota encaminhada à redação do DLNews, a Unimed disse que o evento buscava despertar “o senso crítico sobre a desigualdade social, o grande desafio que o país tem a enfrentar nessa área e a urgência em buscarmos soluções para oferecer melhores condições de vida para todos”.

Confira na íntegra a nota do Conselho Afro de Rio Preto

NOTA DE REPÚDIO

Veio ao conhecimento deste conselho que na noite de 06 de setembro de 2019 a UNIMED Rio Preto promoveu festa de luxo para os seus associados com a temática “país das maravilhas”, onde parte do cenário tratava-se da representação de uma favela, juntando-se a isso alusões a itens da cultura afro brasileira, além de forte presença de pessoas negras trabalhando para servir os convidados.

Não bastante o tratamento superficial do que é a vivência em uma comunidade de favelas, a representação inclui como características deste cenário a falta de organização e higiene, depreciando e denotando desdém à real situação de mais de 11 milhões de brasileiros, em sua esmagadora maioria negros e negras.

A exposição distorcida da vida em uma comunidade apresentada em uma festa de luxo é no mínimo reflexo da insensibilidade com a situação desses povos, refletindo também a absoluta falta de pessoas negras na direção dessa empresa e na elaboração do evento. Para qualquer negro conhecedor das situações de pobreza e da falta de políticas públicas para que as comunidades se desenvolvam é fácil a percepção de que glamourizar a miséria e a falta de investimento público é extremamente problemático.

Favela não é piada ou entretenimento. Antes de qualquer coisa, é luta por moradia e condições básicas para viver, trabalhar e sobreviver ao descaso estatal. Essa situação não dialoga com festas luxuosas, enquanto grande parte dessa população não possui ao menos condições para arcar a contratação de planos de saúde. A vida nas periferias, assim como a vida da população negra não deve ser tratada de modo depreciativo, ou ser pano de fundo para piadas e diversão.

É nítido que a negritude encontra-se em severa desvantagem econômica e nossa luta é diária para a reversão deste quadro, não sendo construtivo para essa causa a deturpação das condições de nossos povos, a exposição da miséria em forma de atração exótica e o costume de taxar como vitimismo as nossas manifestações.

Este Conselho não condena diretamente a participação de pessoas negras no quadro de trabalhadores dessa festa, uma vez que sabemos da necessidade de sobreviver e da falta de opções que nos são ofertadas; ressaltamos assim a necessidade de conscientização e união da comunidade negra em São José do Rio Preto para que situações desonrosas como essa não tornem a se repetir e que sejam devidamente reparadas.

A resposta que queremos perante esse absurdo de transformar a vida negra em objeto exótico e expor a escassez de recursos como elemento alegórico e depreciativo é no mínimo uma ação de reparação por parte da empresa UNIMED, investindo em políticas públicas em prol da comunidade negra rio-pretense.

Nós, a comunidade negra, estamos cansados de notas com simples pedidos de desculpas perante a tantas atrocidades. Para tal estaremos atentos para a discussão de proposta restaurativa visando a promoção da igualdade racial por parte da empresa.

Aguardamos contato, Unimed Rio Preto.

Confira na íntegra a nota da Unimed Nacional

Sobre a repercussão a partir da festa para médicos cooperados da Unimed São José do Rio Preto, realizada no último dia 06 de setembro, a cooperativa, primeiramente, lamenta o mal-entendido ocasionado após publicações realizadas por participantes nas redes sociais sobre parte da cenografia do evento.

Ressalta-se que a temática da ocasião visava retratar as mais diversas facetas do Brasil, apresentando em diferentes momentos e cenários símbolos socioculturais de orgulho dos brasileiros, como a magia do carnaval, os bonecos de Olinda, as baianas e os acarajés de Salvador, o futebol, entre outros elementos regionais.

O mesmo evento, em linha com o compromisso social inerente ao Sistema Unimed, também buscou despertar entre os convidados o senso crítico sobre a desigualdade social, o grande desafio que o país tem a enfrentar nessa área e a urgência em buscarmos soluções para oferecer melhores condições de vida para todos.

Com 344 cooperativas presentes em 84% do território nacional, o Sistema Unimed atua em regiões onde, inclusive, há escassez de serviços públicos e, assim, assume papel de relevância no desenvolvimento das comunidades nas quais está inserida. Resultado disso, apenas em 2018, investiu R$ 81 milhões em ações socioculturais em todo o Brasil, divididos em apoio a projetos sociais, ambientais, esportivos, culturais, filantrópicos e educacionais.

A Unimed São José do Rio Preto se mantém à disposição para demais esclarecimentos.

Fonte: DL News

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