Sem imagens de ‘vovó’ que tentou rapto

Johnny Torres 19/2/2020 | Mãe segura mochila do menino: “se eu tivesse atrasado dois minutos, ela tinha levado meu filho”

Falha no sistema de monitoramento impediu a gravação que poderia identificar a mulher que fingiu ser avó de um menino de 2 anos para levá-lo de creche

Por falha de monitoramento das câmeras de segurança, a escola municipal Cachinhos de Ouro, na Vila Diniz, em Rio Preto, não tem imagens da estranha que tentou levar uma criança de 2 anos da unidade 1, passando-se por avó do menino. Os pais procuraram a Polícia Civil e se reuniram com a direção da escola nesta quarta-feira, 19. As imagens da instituição eram a esperança da família para identificar a suspeita.

“Nós fomos lá para achar as imagens e as funcionárias descobriram que as câmeras não estavam funcionando por conta da internet, inclusive, ficaram sabendo uns dias antes”, afirmou a mãe, que pediu para não ser identificada. “Se tivesse imagem, ia matar a charada”, completou o pai.

A família informou que recorreu aos prédios vizinhos da escola, mas até esta quarta-feira não conseguiu nenhum equipamento que possa ter filmado o trecho por onde a mulher passou ao entrar e sair do pátio, onde as crianças são liberadas. “Nenhuma câmera. Foi feita uma averiguação, mas nenhum ângulo alcança”, disse o pai. À polícia, eles relataram as características físicas e as roupas usadas pela mulher (veja nesta página), que só não conseguiu levar o menino porque os pais chegaram na unidade quando ela estava a poucos passos do portão de saída.

Em março de 2019, ao anunciar a formação sobre educação e segurança de 260 Anjos da Escola, os quais atuam em 133 escolas do município, a Prefeitura citou um investimento de R$ 9,5 milhões do Programa de Segurança Integrada da Educação para, inclusive, implementar câmeras e sistemas de alarme nas instituições de ensino da rede.

Cinco meses depois, durante anúncio da Central de Monitoramento da Guarda Municipal, a Prefeitura informou que as câmeras espalhadas pela cidade, o que também inclui as das escolas, seriam transmitidas 24 horas por dia em 22 monitores da central instalada no Parque Tecnológico (Partec). A nova sala, com 60 metros quadrados, recebeu investimento de R$ 110 mil.

Exposição

Além da falta de monitoramento, os pais da criança questionaram também o fato de o pátio da escola ser exposto – um alambrado cerca o local da rua. Sem uma explicação do que aconteceu, eles acreditam que a suspeita tenha feito contato com a criança antes da tentativa de raptá-la no último dia 12. “Ele pode ter visto ela antes, ele é uma criança séria, sistemática, não iria com ela se não tivesse visto antes”, acredita a mãe. Segundo ela, na reunião, a direção da escola informou que o cercado com muro foi solicitado.

Outra queixa da família da criança foi feita em relação ao apoio às professoras na hora de entregar as crianças. Na faixa etária do aluno, há pelo menos 20 crianças por sala de aula. “Não tem uma educadora auxiliar para ajudar a professora a checar e conferir os documentos. E é a professora de cada sala que libera. Eles são pequenininhos e às vezes a gente chega lá tem uns três ou quatro chorando”, afirmou. “Se investissem em educadoras auxiliares, talvez não tivesse acontecido”, afirma.

Segundo relato da família, a mulher se passou por avó da criança e a professora entregou o menino sem consultar qualquer documento dela e a lista de pessoas autorizadas a buscá-lo na escolinha (veja nesta página o procedimento correto para a entrega das crianças a responsáveis).

Suspeita

Depois do susto trazido pela sensação de quase perder o filho, a mãe conta que a mulher era “acima de qualquer suspeita”. “Você não vai ter medo. É uma senhora, avó mesmo, toda chique, de maquiagem, arrumada, de óculos”, lembrou. Segundo a mãe, a mulher agiu com naturalidade desde a hora que enganou as funcionárias até o momento em que entregou o filho. “Ela entrou no pátio, apontou para o meu filho e disse ‘vim buscar’.”

Antes de sair para destino desconhecido, a suspeita e a criança foram abordadas pela mãe. “Quando cheguei, ela estava a seis metros para sair para rua e ir embora. Eu abaixei para conversar com ele, ela soltou a mão dele e com a mochila dele, se passou por uma funcionária da escola”, disse. “Se eu tivesse atrasado dois minutos ela tinha levado”.

Só no outro dia, depois de trocar informações com a escola, é que a mãe chegou à conclusão de que o filho poderia ter sido raptado. Segundo a mãe, a suspeita é desconhecida por todos. “Nós nunca a vimos. As professoras e as funcionárias da escola também não. Ninguém conhece”, afirma.

O juiz da Vara da Infância, Evandro Pelarin, informou que, caso o fato chegue ao Judiciário, será para apurar suposta má conduta da escola. “Em linhas gerais, a escola tem que tomar todas as providências para proteção e segurança das crianças”, disse. A proteção citada pelo magistrado consta nos direitos determinados por lei pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em vigor no País desde 1990.

Retirada de crianças de creche/escolas infantis

Procedimento correto

  • No momento da matrícula, os pais fornecem os nomes e o parentesco das pessoas autorizadas a retirar as crianças da creche
  • Professores e funcionários da escola devem exigir a apresentação de RG (ou outro documento com foto) em caso de não conhecer o familiar que estiver buscando a criança
  • Com o documento em mãos, é preciso conferir se a pessoa consta na lista de permissões
  • Em caso de dúvida, o representante da unidade de ensino deve ligar para os pais e checar se há autorização para a retirada da criança da escola

O caso

  • Mulher identificou-se como avó da criança de 2 anos e conseguiu retirá-la da classe – houve falha da unidade ao não confirmar a identificação da mulher
  • Pais chegaram na unidade no momento em que a estranha estava no pátio, em direção da saída. A criança chorava
  • Pais acreditaram que a mulher fosse funcionária da escola. Questionada sobre o choro, ela informou que o menino havia sido advertido pela professora
  • No dia seguinte, a mãe questionou a professora sobre o ocorrido e descobriu que a estranha não era funcionária e que ela tinha se identificado como avó da criança
  • De acordo com descrição dos pais, a mulher tem cerca de 1,65 metro, pele branca, aparentando 45 anos de idade. Tem cabelos pretos, enrolados e curtos, na altura do ombro. Estava usando uma camiseta de cor verde-claro, com estampa de flores e uma calça azul capri, de cor escura
  • Segundo os pais, apenas eles costumam buscar o menino na escola
  • A escola possui câmeras de monitoramento, mas pais dizem que foram informados que elas não estão funcionando

 Apuração do caso

A reportagem solicitou uma entrevista com a secretária de Educação, Sueli Costa, mas o pedido não foi atendido. Nenhum porta-voz foi disponibilizado para dar esclarecimentos sobre o assunto. Por meio da assessoria de imprensa, a pasta informou que vai apurar o caso e que reforçou com os profissionais da unidade os procedimentos para entrega de crianças a responsáveis.

Sobre as câmeras de segurança, a Educação informou que a comissão de averiguação instaurada para investigar o caso “vai apurar a falha apontada no monitoramento. Motivo e se havia sido relatado à Secretaria”.

A investigação do caso da tentativa de rapto na unidade 1 da escola municipal Cachinhos de Ouro, na Vila Diniz, foi encaminhada nesta quarta-feira, 19, para a Delegacia de Investigações Gerais (DIG), responsável por apurar crimes de autoria desconhecida, e para a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), a qual investiga crimes contra crianças e adolescentes.

O encaminhamento foi feito pelo delegado do 3º Distrito Policial, Renato Pupo. “O caso foi registrado como falsa identidade, mas eu vislumbrei uma tentativa de sequestro”, afirmou o delegado. O fato ocorreu no dia 12 e foi registrado na Central de Flagrantes no dia 17.

O Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) informou que vai solicitar informações sobre o caso à Secretaria de Educação. “Vamos solicitar para apurar”, afirmou a presidente, Camila Pacífico. (FP)

Fonte: Diário da Região

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