Sequestrada em Tanabi ainda bebê, Simone procura pela mãe

Thiago Coutinho/Colaboração | Simone Aparecida, 46 anos, que mora em Cariacica, Espírito Santo, mostra documento que encontrou durante a busca pela mãe

Uma vida inteira ao lado de um sequestrador que se passava por pai. Anos vividos ao redor de versões distorcidas sobre a verdadeira família. Esse é o resumo da vida da cuidadora Simone Aparecida Pereira, 46 anos. Há seis meses, com a morte do suposto pai, Pedro Antônio Garcia, ela descobriu que foi sequestrada pelo homem aos 2 anos de idade, em Tanabi. A partir da descoberta, iniciou uma força-tarefa, que mobilizou a Polícia Civil tanabiense para tentar localizar a verdadeira mãe, Neide Pereira dos Santos – que atualmente deve ter 67 anos. O desejo é poder abraçar a mãe.

“Acredito que ela sofreu muito na procura, imaginando mil coisas que poderia acontecer comigo. Acredito que foi muito sofrimento”, disse em depoimento ao jornal A Gazeta, do Espírito Santo. “Eu acredito que milagres acontecem. E creio que Deus vai fazer algo acontecer.”

Tudo começou há 44 anos, na zona rural de Tanabi. Era 7 de abril de 1975, um mês e oito dias depois da morte da mulher de Pedro Antônio, prima da família de Simone. “Morava todo mundo junto na mesma casa em um sítio que era dele. A minha família era funcionária”, diz Simone. Logo pela manhã, quando a mãe dela saiu para buscar lenha para cozinhar, Pedro fugiu com a criança.

Junto com Simone, o homem também leva um adolescente de 14 anos, filho adotivo de Pedro desde os sete anos. “Ele sai de Tanabi comigo e esse filho e passa em Minas Gerais, porque a família da mulher dele que tinha falecido era de lá”, conta. “Lá ele me apresenta como filha e tira uma foto comigo no colo do menino adotivo”, conta Simone, já com informações que descobriu ao longo das buscas pela mãe.

Depois de passar pelo estado mineiro, Pedro Antônio e as duas crianças seguem para Cariacica, na Região Metropolitana de Vitória, no Espírito Santo. “Em 1977, ele me registra [com mudança de nome para Simone Aparecida Lopes Garcia] e eu fico oficialmente como filha dele”, afirma. Segundo Simone, Pedro chegou a ser investigado no Espírito Santo pela morte da mulher, mas o caso não foi para frente.

O tempo passa e Simone diz que sempre acreditou ser filha biológica de Pedro. Mas também sempre quis saber mais informações sobre a mãe e tinha desconfiança sobre sua verdadeira história – o suposto pai era violento e ela acreditava que a mãe poderia estar viva.

Em Tanabi, ela descobriu sua verdadeira história: a mãe biológica registrou um boletim de ocorrência na época para denunciar o sequestro de Simone. Pelo relato da mãe, fica claro que o sequestrador era uma pessoa de confiança dela. Segundo o histórico do documento, Neide chegou a ir até Irapé (MG) atrás do paradeiro do homem e da filhinha, mas não os encontrou. “A queixosa suspeita que Pedro esteja na cidade de Assaí, estado do Paraná”, finaliza a denúncia.

O caso virou investigação policial e foi parar no Fórum de Tanabi, mas sem solução. Quarenta e quatro anos depois, Simone teve acesso ao processo. Hoje o mistério é o paradeiro de dona Neide, identificada no B.O. como Neide Aparecida Pereira. Nessa luta, Simone conta com conhecidos, jornalistas, fotógrafos, radialistas e com a ONG Busca Brasil, além da filha, Gabriela Elen Lopes Anchieta de Almeida, 28 anos.

“Qualquer pessoa de bom coração que puder nos ajudar a encontrar a Neide, por favor, entre em contato. E que não brinquem com as notícias porque infelizmente tem gente que faz isso. Hoje [quarta] mesmo aconteceu e minha mãe foi para o hospital.”

Investigadores da Polícia Civil de Tanabi também ajudam nas buscas. Segundo o cartório da delegacia de Tanabi, a investigação, com apoio de investigadores de fora, buscou por uma vizinha que foi testemunha do caso na época, mas a senhora morreu há quatro anos. Eles ouviram então os filhos da mulher, os quais disseram não ter conhecimento do caso.

A Polícia Civil também afirma que já realizou buscas em todos os sistemas, como o do INSS. “Eu busquei o registro de nascimento de São Paulo. Minha mãe é Neide Pereira dos Santos, hoje ela tem 67 anos. Ela também tinha outras duas filhas, uma de meses e outra mais velha do que eu”. Não há informações sobre o pai biológico de Simone.

A História
Entenda o caso

  • Simone Aparecida Pereira, então com 2 anos, morava com a família em um sítio de Tanabi
    Pedro Antônio Garcia, primo do pai biológico de Simone, morava na propriedade
  • Em 7 de abril de 1975, enquanto a mãe, Neide Pereira dos Santos, saiu de casa para buscar lenha, o homem fugiu levando a bebê. À época, a mãe tinha 22 anos
  • Pedro teria vivido em cidades de São Paulo e Minas Gerais e depois chegou a Cariacica (Espírito Santo)
    Ele apresentava a criança a familiares como sendo filha dele com a esposa – que havia morrido um mês antes do sequestro. O homem registrou a criança em nome dele, mudando o nome para Simone Aparecida Lopes Garcia
  • Neide fez boletim de ocorrência e procurou a filha por pelo menos dois anos, mas nunca reencontrou a filha. Simone foi criada por Pedro e pela madrasta em Cariacica
  • Após a morte de Pedro, Simone foi atrás de mais informações sobre a história da mãe e descobriu sobre o sequestro
  • Agora, ela busca ter notícias da mãe biológica e de possíveis irmãos

Fonte: Diário da Região

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