Artigos, Fabricio Carareto › 11/12/2017

MAIS DECORO, SENHORES

Se a câmara de vereadores é um microcosmo representativo de um município, Rio Preto vai mal quando o assunto é a ética. Muito mal, aliás.

Já disse o filósofo grego Aristóteles que o objeto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade. O conceito aristotélico não trata da amizade fraternal, mas da boa convivência em sociedade a favor do interesse público. Diferenças ideológicas existem e devem existir, mas devem ficar restritas ao âmbito político – nunca descambar para o lado pessoal. Porque, com isso, quem perde somos todos nós.

Em menos de um ano de convivência na atual legislatura, em Rio Preto, dois processos já foram parar na Justiça envolvendo quatro vereadores. Os dois por ofensas à honra. Ou, no jargão popular, por baixaria, mesmo. E poderia ser muito mais: quem costuma acompanhar as sessões ordinárias fica assustado com o nível de desrespeito, xingamentos e acusações trocadas pelos vereadores em três horas de reunião semanais.

Um dos casos que gerou um pedido de indenização é especialmente grave: um parlamentar acusou outro, na tribuna do Legislativo, de praticar abuso sexual com base no depoimento de uma mulher com esquizofrenia. A própria mãe da suposta vítima veio a público criticar o uso político da doença da filha. Política do mais baixo nível, com ausência total de ética e decoro parlamentar.

O filósofo espanhol, Adolfo Sánchez Vázquez, define a ética como a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. A moral, por sua vez, é um conjunto de normas e valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social. Faltam aos vereadores falastrões o esteio moral e o compromisso ético de respeito mútuo dentro de uma Casa de Leis.

Os parlamentares, em muitas oportunidades, parecem querer ganhar no grito. Quem for mais eloquente, ou gritar mais alto na tribuna, leva os louros. Um verdadeiro mercado de peixe, um jogo de dominação do adversário. Ensina Aristóteles: “A política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça”.

E como isso pode prejudicar o município? De várias formas. Onde a ética falha, a imoralidade triunfa. O antagonismo extrapola a esfera política e os adversários ideológicos se transformam em inimigos íntimos. E, com isso, a análise de projetos importantes para a sociedade passa a ser sabotada de lado a lado. Sem contar o empobrecimento dos debates sobre o que realmente interessa: a cidade de Rio Preto, que acaba sendo renegada a segundo ou terceiro plano para que os políticos deem azo ao desprezo mútuo.

Outro filósofo grego, Platão, fala bem sobre a necessidade da ética para a sociedade. No seu diálogo “Protágoras”, ele cita o mito de que Zeus, preocupado com o destino da raça humana – que andava capengando -, mandou que seu mensageiro Hermes entregasse aos homens o “pudor (ou decoro) como princípio da humanidade”. Faltou o tal deus grego dar uma passadinha pela Câmara de Rio Preto.

Fabrício Carareto

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