Palavra do Bispo › 10/02/2020

A OBESIDADE, O JEJUM E A ABSTINÊNCIA

Não há semana, no Brasil, que os grandes grupos de comunicação não produzam e publiquem matérias, as mais diversas possíveis, sobre a obesidade. Ao que parece, o sobrepeso vai se tornando um grande problema de saúde pública, no Brasil e em outros países.

Talvez possamos afirmar, a partir da simples observação, que a obesidade esteja vinculada a maus hábitos alimentares: comemos, mas não consumimos o que e como devemos. “Matamos” a fome, mas nem sempre alimentamos adequadamente o corpo, o que trará reflexos à alma e ao espírito. Comemos o que não precisamos e além do que necessitamos.

Uma das práticas propostas pela Igreja Católica Apostólica Romana aos fiéis, no tempo da Quaresma, é a prática do jejum e da abstinência, atitudes salutares que fazem bem para o corpo, a alma e o espírito. São formas de privação voluntária, de livre escolha, de consumir alimentos, de modo total ou parcial, por algum tempo, com uma motivação espiritual e religiosa. Para isto, a Igreja inspira-se na vida e nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo jejuou: “Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. ELE JEJUOU DURANTE QUARENTA DIAS E QUARENTA NOITES. Depois teve fome” ( Mt 4, 1-2 ).

Nosso Senhor Jesus Cristo ensina a jejuar: “Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo, eles já receberam a sua recompensa. TU, PORÉM, QUANDO JEJUARDES, PERFUMA A CABEÇA E LAVA O ROSTO, PARA QUE OS HOMENS NÃO VEJAM QUE TU ESTÁS JEJUANDO, MAS SOMENTE TEU PAI, QUE ESTÁ OCULTO. E O TEU PAI, QUE VÊ O QUE ESTÁ ESCONDIDO, TE DARÁ A RECOMPENSA” ( Mt 6, 16-18 ).

E ainda, Nosso Senhor Jesus Cristo preanuncia o nosso jejum: “DIAS VIRÃO EM QUE O NOIVO LHES SERÁ TIRADO. ENTÃO JEJUARÃO” ( Mt 9, 15).

Na sociedade, há uma tentativa de ajudar as pessoas a cuidarem do corpo, seja por razões de saúde ou estética. Na estética corporal, afirma-se que vivemos a “ditadura do corpo perfeito”, com ampla frequência às atividades físicas, às academias, ao uso de suplementos alimentares, consultas a uma ampla gama de profissionais da medicina, da educação física e nutricionistas.

Por outro lado, os organismos governamentais começam a propor medidas educativas que ajudem as pessoas a se alimentarem melhor e a comerem somente o necessário, numa atitude preventiva contra possíveis enfermidades e doenças vinculadas à obesidade.

Na espiritualidade cristã, e para a Igreja Católica Apostólica Romana, o jejum e a abstinência são saudáveis para o corpo, a alma e o espírito, ajudando a eliminar o supérfluo e o excesso, abrindo espaço, através da sobriedade, ao que é essencial e fundamental para viver bem consigo mesmo, com o outro e com Deus. São práticas educativas que nos “moldam” ao modo de Deus.

Antes de mais nada, o jejum e a abstinência são remédios contra a gula, um pecado capital, isto é, que sempre conduz a outros pecados, como à ganância, ao egoísmo, a relações conflituosas, ao desperdício.

O exercício do jejum e da abstinência abre espaço para a prática da caridade. O que não consumimos deve ser doado aos empobrecidos, para que tenham o necessário para uma vida digna. Não fique em nossa casa, ou em nosso bolso, o que pertence ao fragilizado. Desta forma, o jejum e a abstinência se tornam caminhos de solidariedade, de redistribuição dos bens, no reconhecimento de que os frutos da natureza e do trabalho humano possuem um fim social, se destinam a todos, na medida do que cada um precisa para viver bem e com dignidade.

Ao conduzir a um modo de vida sóbrio, sem excessos, o jejum e a abstinência produzem reflexos na nossa casa comum, pois contribuem para não levar a natureza à exaustão, preservando a capacidade produtiva da terra por mais tempo e do modo mais natural possível, sem necessidade de uso excessivo de aditivos químicos que acabam por contaminar o meio ambiente.

Infelizmente, muitas pessoas, no Brasil e no mundo, sofrem o mal contrário à obesidade, isto é, a magreza extrema, fruto da fome involuntária. Outros ainda, na busca obsessiva da beleza corporal, tornam-se tão frágeis que podem chegar à morte, ou carregar sequelas por toda a vida.

Aproveitemos o tempo da Quaresma para praticar o jejum e a abstinência, o que só fará bem a nós, aos outros e ao mundo.

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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