Palavra do Bispo › 09/02/2018

As cinzas

No mundo do gás e da eletricidade, da energia solar e nuclear, a cinza tornou-se desconhecida das novas gerações, e por isso mesmo perde sua força significante e não conduz a pessoa a outra realidade significada.

Temos cinza como resíduo de vegetais, mas também de ossos e da carne, com a cremação dos cadáveres. Ela pode ser compreendida como resto, a sobra do que existia. A cinza não é um nada, é algo que existe, que persiste apesar da destruição operada pelo fogo. O fogo faz a brasa, da brasa resta a cinza, ao final.

A cinza não é inútil, pode ser usada como “fertilizante”, mas é também remédio para combater pragas nas plantas, como matar pulgões. No passado foi usada para filtrar água, com a qual se fazia “sabão de cinza”, um poderoso agente de limpeza nas casas empobrecidas rurais. Era tão forte que transformava a gordura em agente contra a gordura, pois a matéria prima são restos da gordura suína.

No domingo da Paixão do Senhor, há sempre uma sobra de ramos que não é levada para casa pelos fiéis. Estes são guardados e queimados pelo fogo nos dias de carnaval, são transformados em cinza, que é abençoada na quarta-feira, início da quaresma, e piedosamente colocada, com o sinal da cruz, na fronte dos católicos apostólicos romanos, ou salpicada em suas cabeças. Aquele que coloca a cinza no fiel diz: “Convertei-vos e crede no evangelho”, ou então, “Tu és pó e ao pó hás de voltar”.

A primeira fórmula, “convertei-vos e crede no Evangelho”, acentua a dimensão da conversão quaresmal, fruto da oração, da caridade e da penitência. Também no Antigo Testamento, cobria-se de cinzas em sinal de arrependimento, de desejo do perdão de Deus e projeto de vida renovada na graça divina.

A segunda fórmula, “Tu és pó e ao pó hás de voltar”, faz menção à máxima expressão da fragilidade humana, a morte, quando a “carne” e o osso humano sofrem a desintegração e se tornam terra, pó. Muitos não gostam de ouvir esta expressão, bem como muitos não gostam também de usá-la, acham-na fúnebre demais, assustadora.

Ao término do carnaval, na quarta-feira, o primeiro dia da quaresma, receber a cinza abençoada, é sacramental, mostra a consciência e o propósito do fiel católico em abrir-se à graça de Deus para uma vida nova, construída na comunhão com o mistério da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, morto e ressuscitado para nossa salvação. Ao mesmo tempo reflete a caducidade da vida humana, como fruto do pecado, e o desejo de conversão como abertura para a vida em plenitude, aqui e agora e na eternidade.

Não é também de desconsiderar a fé popular de que a cinza abençoada, molhada pela água benta, é um sinal sensível da proteção divina contra as tentações e os males que o demônio provoca em nossa vida.

Participemos da celebração eucarística e recebamos a cinza, na quarta-feira depois do carnaval; iniciemos o tempo quaresmal na sua sobriedade e silêncio próprio; empenhemo-nos na oração, penitência e caridade.

Na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa somos chamados ao jejum, a fazer apenas uma pequena e sóbria refeição, bem como a nos abstermos de todo tipo de carne. Ao jejum, são chamados os maiores de 18 anos até 60 anos completos. À abstinência da carne, os maiores de 14 anos. O fruto do nosso jejum, abstinência e penitência quaresmal devemos doar aos empobrecidos ou à Coleta da Campanha da Fraternidade, no Domingo de Ramos.

 

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto – SP

Addthis Facebook Twitter Google+ PDF Online

Deixe o seu comentário

Você deverá estar conectado para publicar um comentário.