Palavra do Bispo › 27/09/2017

JESUS CRISTO NÃO É A “RAINHA DO CÉU”.

Na cidade de São José do Rio Preto, na noite do dia 16 de setembro, numa promoção do SESC ocorreu a encenação da peça intitulada “O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, recusada em outras cidades e proibida pela justiça, na mesma ocasião, na cidade de Jundiaí. Alguns dias antes, a exposição “Queermuseu” foi cancelada em Porto Alegre, promovida pelo banco Santander. Um outro “artista” nu tem se apresentado usando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida como tapa-sexo e depois rala literalmente a imagem reduzindo-a a pó; a mesma pessoa também usou hóstias para escrever palavras impróprias em uma exposição. No ano passado, na Catedral de São José do Rio Preto a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado foi estraçalhada. Nos últimos anos, inúmeras igrejas em São José do Rio Preto foram arrombadas e roubadas, em flagrante desrespeito ao Santíssimo Sacramento e a símbolos católicos.  São apenas alguns fatos, dentre tantos, que formam uma corrente sucessiva de “agressões” às religiões e igrejas, atingindo seus valores, símbolos, sacramentos, sacramentais e pessoas.

O homem é o produtor da cultura. A arte, em qualquer uma de suas manifestações, é uma expressão da cultura, uma entre tantas outras. Das expressões da cultura, a mais ampla, profunda e madura é formada pelo conjunto dos valores que norteiam a vida humana e a sociedade e que são fundantes da ética. Os valores possuem horizonte mais amplo que as demais manifestações culturais.  A arte, como uma expressão de cultura, situa-se também ela circunscrita aos valores. Antropológica e culturalmente não é possível pensar a arte sem a ética dos valores, como também não é possível pensar nenhuma manifestação cultural fora do horizonte da ética da responsabilidade.

Do mesmo modo que a cultura é plural nas suas manifestações, também a arte se expressa de variados modos. Cultura e arte estão sempre condicionadas pelo tempo e espaço, são plurais, ambivalentes e sujeitas a ambiguidades. As artes são modos de exprimir o belo. O belo é o mais frágil dos transcendentais, junto com o uno, a verdade e o bom. As manifestações artísticas estão sujeitas aos limites que lhe são próprios por natureza. O belo é tão sublime que não se deixa exprimir por um único meio, e cada expressão do belo carrega consigo uma ausência da plenitude da beleza. A fragilidade das expressões artísticas abre espaço para a ambivalência e ambiguidade, que pode ser o caminho para a transgressão e a absolutização da subjetividade, quando o eu tem a tentação de tornar-se maior que o belo.

Basta adjetivar algo de “artístico” para ser arte? A arte é totalmente subjetiva se não tem critérios que ajudam no discernimento do que é a obra de arte. A arte em qualquer uma de suas manifestações, possui uma dimensão objetiva. Esta objetividade da arte, como também dos valores, está intimamente vinculada com a vida cultural e social da pessoa humana. A adjetivação de algumas produções culturais como “arte” parece estar sendo usada como artifício para fugir da ética dos valores e da responsabilidade social, como se as expressões artísticas estivessem para além dos valores e dispensadas deles. Em muitas situações estas produções culturais que se autodeterminam de artísticas parecem buscar os benefícios do Estado ou de outras expressões da sociedade civil para incomodar, provocar e agredir pessoas e grupos específicos que pensam diferente, expressão sensível e doída da intolerância, pois atinge a “alma” das pessoas e dos grupos.

A sociedade, através das suas instituições de governo ou não, deve ser garantidora dos valores éticos e das artes, assegurando a pluralidade das manifestações artísticas e garantindo o respeito aos valores consolidados que balizam a vida humana e social. Por que as religiões e igrejas podem ser criticadas, caluniadas, vilipendiadas por pessoas e grupos, que em alguns casos se apresentam como artistas? E por que as religiões e igrejas ao se manifestarem diante das críticas, na sua autodefesa, são taxadas de ignorantes, fanáticas e retrógradas? Por que uns “podem” usar os meios de comunicação para divulgarem suas “obras” e os ofendidos não podem usar os mesmos meios para uma reação pedindo respeito e uma ética de responsabilidade dos produtores de arte e dos mecenas? Por que os “artistas” podem tudo e as pessoas religiosas e seus líderes não podem nada?

É dever da sociedade organizada acompanhar as manifestações da arte para que não saiam da esfera de uma ética dos valores e da responsabilidade, não transgridam os limites do respeito aos diversos grupos que formam a sociedade e não agridam valores humanos e religiosos. Para tanto, basta observar o que está na constituição e nos dispositivos legais do nosso Brasil. Quando a sociedade organizada não faz o seu papel de supervisora, a partir da legislação vigente, a transgressão livre, consciente e proposital levará indubitavelmente à agressão. Quando os poderes constituídos da sociedade civil não cumprem a sua missão fica o espaço aberto para o vandalismo e o desrespeito gratuito diante do diferente. A imensa maioria dos produtores de arte e dos artistas são bons e sabem exprimir a beleza de modo adequado sem fugir à ética dos valores e da responsabilidade. Estes realizam interpretações de temas religiosos com inteligência, beleza e bom gosto, contribuindo para a difusão do bem na sociedade. Muitos deles realizam edificantes leituras da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e das manifestações de fé próprias dos cristãos; muitas destas obras são patrimônio cultural da humanidade.

Quando a arte usa de elementos religiosos precisa de uma atenção singular, pois Deus, as pessoas santificadas, os valores religiosos, os livros sagrados, seus símbolos e seus sinais são frutos da Revelação e da história, muitas vezes milenar, como é o caso do Cristianismo. A Bíblia, seus personagens e fatos, não pode ser vista de igual modo como se olha livros de outra natureza. A linguagem e os conteúdos bíblicos devem ser interpretados através de uma hermenêutica própria. O mesmo ocorre com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que precisa ser apreciado sem fugir dos instrumentais adequados para compreendê-lo. Uma “leitura livre”, artística ou não, da Bíblia e de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode correr o risco de falsificar a verdade, induzir ao erro e relativizar erroneamente a fé e a moral, criando e promovendo a divisão na sociedade, pois ao agredir a fé perturba também a paz.

Não cabe às religiões e Igrejas “demonizar a arte”, mas contribuir para fazer dela instrumento de aproximação e ou de recepção e manifestação do belo e também do sagrado. Não existe religião ou igreja que não tenha contribuído para o desenvolvimento da arte, pois o belo é sagrado é divino. O cristianismo, desde a sua origem, sempre foi estreitamente vinculado às expressões artísticas; a sua história é também um capítulo da história da arte. Por outro lado, a história da arte não pode suprimir a contribuição do catolicismo para a música, a pintura, a escultura, a arquitetura, o teatro e o cinema. Não há incompatibilidade entre religiões, igrejas e manifestações artísticas. Os valores éticos e religiosos contribuem para que a arte realize bem a sua missão de ser transmissora dos valores artísticos. No entanto, lamentamos e repudiamos todas as manipulações ideologizadas de expressões artísticas, como a ocorrida no SESC, em São José do Rio Preto, que agrediu a fé e os valores de noventa e cinco por cento da população cristã da cidade. Ética, responsabilidade e respeito são bons e nós cristãos merecemos e queremos.

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Addthis Facebook Twitter Google+ PDF Online

Deixe o seu comentário

Você deverá estar conectado para publicar um comentário.