Palavra do Bispo › 06/02/2017

A SOBRIEDADE, O SILÊNCIO E A ORAÇÃO: REMÉDIOS EM UMA SOCIEDADE TUMULTUADA.

No Brasil e no mundo, parecemos viver um tempo de desconcerto cultural, social, político, econômico e religioso, um tumulto generalizado, com poucas ilhas de segurança. A precariedade dos valores, a desintegração das sociedades, a ambiguidade dos homens públicos, a desigualdade no acesso aos bens e a instrumentalização do religioso, criam a sensação de confusão generalizada, diante da qual “salve-se quem puder” e como puder, um tempo de poucos fatos e fartos boatos.

No primeiro dia de março, os católicos começam a viver o tempo da quaresma, uma quarentena de dias que os preparam para celebrar e viver o Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, fato fundante do cristianismo. Neste tempo, de longa data, na esteira da práxis de Nosso Senhor Jesus Cristo e das Sagradas Escrituras, propõe-se aos fiéis, e às pessoas de boa vontade, a experiência singular da oração, da caridade, do jejum e da penitência.

No Brasil, realiza-se durante a quaresma a Campanha da Fraternidade, uma promoção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Ela é um precioso auxílio para o Povo de Deus, pois tem contribuído para compreender e promover a dimensão social da fé cristã. Neste ano, o tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”; o lema: “Cultivar e guardar a criação”(Gn 2,15). O objetivo: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho.”

Diante da realidade que vivemos, marcada pelo desconcerto e tumulto, impulsionados pela Quaresma e Campanha da Fraternidade, podemos cultivar como saudável remédio: a sobriedade na vida, a experiência edificante do silêncio e a força restauradora da oração. Diferentemente do restante do ano, o tempo quaresmal é penitencial e com inequívoco apelo à conversão para os católicos, um tempo a ser santificado de modo peculiar, não podendo e não devendo ser vivido ao modo dos outros tempos do ano.

Uma vida sóbria, sem acumulação e desperdício, sem ostentação, com menos produção possível de lixo, é um modo moderno e oportuno de jejuar e de abstinência, que promove a justiça, possibilitando a cada pessoa o acesso ao que precisa ter para viver com decência, contribui para a distribuição equitativa dos bens da criação e produzidos pela humanidade, poderoso auxílio para um desenvolvimento sustentável que cuida e preserva a natureza.

A prática diária e habitual do silêncio, e neste tempo de forma mais prolongada e intensa, é um precioso antídoto para desvincular-se da poluição visual e auditiva, provocada pelo excesso de palavras e imagens, sem compromisso com a verdade e a responsabilidade, repassados como informações pelas mídias,  “infinitamente” potencializados pelos novos meios de comunicação vinculados à internet. O silêncio qualitativo ajuda na compreensão, no discernimento e processamento das informações e dos fatos, conduzindo à verdade e trazendo serenidade no julgamento e confiança na ação.

Uma consolidada vida de oração, sistemática e disciplinada, que parte da Sagrada Escritura, dos Sacramentos e dos Sinais dos Tempos, nos permite ocupar nosso “quadrado” no mundo e interagir com ele, iluminados pelo mistério do Reino de Deus e promovendo os seus valores: justiça, paz, mansidão, pureza de coração e misericórdia. Nas atuais circunstâncias, quem não vive de modo orante não guardará a fé e certamente sucumbirá imerso nas mazelas do mundo.

Exorto os fiéis católicos e as pessoas de boa vontade a não banalizarem o tempo da quaresma, mas a vivê-lo adequadamente, de modo penitencial e na busca da conversão, existencialmente voltados para Nosso Senhor Jesus Cristo. Por causa do Divino Salvador, o abandono de  comportamentos incompatíveis com a ética e com a moral cristã resultarão em benefício  pessoal e em uma sociedade melhor.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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