Palavra do Bispo › 04/09/2019

NA AMAZÔNIA TEMOS PESSOAS HUMANAS, ANTES DE TUDO

Praça da República. Ao centro, Theatro da Paz. (Imagem: Luciano Martins/Flickr)

“O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden, para o cultivar e guardar” (Gn 2, 15).

Estamos próximos à realização do Sínodo para a Amazônia, que acontecerá de seis a vinte e sete de outubro próximo, em Roma, convocado pelo Papa Francisco, reunindo os bispos católicos que trabalham nas dioceses existentes na região amazônica, não só a brasileira. No Brasil, desde a segunda quinzena de agosto passado, o assunto “Amazônia” é destaque e ganha visibilidade internacional, com consequências sociais, políticas e econômicas, ainda em andamento, e com possíveis ressonâncias que perdurarão por um bom tempo.

Em 2005 e 2006, tive a oportunidade de conhecer e acompanhar um sacerdote brasileiro, indígena, que fazia uma pós-graduação. Aproveitei a oportunidade para “conhecer” sua pessoa, sua cultura e seu povo, através de longas conversas. Seus relatos eram simples, objetivos, de poucas palavras, mas vivos e contagiantes. Certa vez, ao término de um dos diálogos, ele me disse algo mais ou menos assim: “vocês se enganam sobre nós; vocês não retratam o que somos; mas interpretam os fatos a partir de seus próprios critérios e constroem teorias que quase sempre não se sustentam para nós. ”  Ao acompanhar os noticiários nacionais e internacionais, a partir de agosto passado, recordei-me das palavras desse sacerdote, que não mais exerce o ministério.

Na Amazônia, há uma riqueza inestimável, em grande parte ainda por ser identificada e quantificada de modo sistemático, distribuída na flora, na fauna e no mundo mineral, e desperta a atenção de muitas nações, estados, empresas e organismos nacionais e internacionais, gerando uma “floresta de narrativas” de cunho social, cultural, econômico, político e religioso, os quais, na maioria das vezes, não são concordes entre si. Muitas vezes, os hábitos e valores dos povos que habitam a Amazônia são apresentados mais como folclore do que como cultura. No debate destes últimos dias, no entanto, pouco ou nada se ouve falar a respeito dos habitantes da Amazônia, e menos ainda, ouvimos a voz deles, seus anseios e projetos, que não são captados, ou não são transmitidos de modo suficiente, nem mesmo pelos grandes conglomerados do mundo da comunicação. É preciso reconhecer, olhar, respeitar e ouvir os povos da Amazônia, em tudo o que lhes diz respeito, mas não através de outros interlocutores ou mediadores, que correm o risco de serem intérpretes a partir de seus próprios paradigmas.

Na Amazônia, não temos só florestas, temos cidades, e grandes cidades, como Belém e Manaus; temos indígenas, mas não só.  A terra foi dada ao homem para ser cultivada e cuidada, segundo o livro do Gênesis. Será que não é possível conjugar o cultivo e o cuidado da Amazônia, tendo como ponto de partida a vida dos seus habitantes e os interesses de cada país que possui parte da floresta? No caso brasileiro, não é hora de perguntar pelos resultados efetivos dos incentivos feitos por políticas públicas na Amazônia Legal?

No ambiente eclesial católico, no Brasil, sempre ouvi falar do diminuto e insuficiente número de vocações à vida sacerdotal e religiosa na Amazônia Legal. Por algumas vezes, cheguei a interpelar, em grupos de estudo, sobre a veracidade ou não do fato, motivado por quatro experiências pequenas, por isto, limitadas: primeira, certa vez, visitei um seminário de uma ordem religiosa, situado no Paraná, e fiquei surpreso ao verificar que quase todos os formandos eram provenientes da Amazônia Legal; segunda, nestes últimos anos, acompanho uma nova comunidade religiosa, de clérigos e não clérigos, e vejo que também possuem vocações da Amazônia; terceira, conheço uma pessoa que viveu por um tempo razoável em dois  Estados da Amazônia Legal, e senti, por seu intermédio, a constatação de que temos vocações à vida presbiteral e religiosa na Amazônia Legal, embora seja um “desafio” cultivá-las, sobretudo quando deslocadas de seu contexto sociocultural; quarta, não é difícil encontrar clérigos e consagrados, originários da Amazônia Legal, residindo e trabalhando em outras regiões  do Brasil.

É hora de perguntar: sabemos realmente a situação vocacional ao ministério ordenado e à vida religiosa na Amazônia Legal? Depois de vários séculos de presença da Igreja Católica na Amazônia Legal, porque ainda parece ter tantas dificuldades, que não parecem ser apenas de logística? Quais os resultados efetivos da presença missionária, também do investimento de recursos econômicos, de pessoas e organismos eclesiais de outras regiões do Brasil e do mundo na Amazônia Legal?

Vejo com esperança, como uma gota d’água, balsâmica, a presença da Fraternidade de São Francisco de Assis na Providência de Deus, bem como da Associação São Francisco de Assis na Providência de Deus, originários e canonicamente vinculados à Diocese de São José do Rio Preto. Eles chegaram na Amazônia Legal, no estado do Pará, na Diocese de Óbidos, com os olhos voltados para o povo que habita esse pedacinho abençoado do Brasil, indígena ou não, mas Povo de Deus, olhando-o de forma integral, no corpo, na alma e no espírito. O seu interesse não está em nenhuma riqueza da fauna, da flora ou mineral, mas desejam apenas servir, como o Bom Samaritano do Evangelho, a partir do que administram da Providência de Deus.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP.

 

 

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