Palavra do Bispo › 05/06/2017

OS INDIVÍDUOS, OS FATOS E AS IDEIAS.

Uma sociedade organizada é resultado da complexidade de relações ordenadas que se estabelecem entre pessoas, organizações e instituições, estas, das mais variadas espécies. A pessoa é fonte e fim das realidades históricas de qualquer natureza. A pessoa é irredutível: a sociedade, e tudo o que nela se faz, existe para a pessoa, não a pessoa para a sociedade. Há uma primazia natural, ontológica e antropológica da pessoa sobre a sociedade.

Produto singular, o mais nobre e tipicamente humano, a cultura, como conjunto de valores enraizados no tempo, embora mutáveis, é paradigma estável para a organização da sociedade, de um povo, de uma nação e de um estado. Ao mesmo tempo produtora da cultura, a pessoa é também dela, de algum modo e intensidade, produto. Há uma relação de dependência e complementariedade entre a cultura, como valor, e a pessoa.

Por não ser apenas um produto cultural, ontologicamente pensando, a pessoa antecede e é mais que a cultura, que é seu produto. A cultura, por sua vez, inspira ideias, contextualiza fatos, configura a história, sustenta a sociedade, dá identidade a uma nação e legitima os estados. Assim, a pessoa é fonte e razão de ser das realidades históricas acima mencionadas, pois os valores que as informam têm nela a sua nascente.

Conectados com o mundo, nós brasileiros vivemos um tsunami de fatos sociais negativos, sobretudo na política e na economia, mas estes fundados na vida social e pessoal dos cidadãos, visibilizados pelos meios de comunicação em tempo real, criando uma “pararealidade” onde se encontram verdades, “meias verdades”, se é que isto é possível, e também mentiras, que são apresentadas como se verdades fossem, que se cristalizam como respostas aos mais diversos interesses, não só econômicos e políticos, mas ideológicos e até religiosos.

Fato é fato, uma vez ocorrido, não pode ser negado. A partir do momento que os fatos são apresentados eles não podem ser assimilados tal como são comunicados. A apresentação de um fato não se identifica com o fato. Entre o ocorrido e a sua comunicação há a inserção de outras realidades que impossibilitam a captação do fato tal como de fato ocorreu. E não tem como ser diferente. A “desfiguração” do fato é condição para que possa ser comunicado, pois o fato em si mesmo não pode ser acolhido e comunicado. O que se comunica é uma visão ou uma versão do fato, sempre. Não há comunicação neutra, ela será sempre contextualizada.

Os meios de comunicação têm cumprido exemplarmente com a missão de comunicar os fatos. Porém não basta. Estamos “desorientados” entre tantos fatos apresentados, com tantas versões e matizes. O caminho mais simples, com esta “confusão natural”, é voltar a atenção só para as pessoas envolvidas nos fatos, o que não é errado, mas não é tudo. Não basta tomar conhecimento do fato e dos seus atores. Discordar dos fatos é necessário para toda pessoa de bom senso. Mas só identificar, julgar e punir os atores, informal e formalmente, não é suficiente.

Não desplugados do mundo, nós brasileiros precisamos olhar para os horizontes que se situam para além dos fatos e das pessoas. É necessário compreender a natureza e o funcionamento da sociedade, o que ainda não é possível para a imensa maioria de nós brasileiros. Não temos muitas estruturas e ferramentas às mãos que nos ajudem nesse empreendimento. Os bastidores do Brasil são acessíveis a poucos privilegiados, por culpa da organização e da ação dos que se fazem proprietários do estado.

É preciso ser sujeito da história, o que é negado aos brasileiros, não só pelo modo como é organizado o estado, mas por sermos historicamente privados de educação de qualidade que favoreça o desenvolvimento da inteligência pessoal e não só transmita informações que contribuem tão somente para armazenar e aumentar uma pequena coleção de elementos de saber acadêmico.

Não somos uma enciclopédia, um pen-drive, um CD, para armazenar dados. Hoje estes são armazenados na “nuvem” e podem ser requisitados em qualquer tempo e lugar. Um homem culto não é necessariamente um homem inteligente. A nação brasileira não pode contentar-se com homens cultos, informados pelos meios de comunicação, mas necessita promover condições justas e iguais para o aprimoramento da inteligência para todos, a cada um na medida das suas potencialidades.

Não basta alterar os personagens e variar o script dos fatos. Brasileiros, não devemos ser consumidores de roteiros, ainda que medianamente elaborados, seja pela elite do saber, por grupos econômicos, por empresas de comunicação, partidos políticos ou ideologias cristalizadas. Não basta sermos atores e consumidores de saber selecionado, queremos e devemos ser autores e diretores do nosso destino, cidadãos iguais, produtores de história.

Para além dos indivíduos e dos fatos, existem ideias, que brotam da vida das pessoas, vivida e lida com inteligência, que agrega fé e razão. São ideias assim que nos levam a construir a cultura como conjunto de valores que fundam um povo, uma nação e um estado chamado Brasil. Pessoas inteligentes produzem ideias razoáveis que se tornarão sementes de valores que perdurarão e serão suficientes para mudanças sociais, paradigmas de educação séria, referências para a nação e garantia para o estado.

A crise que hoje experimentamos não é o fim do poço. O fim do poço está na crise de ideias e de ideias programáticas, na crise da cultura como conjunto de valores. Para além dos indivíduos e dos fatos, é isto que precisa ser construído, cultivado e disseminado, ideias e valores.

A mudança dos atores pode ser um passo, mas não será significativo, pois o script, o roteiro vigente, é o mesmo viciado das últimas décadas. Para novos fatos e roteiros precisamos de ideias e valores, o que falta não só aos governantes e aos que ocupam funções públicas, mas tem sido escasso na sociedade, na nossa nação e no estado brasileiro.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

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