Palavra do Bispo › 15/04/2019

SÁBADO SANTO: SILÊNCIO, ESPERA E ESPERANÇA

Reprodução | Site Pe. Paulo Ricardo

“Que significa ‘subiu’, senão que ele desceu também às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher o universo” (Ef 4, 9-10).

Em muitas regiões do Brasil, há um fato a ser recordado e celebrado em cada dia da Semana Santa. Mesmo diante da unidade do Tríduo Pascal, há em cada dia uma dimensão do Mistério Pascal a ser lembrado e rezado. Normalmente, no Sábado Santo, nossa atenção se volta para a Vigília Pascal, a grande noite e vigília dos cristãos. Mas o que “celebramos” durante o dia do sábado santo, antes da vigília?

“José de Arimatéia pediu a Pilatos para retirar o corpo de Jesus; ele era discípulo de Jesus às escondidas, por medo dos judeus. Pilatos o permitiu. José veio e retirou o corpo. Veio também Nicodemos, aquele que anteriormente tinha ido a Jesus de noite: ele trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. Eles pegaram o corpo de Jesus e o envolveram com os perfumes, em faixas de linho, do modo como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ninguém tinha sido ainda sepultado. Por ser dia de preparação para os judeus, e como o túmulo estava perto, foi lá que eles colocaram Jesus” (Jo 19, 38-42).

Após o sepultamento “apressado” de Nosso Senhor Jesus Cristo, os que estiveram com Ele ao pé da cruz e prepararam seu corpo para o sepulcro, retornaram para casa. Para onde foi Maria, sua mãe? Para onde foi João, o discípulo amado? Onde estavam os apóstolos? Onde se recolheram os soldados responsáveis pela crucifixão?

“Só uma vez morrendo, da morte triunfais; aos mortos visitando, livrastes nossos pais”. Diz a fé que, sepultado, Nosso Senhor Jesus Cristo desceu “à mansão dos mortos” para chamar à vida os que viveram de esperança no Antigo Testamento, Ele foi levar a liberdade aos cativos do pecado e da morte. “Jesus conhece a morte como todos os seres humanos e com a sua alma esteve com eles na Morada dos Mortos. Mas para lá foi como Salvador, proclamando a boa notícia aos espíritos que ali estavam aprisionados. ” “Jesus não desceu aos infernos para ali libertar os condenados nem para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido”. A Boa Nova foi anunciada aos mortos (cf 1Pd 4,6), a última fase da missão de Jesus, “condensada no tempo, mas imensamente vasta sua significação real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, pois todos os que são salvos se tornaram participantes da Redenção. ”

Nós cristãos, corremos o risco de viver este dia, o sábado santo, de “modo paganizado”, envolvidos unicamente com o consumismo da época: a compra e o consumo do chocolate, dos bolos, da carne e do bacalhau, regados por farta bebida. Reina no ar um burburinho de indiferença ao mistério de Cristo morto e sepultado.

O sábado santo é o dia do silêncio. Deus morreu de amor, Deus morreu por amor. Deus silenciou-se. E o silêncio de Deus é um grito, um brado que clama na profundidade do coração humano. O Povo de Deus está de luto por seu Deus, um luto sagrado de esperança, esperança que Ele vai ressuscitar. O silêncio de Deus é o silêncio dos cristãos. O silêncio dos cristãos deveria ser o silêncio fecundo do mundo e da história.

“Um grande silêncio reina hoje na terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra tremeu e acalmou-se porque Deus adormeceu na carne e foi acordar os que dormiam desde séculos… Ele vai procurar Adão, nosso primeiro Pai, como uma ovelha perdida. Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão acorrentado e Eva com ele cativa. ‘Eu sou teu Deus, e por causa de ti me tornei teu filho. Levanta-te, tu que dormes, pois não te criei para que fiques prisioneiro do Inferno. Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos’. ”

É interessante que um certo número de católicos continua no sábado santo o jejum iniciado na sexta-feira santa, e somente será quebrado após a celebração da Vigília Pascal. Assim, de maneira mais concreta, fazem do sábado um dia de espera, um dia de esperança, um dia de oração que precede a Vigília Pascal.

Seria bom, se no sábado santo, tivéssemos um significativo momento de silêncio, em oração. Uma oração sem palavras, mas silenciosa e de espera. Será a partir deste silêncio que entraremos na celebração da Vigília Pascal para ouvir o “Aleluia, Aleluia, Aleluia, Cristo ressuscitou! ”

(As citações são do Catecismo da Igreja Católica, 631-635)

 

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Addthis Facebook Twitter Google+ PDF Online

Deixe o seu comentário

Você deverá estar conectado para publicar um comentário.