Palavra do Bispo › 03/03/2020

VIDA: DOM E COMPROMISSO

De 26 de fevereiro a 09 de abril do ano em curso, durante a Quaresma, a Igreja Católica Apostólica Romana, no Brasil, realiza a 57ª Campanha da Fraternidade, com o tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”; e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34).

Deus é vida e comunica-a a nós com duração marcada para aqui e agora; mas imortal, ao sairmos da história. Viver é, de algum modo, participar da “natureza” mesma de Deus: a Vida nos permite viver. A vida não é fruto da mecânica ou do vitalismo da natureza, não é geração espontânea, mas realidade que recebemos de Deus criador, como dom a ser acolhido.

Ao sermos agraciados com a vida, assumimos um compromisso, como resposta ao dom recebido: viver bem e dignamente. Este compromisso não é só com a minha vida, mas com a vida das pessoas, e através delas, também com a vida da natureza. Diante da vida, qualquer forma de vida, é preciso ver, sentir compaixão e cuidar.
Assim, nesta Quaresma, “O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito quaresmal, volta-se também para os irmãos e irmãs, contempla o planeta, identificando a criação como presente amoroso do Senhor”.

A vida é ameaçada, ontem e hoje, de múltiplas formas: o aborto, a eutanásia, pelas consequências do empobrecimento, a violência (verbal, escrita, visual, gestual e armada). Destaco duas formas singulares de atentado contra a vida, que tem crescido, e se manifesta muito nos adolescentes e jovens: a automutilação e o suicídio. O que fazer diante desta triste realidade?

No noroeste do estado de São Paulo, há uma permanente ameaça à vida: a proliferação incontrolável do mosquito Aedes Aegypt, veículo causador de diversas doenças: dengue, zika, chikungunya, microcefalia e Guillain Barré. Entre nós, o grande tormento é a dengue, por enquanto.Há anos, é feito um trabalho de conscientização e mobilização para que as famílias eliminem os focos de procriação deste inseto (Aedes Aegypt), mas não tem sido suficiente para diminuir a ação da “peste”.

É preciso ter a coragem de fazer algumas perguntas, para avançar no combate a este mal: continuam sendo, de fato, os domicílios os criadouros privilegiados do mosquito? Não há relação entre a intervenção humana na natureza e o aumento da reprodução do mosquito e do seu “fortalecimento genético”? A cultura predominante da cana, o uso intensivo de defensivos agrícolas, a alteração das “feições” da terra, não estão contribuindo, direta ou indiretamente, para os avanços do inseto?

A Campanha da Fraternidade de 2020 é um clamor para eliminar a indiferença que não deixa ver corretamente a realidade da vida frágil ou ameaçada, para destruir a insensibilidade que dificulta o sentir compassivamente a situação dos que possuem a vida ferida, e combater a preguiça que nos impede de nos curvarmos para cuidar dos que precisam. Para tanto, nos ajudarão a oração, a caridade e o jejum, continuado na penitência e na abstinência.

“A vida é dom e compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho (cf. Lc 10,25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo das dores dos irmãos e irmãs”.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

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