Palavra do Bispo › 30/11/2020

VIGIAI!

O verbo “vigiar” exprime a exigência de observar atentamente, espreitar com acuidade, estar ligado, antenado, concentrado, focado. Ontem e hoje, no mundo bíblico e no nosso, vigiar é uma tarefa empenhativa, que exige predisposição física, psicológica e intelectual. Em nome da vigilância, nas suas mais diversas formas, o mundo contemporâneo desenvolve uma ampla gama de tecnologia, uma verdadeira indústria, que movimenta anualmente “bilhões de dólares”.

O profeta Isaías fala da precariedade da vida humana usando estas palavras: “Todos nós nos tornamos imundície e todas as nossas boas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas e nossas maldades empurram-nos como o vento” (Is 64,5). Ao mesmo tempo, o profeta abre uma perspectiva de esperança: “Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64,7).

No entanto, mesmo sendo precários, fomos salvos em Nosso Senhor Jesus Cristo, aguardamos a sua manifestação plena: “Assim, não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo” (1Cor 1,7). Embora aqui e agora, olhamos para o alto e o futuro, a manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, no fim dos tempos: sabemos com certeza que Ele virá, mas não sabemos quando e nem como. E seremos semelhantes a ele, pois a sua será também a nossa ressurreição.

A exortação à vigilância é feita por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento. (…) Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai” (Mc 13,33.36-37). Diante da manifestação gloriosa dele no fim dos tempos, vigiar é uma necessidade. Vigiamos através da oração, que nasce da leitura orante da Sagrada Escritura, da frequência aos sacramentos, sobretudo a confissão e a eucaristia, experimentando a dimensão comunitária da fé e aplicando-nos no exercício contínuo da caridade.

A vivência da vigilância também nos prepara para o ato de falecer, pois também não sabemos quando e como partiremos do mundo e da história. Neste tempo pandêmico, diante da possibilidade real de um óbito iminente, em grande escala, somos confrontados com a finitude. As imagens e as narrativas dos sepultamentos invadiram o nosso cotidiano sem pedir licença, mesmo assim, nem todos foram tomados pelo justo temor e continuam a viver sem as precauções necessárias, colocando em risco a vida de muitas pessoas.

Diante da beleza e bondade do mundo e da história, dos prazeres mundanos e históricos, apesar de tantas realidades de morte, uma grande parte da humanidade vive como se estivesse inebriada. A insensibilidade diante da morte manifesta-se também na indiferença diante da manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, fruto do desconhecimento, ateísmo e secularismo que assola as sociedades. Este fenômeno explica porque não conseguimos experimentar a realidade da primeira parte do tempo do advento, que quer elevar nossa vida, olhar e coração ao mistério da Parusia de Nosso Senhor Jesus Cristo. A redução do tempo do advento a uma compreensão hedonista e consumista do Natal, não acessível a todos, tem explicação não só sociológica, mas também antropológica, que solapa a teologia, a pastoral e a liturgia. Mais do que nunca, a exortação de Nosso Senhor Jesus Cristo é necessária, ao menos para nós, uma pequena minoria: VIGIAI!

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

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