O discurso sobre Jesus e os movimentos culturais

O discurso sobre Jesus e os movimentos culturais

17/10/2017 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

Quem é Jesus? Qual é o seu real significado para os próprios cristãos, para a história das religiões ou para a comunidade humana? Se estudarmos atentamente os debates teológicos nascidos no seio do cristianismo primitivo ou na época dos Padres da Igreja, constataremos que essa pergunta sempre esteve no centro da vida eclesial. A resposta sobre a identidade e o ministério de Jesus não é um fato apenas intelectual, mas existencial. Os próprios Evangelhos dão testemunho de que muitos contemporâneos de Jesus o consideravam como um profeta, um rabi (um mestre), um herege ou um charlatão. Por outro lado, os seus discípulos expressaram o núcleo central sobre a pessoa do Senhor: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). O reconhecimento do messianismo de Jesus, de sua novidade e de sua proposta salvadora é o eixo que orienta as reflexões da Igreja sobre vários temas teológicos, inclusive da Teologia Moral, e sobre a particularidade do cristianismo em sua fé trinitária no seio das religiões monoteístas (judaísmo e islamismo) ou no diálogo com outros credos.

Portanto, não nos deveriam assustar certas críticas a essa fé da Igreja, pois a sua ocorrência não é, de maneira alguma, novidade na história do cristianismo. Se em um primeiro momento, os cristãos tiveram que defender a sua fé diante do judaísmo rabínico ou do politeísmo greco-romano, após a liberdade de culto concedida por Constantino em 313 d.C. e o início da Cristandade, a Igreja teve de lutar contra o uso político e ideológico da figura de Jesus. Não nos é possível fazer, neste espaço, uma descrição detalhada de todos esses embates, mas gostaria de realizar algumas asserções.

Depois do advento do Iluminismo, a unidade entre o Jesus histórico e o Cristo da fé começou a ser questionada no âmbito da própria teologia. Se, em seus primórdios, a comunidade cristã teve de refutar uma concepção apenas divina sobre Jesus, que negava o valor histórico da Encarnação do Verbo, depois da Revolução Francesa (1789-1799) e do surgimento das ciências históricas no século XIX, houve uma tendência cultural de reduzir Jesus a um simples homem sábio, criador de uma ética inovadora baseada no amor. Em certo sentido, existe uma similaridade entre essas diversas concepções: uma projeção de ideias culturais dominantes ou do “politicamente correto” daquele momento histórico sobre a pessoa de Jesus, com o intuito de corroborá-las.  Essas tendências revelaram-se, em longo prazo, falsas ou demasiadamente limitadoras para explicar o fenômeno “Jesus”.

Após a Revolução estudantil de 1968 na França, instalou-se, em nossa civilização, uma luta acirrada pelos direitos sexuais. No âmbito das principais universidades do Ocidente, filósofos e pensadores defendiam “desconstruir” as bases cristãs de nossa sociedade, para instalar, na opinião deles, uma suposta verdadeira liberdade dos indivíduos diante dessa “moral repressora”. Dentro desse grande movimento cultural, surgiu a ideologia de gênero e certas concepções alternativas sobre a sexualidade humana. Consequentemente começou-se, como em outros momentos históricos, a projetar em Jesus e em sua doutrina ideias dessa natureza em peças teatrais, em livros ou em debates televisivos.

Como nós nos deveríamos posicionar? A primeira coisa seria evitar qualquer crítica impulsiva ou medíocre, que não colhesse nesse movimento seus valores, sejam eles positivos ou negativos, porque a realidade é mais complexa do que pensamos.  Devemos indagar-nos: por que utilizam a pessoa de Jesus? Para atacar a fé da Igreja, para usar Jesus de maneira ideológica ou para suplicar, de maneira consciente ou inconsciente, um olhar da comunidade cristã? Será, por outro lado, que essas atitudes não estariam mescladas e não deveríamos separar o joio do trigo em nossas reflexões? Isso não significa que devemos omitir-nos sobre os limites e os interesses econômicos subjacentes a essa mentalidade. A Igreja como Mãe deve dialogar, escutar, aprender, mas também orientar seus filhos sobre esses perigos, seja no confessionário, na pregação ou nas formações teológicas.

Por outro lado, impõe-se, para nós, como em outros momentos históricos da comunidade cristã, o desafio de apresentar Jesus segundo a Tradição recebida dos apóstolos e de evitar seu uso ideológico. O caminho está aberto. Não existe um manual pronto! Só o faremos bem se evitarmos a ignorância teológica e científica de muitos cristãos e se vivermos concretamente o que pregamos e defendemos. Caso contrário, não seremos capazes de acolher e de curar as feridas de uma geração formada por ideologias pseudocientíficas ou pseudoteológicas, que trarão consequências sociais e psicológicas que ainda não somos capazes de prever.

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