Pe. Jarbas Brandini Dutra

Natal, o mistério da Encarnação a serviço da pessoa humana

É missão do cristão tornar claro o mistério que está sempre escondido. O processo de globalização constituiu o deus-mercado senhor da vida humana no planeta. Para quebrar a alienação a que foram condenados o pensar, o sentir e o viver pós-modernos, o Natal é celebrado como uma boa notícia de libertação. Para isso os homens e mulheres de boa vontade  necessitam de uma verdadeira metanóia, uma profunda conversão da mente e do coração, como aquela que Jesus pregava no início de seu ministério; precisamos resgatar nossa verdadeira identidade de filhos de Deus, irmãos em Jesus Cristo, cuidadores da obra da criação. Dois capítulos de Gênesis (1,26-28;2,22-25) mostram que o  primeiro homem bíblico encontra sua identidade levando em conta três alteridades: Deus, a criatura humana e a natureza. Com a perda do Paraíso, Jesus foi enviado para mostrar o homem ao homem, mostrar Deus ao homem e mostrar o homem redimido ao Pai, resgatando, assim, nossa verdadeira e plena identidade. O deus-mercado, alienado e alienante pela própria constituição, dilui qualquer alteridade válida e nos vende, para usar uma expressão do Papa Francisco, um deus-spray, que está em todos os lugares, mas não se sabe o que é.

Natal é a celebração do encontro com um Deus que tomou a iniciativa de nos buscar, de nos encontrar; aqui se realiza o mistério da Encarnação a serviço do ser humano. Só quem tem um olhar de criança é capaz de mergulhar nesse mistério. Quem se comporta como grande, como adulto, como inteligente diante de Deus, se quiser compreender alguma coisa, que se torne criança, que vista a veste nupcial do banquete que o rei preparou para seu filho (cf. Mt 22,1-14). Crianças não nascem todos os dias e a todas as horas? Sim, mas cada nascimento é motivo de nova alegria, de nova esperança. Lembrando o poeta, a vida, por mais severina que seja, é sempre nova, mesmo que nascida no ambiente mais poluído do planeta, mesmo que seja num curral da periferia de Belém: Tu, Belém, no território de Judá, em nada és o menor dos povoados de Judá, pois de ti sairá um chefe, o pastor do meu povo Israel (Mt 2,6 revisitando Miquéias 5,1). O que há no mundo de mais estúpido que a pobreza, o que há de mais frágil que uma criança, e uma criança nascida num curral? Os profetas, os empreendedores do deus-mercado, assim como o senso pós-moderno, nunca teriam pensado numa solução desse tipo. Ele, o menino de Belém, é a realização das promessas agora cantadas por Maria, sua mãe: Socorre Israel, seu servo, recordando a lealdade prometida a nossos antepassados, em favor de Abraão e sua descendência para sempre (Lc 1,54). Enquanto Cesar Augusto se apoia na pax romana, o menino de Belém é todo cercado de fraqueza, de impotência e de pobreza, mas espalha, nas mentes e corações de boa vontade, alegria, paz, justiça, esperança e salvação: Deus escolheu os loucos do mundo para humilhar os sábios, Deus escolheu os fracos do mundo para humilhar os fortes (1 Cor 1,27). Toda vez que celebramos o Mistério do Senhor na Eucaristia, o Menino Deus nos transforma em comunidades unidas pela Palavra e pelo Pão, sinais não menos humildes que a manjedoura de Belém.

Feliz Natal!

Pe. Jarbas Brandini Dutra
Paróquia Nossa Senhora do Sagrado Coração – São José do Rio Preto

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