A leitura da realidade, a partir da fé, permanece como um legado fundamental do Concílio. Toda a Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos. Esse espírito e “método” conciliares fazem com que a Igreja, pensada e sugerida pelos padres conciliares, permaneça sempre atual, não obstante as mudanças históricas. Com essa regra, a Igreja concretiza sua missão na medida em que é empática, acolhedora e solidária com a humanidade, ou seja, com as pessoas e as sociedades concretas. No mundo em transformação, marcado sempre por ambiguidades, a Igreja deve ler permanentemente os sinais dos tempos para poder exercer sua missão como discípula fiel do Senhor da história.

A missão evangelizadora se faz no diálogo com as realidades concretas em que a Igreja se encontra inserida. Ressoa em nossos ouvidos o mandato conciliar: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS, n. 1). Não se trata de uma norma, mas de uma postura que exige conversão permanente dos sujeitos cristãos, em cada tempo e realidade. Ser discípulo é estar em saída de si mesmo na busca do outro, ensina-nos o Papa Francisco. Tal saída não dissocia o encontro com Cristo e com o outro. Trata-se de uma mesma empatia e de um mesmo encontro que realiza a missão encarnatória da Igreja na história (cf. EG, n. 115). Essa cultura do encontro e da solidariedade constitui o antídoto à cultura individualista hoje reinante, assim como o caminho para a renovação missionária da Igreja com todos os seus sujeitos e estruturas.

A alegria do Evangelho não é nem uma ideia nem um estado de bem-estar individual, mas um encontro real com Jesus Cristo na vida do irmão (cf. EG, n. 127-128). A partir desse encontro, a Igreja exerce sua missão e constrói a si mesma em suas estruturas e em seus objetivos e estratégias. Todos são chamados a vivenciar esse encontro e comunicá-lo por gestos e palavras. Quem realiza esse encontro se torna apto a evangelizar. Jesus ressuscitado envia a todos pela força de seu Espírito; impele-os a sair de si na direção do outro, para construir com Ele uma comunidade de amor e uma sociedade fraterna e solidária. Os serviços e ministérios que cada cristão exerce na Igreja e como Igreja são respostas aos dons que cada qual recebe do Espírito do Ressuscitado e que visam à construção da comunhão na diversidade, da vida comum na liberdade, da relação fraterna entre as diferenças. É dessa escola de liberdade e fraternidade que todo cristão sai para a construção do Reino, nas várias realidades, por meio do diálogo com as muitas diferenças que hoje compõem o mundo globalizado, e na luta pelos direitos comuns de todos, homens e mulheres.

Com toda a Igreja, o laicato está em saída para a missão evangelizadora. Essa convocação implica conversão e aprendizado; conversão que significa romper com as estruturas que impedem o dinamismo do anúncio, sejam as estruturas internas que nos fecham nos mundanismos da vaidade e da prepotência ou do comodismo e do hedonismo religioso, sejam as estruturas organizacionais que nos consomem em suas regras e nos fecham em grupos de afinidades pouco operantes. O leigo em saída é a Igreja referenciada pelo Reino e direcionada para o mundo, onde deve se encarnar como fermento na massa, sal da terra e testemunha como luz.

Fonte: Doc. 107 – CNBB

Pe. José Eduardo Vitoreti

Pe. José Eduardo Vitoreti

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