Ponderações sobre as relações interpessoais e Catequese

03padrevaldinei3Dentre as tantas dores e sofrimentos que perpassam o nosso tempo, Zigmunt Bauman (1925-2017), pensador da  “liquidez do mundo”,  conversa com Leonidas Donskis sobre a cegueira moral, mal que invade nossas relações interpessoais. Talvez a leitura desse livro (1), costurada com o documento 107 da CNBB, possa lanças luzes sobre o itinerário catequético que temos empreendido.

O texto de Bauman traz questões pertinentes: que tipo de relações temos atualmente? A que podemos compará-las? O que nos interessa na vivência com o outro? Que riscos corremos? Quais as saídas? Questões que afetam a nós,  catequistas. A Iniciação à Vida Cristã é uma inserção na vida comunitária, é um azeitamento nas relações interpessoais, é um estímulo à  convivência fraterna, é aposta na comunhão e participação… isto, segundo os autores, está na contramão da modernidade liquida.

Hoje, as relações que os indivíduos estabelecem entre si são relações sem obrigações, sem predeterminações , sem hipoteca do futuro. Não se  pode “cobrar” nada do outro, nem exigir nada dele, são “relações puras”,  sem “nós”, onde é possível ouvir o indivíduo dizer: “preciso de mais espaço!”, com isso significando menos proximidade e interferência do outro, a liberdade individual não pode ser subestimada, nem submetida. Diz Bauman: “O único alicerce e única razão para que a relação continue, como se tem dito, é a quantidade de satisfação mútua, com ela obtida”. Para manter a satisfação tudo é válido, não há limites ou convenções preestabelecidas, não necessita de avaliação e regulação morais, nem há lugar para isso!

Com que se parecem essas relações? Que imagem poderíamos usar para compreendê-las? Bauman compara-as à relação de consumidor-mercadoria. Nenhum consumidor jura lealdade aos produtos que compra. Ele só continuará adquirindo um produto enquanto sentir satisfação. No instante em que o interesse desapareça ou surja um outro, que supere ou proporcione satisfações novas, ele deixará de comprar aquele. Nesse sentido não há compromissos, nem vínculos; troca-se o produto “sem crise” ou angústia. Esse rompimento da relação é unilateral e, muitas vezes, aterrorizante. Poderíamos alargar essa metáfora para o mundo religioso. Há um mercado das religiões onde os fiéis fazem suas buscas trocando essa igreja por aquela, inúmeras vezes, sem pudor, dizendo: “é um Deus só!”. Como essa fragilidade de vínculo afeta nossa catequese?

Bauman aprofundando mais as ideias afirma que nesse contexto das inter-relações  surge o termo “rede” que vem substituir os (defasados?) conceitos de “comunidade” e “comunhão” para afirmar o direito do indivíduo.  “Ao contrário de comunidades, as ‘redes’ são construídas individualmente, e como tais remodeladas ou desfeitas, e se baseiam na vontade do indivíduo de ser seu único, embora volátil, alicerce”. Estar “em rede” é estar conectado (voluntária e pessoalmente) a indivíduos descomprometidos uns com os outros; preservando o direito unilateral de abandoná-la quando quiser. (cf: IVC  §.53,c). Esse ponto exige dos catequistas uma especial atenção, lembrando o documento 107,  “com o processo de iniciação…as pessoas são iniciadas no Mistério de Cristo e na vida da Igreja. Não é como um curso que termina em festa de formatura, nem se trata de mera devoção particular. Quem é iniciado se insere na Igreja e assume os compromisso da missão a que ela se dedica.” (§.94). Aqui vem a pergunta: não é um desafio garantir uma experiência de fé comunitária para quem busca satisfação pessoal? Como despertar no indivíduo o gosto pelo comunitário?

 O documento 107 diz:  “o processo de Iniciação à Vida Cristã requer a acolhida, o testemunho, a responsabilidade da comunidade. Quem busca Jesus precisa viver uma forte e atraente experiência eclesial. A iniciação dos chamados ao discipulado se dá pela comunidade e na comunidade.” (§ 106) É preciso lembrar que é um caminho composto pela a comunidade (com graça e pecado) e pela pessoa (com limites e desejos); sujeitos que se implicam e se envolvem num processo de amadurecimento e seguimento do Mestre. O documento adverte: “diante do pluralismo religioso e cultural, muitas pessoas procuram viver a fé cristã de modo privatizado, multiplicando devoções pessoais e espiritualidades intimistas. Contudo, mesmo que cada um possa ter um jeito pessoal de ser religioso, ‘a fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva’. É impossível crer sozinho. Deve haver uma unidade no meio da diversidade dos sentimentos e estilos de cada um. Tal unidade é encontrada sobretudo na liturgia, ponto comum de chegada e de partida da fé e da vida cristã”.( § 225). Corremos o risco de, preocupados em acolher, deixarmos de evangelizar? Como conciliar o anúncio querigmático e a satisfação dos desejos individuais? É possível?

Bauman recupera um conceito grego para compreender e nomear as atuais relações interpessoais: ADIAFORIZAÇÃO.  Esse é um esforço para colocar as ações (ou inações) fora do eixo moral-imoral, livrando os feitos humanos das avaliações morais,   estratagema para declarar uma situação “neutra” moralmente. Adiaforização é a indiferença diante dos fatos, o “não se deixar sofrer com eles”,   tomar os acontecimentos com irrelevância, não se deixar atingir. Segundo ele, a superexposição aos fatos, mesmo que chocantes, cria uma barreira que evita o sofrimento, o envolvimento. É uma “indiferença” protetora, uma carapaça, um escudo que o indivíduo usa para não se deixar atingir e não ter de se envolver. Os fatos se tornam números, as vítimas se tornam notícias… não nos movem, não há contatos. Surge a questão: corremos o perigo de perder nossa capacidade de acompanhar o que está acontecendo no mundo e de nos solidarizarmos com as pessoas que sofrem? Os indivíduos vão se tornando insensíveis e invisíveis?

. “A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo” (Mt 13,20s)

A catequese é desafiada a restabelecer vínculos, proximidades, confiança, encontro. Ao modo de Jesus com a Samaritana, a igreja deve aproximar-se, vencer as “distâncias” e propor uma descoberta do sentido da experiência da vida. De tantos males que afetam nosso tempo nessa mudança de época ( o Papa Francisco elencou vários deles na Alegria do Evangelho), a questão da indiferença com as dores e dramas dos outros (“cada um no seu quadrado”) e da invisibilidade das pessoas deveriam levar a catequese a recuperar o gosto da individualidade, da proximidade, do serviço, da solidariedade, da gratuidade, da comunhão, do diálogo, da profundidade, da entrega, da cruz…valores, sem o quais, não acontece o Reino, nem a catequese. Conviria uma reflexão sobre o papel do sofrimento voluntário, do valor do “perder” para ganhar, “morrer” para viver, “dar” para receber. “A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem outro sessenta e outro trinta” (Mt 13,23)

Zigmunt BAUMAN e Leonidas DONSKIS in Cegueira Moral (a perda da sensibilidade na modernidade liquída). RJ. Ed Zahar. 2014

Pe. Vladimir Barbosa Hergert

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