Roteiro celebrativo para o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor – 2020

Observação: Ressaltamos que neste ano de 2020, por conta da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), conforme decreto do senhor bispo diocesano (Prot. 114.20), as celebrações da Semana Santa devem ser celebradas na igreja matriz de cada paróquia sem a presença do povo. Alguns ritos devem ser omitidos – no caso do Domingo de Ramos, a bênção dos ramos. A procissão seja feita conforme a terceira forma do missal romano.

 

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR

ANO A

05 de abril de 2020

Leituras:

     Mateus 21,1-11 (Evangelho da bênção dos ramos). Hosana no mais alto do céu.

     Isaías 50,4-7. O Senhor Deus me presta socorro.

     Salmo 21/22,8-9.17-20.23.24. Anunciarei vosso nome a meus irmãos.

     Filipenses 2,6-11. Foi obediente até à morte, e morte de cruz!

     Mateus 26,14-27,66 ou 27,11-54. Ele era mesmo o Filho de Deus.

 

“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR!”

 

PONTO DE PARTIDA

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. O Domingo de Ramos é a porta de entrada da Semana Santa. Chegamos, finalmente, a Jerusalém. Com a celebração de hoje, entramos na “Grande Semana” ou mais conhecida “Semana Santa”. Apoiados na Palavra de Deus, vimos Jesus e percorremos com ele, durante toda a Quaresma, uma longa caminhada até aqui. Ouvimos e meditamos a Palavra de Deus que nos convoca à conversão em vista da alegria da Páscoa. Fizemos penitencia. Rezamos bastante. Participamos dos círculos bíblicos, dos encontros na rede de comunidades, da Via Sacra, onde refletimos em torno do tema da Campanha da Fraternidade.

Durante esta semana somos levados a rever e rememorar os acontecimentos finais da vida de Jesus Cristo. O auge da Semana Santa é o Tríduo Pascal: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa (ou da Paixão e morte de Jesus) e Sábado Santo (ou Vigília Pascal.

Estamos em Jerusalém, o cenário principal em que acontece a nossa Páscoa. Saudemos com Hosana o Filho de Davi, em sua entrada em Jerusalém. Vamos ao seu encontro com ramos nas mãos e O acolhamos em nossas vidas

 

REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos

Evangelho da bênção – Mateus 21,1-11. O primeiro texto bíblico de hoje é o Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, última etapa da subida à Cidade Santa (Lucas 18,31-43). O texto é chamado de Evangelho da bênção.

A narração de Mateus contém duas citações do Primeiro Testamento: Zacarias 9,9 e Salmo 117/118,25-26. Entre os evangelistas, só Mateus, interpretando em chave messiânica a entrada de Jesus na Cidade Santa, cita fielmente o texto do profético de Zacarias 9,9. Anúncio e cumprimento estão unidos com a fórmula do costume: “Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado” (versículo 4). Uma outra ligação é estabelecida entre a ordem de Jesus e a sua execução pelos discípulos (cf. versículo 6; cf. Mateus 1,24). Em relação aos outros evangelistas, Mateus amplifica o acontecimento: “Numerosa multidão”; isto é, “Toda a cidade” (versículos 8.10; cf. Mateus 2,3).

A narrativa de Zacarias 9,9 serve de base para Mateus e de interpretação: um rei virá como Messias, mas num aparato pobre, contrastando com o aparato tradicional dos reis poderosos.

Cristo fazendo-se reconhecer nesta situação de pobreza, os discípulos e a multidão dirigem-lhe uma aclamação de inspiração messiânica (versículos 8-9). Este louvor é, sobretudo, inspirado pelo salmo 117/118, cântico da restauração da nova Jerusalém, característico da festa das Tendas, principalmente os versículos 9.26 e 27b: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (versículo 26a), que entrou para o canto do Santo da Missa Romana; “É melhor abrigar-se no Senhor do que confiar nos nobres” (versículo 9); “Formai procissão com ramos até aos ângulos do altar” (versículo 27b).  No entanto, Mateus introduz nele um título que aumenta o alcance messiânico e real da citação: “filho de Davi”.

Na descrição da procissão feita por Mateus, a multidão agita os ramos que trazem nas mãos (Lucas ocidentaliza falando apenas dos mantos estendidos pelo caminho). A entrada de Cristo em Jerusalém está influenciada pelo ritual tradicional da “festa das Tendas”, também chamada de festa dos Tabernáculos onde havia justamente no hábito de agitar os ramos (Levítico 23,33-34). Na liturgia judaica, a festa das Tendas coincidia com as colheitas; ela encerrava o ano celebrando sua fecundidade, e invocava a bênção divina sobre o novo ano. Os versículos do Salmo 117/118, bem colocado para esta manifestação, tem o empenho de unir a parábola dos vinhateiros homicidas e outros versículos deste mesmo salmo, revelando que Cristo só será plenamente Messias depois de sua morte (Mateus 21,42). Os evangelistas situam a entrada de Cristo em Jerusalém nos dias que precedem a Páscoa, e não tanto com a festa das Tendas.

Assim a entronização do Messias passa pela Cruz; não há outro caminho que conduza à glória: é o mistério pascal.

Neste Evangelho seguem-se imediatamente, sem interrupção e como se tudo acontecesse no mesmo dia, a Cura dos Cegos de Jericó (Mateus 20,29-34), a Entrada em Jerusalém e no Templo (21,1-12a) e a Purificação do Templo de Jerusalém (21,12b-17). Um resumo mostra como Mateus uniu as três cenas e como ele transformou a viagem de Jesus desde a cidade de Jericó até o Templo em uma só grande encenação da vinda do Messias, o Filho de Davi, à Jerusalém/Sião.

Mateus ligou e relacionou as cenas ainda mais entre si pela repetição do título messiânico “Filho de Davi” (20,30.31; 21,9; 21,15); do verbo “gritar” (20,30.31; 21,1; 21,15) e da referência “à grande multidão”.

Na primeira cena Mateus diz que Jesus “cheio de compaixão” atendeu ao pedido dos cegos e os curou. Na segunda cena Mateus cita explicitamente, diferente de Marcos e Lucas, a profecia de Zacarias 9,9: “Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado em um jumento, em um jumentinho, filho de uma jumenta” (Mateus 21,5). A palavra, “manso” é a mesma de Mateus 5,4: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”.

Na terceira cena, dentro do recinto do Templo, Jesus é procurado “pelos cegos e coxos e aclamado pelas crianças”, enquanto os grandes e poderosos O criticam e O chamam à atenção. Esta parte da terceira cena (21,14-16) é totalmente própria de Mateus, isto é, não é citada por Marcos, Lucas e João.  E também só Mateus cita explicitamente o Salmo 8,3: “Nunca lestes que: Da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito preparaste um louvor para ti?”; (cf. Mateus 21,16).

As três cenas foram concebidas por Mateus e compostas como uma unidade literária. Elas começam e terminam com a cura de cegos

Primeira leitura – Isaías 50,4-7. O texto é do terceiro dos assim chamados “Cânticos do Servo de Javé”. Pertence a um profeta chamado Dêutero-Isaias que compôs Isaias 40-55 e exerceu sua missão em meados do século VI AC entre os exilados da Babilônia.  O poema abrange os versículos de 4-9. Nos versículos 5b-6 aparece a motivação típica (protesto de inocência) que prepara a súplica dos salmos de lamentação individual: “não fui rebelde, não me esquivei; aos que me feriam apresentei as minhas costas…” é preferível qualificar o poema como um salmo individual de confiança. De fato, a partir do versículo 7 se desenvolvem os dois motivos básicos de tais salmos: a afirmação de confiança e a certeza de ser atendido.

A lamentação individual no Antigo Testamento é própria de pessoa de bem em geral, que se consideram injustamente perseguidas. Entre elas aparecem sobretudo os mediadores, ou porta-vozes da Palavra de Deus, como Moisés (cf. Números 11,10-15; Deuteronômio 18,15-19), Elias (1Reis 19,1-18) e Jeremias (17,17-18;20,7-17). Eles sofrem precisamente em conseqüência da ingrata missão de mediadores.

Antes de tudo o profeta se apresenta como um discípulo (versículo 4a). Atento às palavras do Mestre, ele não guarda o conteúdo da mensagem para si, mas a transmite aos outros (cf. Jeremias 1,7; Ezequiel 2,3-3,4; Deuteronômio 18,18). Esta mensagem já não é uma palavra ameaçadora como nos profetas pré-exílicos, mas uma palavra libertadora, capaz de reconfortar os desanimados (cf. Isaias 40,6-11.27-31; 41,14; 42,1-7; Ezequiel 37,11). Como profeta ele está continuamente atento às palavras que recebe de Deus (cf. Jeremias 15,16: “Todas as manhãs ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo” (versículo 4b). somente assim torna capaz de levar sua missão em frente sem desfalecer (versículo 5). Como outros profetas (cf. Amós 7,10-17; Miquéias 2,6.10; Jeremias 20, 7-18) também o Dêutero-Isaias sofreu o desprezo e a perseguição (versículo 6) da parte de seus ouvintes no exílio, por causa da mensagem que proclamava. Presume-se que o motivo dessa reação da comunidade exílica contra o profeta tenha sido o seu universalismo, pois anunciava o reino messiânico também aos pagãos (cf. Isaias 45,14; 49,6). Mas como os justos perseguidos dos salmos de lamentação individual (cf. Salmo 5; 6; 22, etc.), ou como Jeremias (15,17, 17,13; 20,11), o profeta põe toda a sua confiança em Deus, que o fortifica (versículo 7) e frustrará os insultos dos adversários (versículo 8-9).

Também Jesus está animado da mesma confiança dos profetas que sofreram por causa da mensagem que deviam anunciar. Inspirado na figura do Servo Sofredor, Ele entra resolvido em Jerusalém para levar a sua missão até o fim. Ali enfrentará toda espécie de desonra por causa de sua doutrina, na certeza do apoio divino que o levaria à vitória final.

Qual é o personagem que se esconde atrás do título “servo”, tão rico de conteúdo para p pensamento cristão? É um dos problemas do Primeiro Testamento mais discutidos pelos entendidos. Tem-se formulado numerosas hipóteses de interpretação. Há três correntes maiores.

A primeira vê o Servo de Javé um indivíduo, distinto do povo (em Isaias 49,6 e 53,3-8 ele desempenha um papel junto ao povo, enquanto nas outras partes e Dêutero-Isaias a expressão “o Servo de Javé” indica o povo todo!). Mas não se chegou a um acordo a respeito desse personagem. Trata-se de uma figura do passado (Moisés; Davi ou um de seus descendentes); ou no futuro (o Messias; um rei glorioso dos fins dos tempos)? A dificuldade não vem de hoje. Ela já aparece no Novo Testamento: “De quem disse isto o profeta: de si mesmo ou de outro?” (Atos 8,32-35).

De qualquer modo unem-se na figura do Servo de Javé traços proféticos e reais. E ele é também salvador, sacerdote e vítima ao mesmo tempo que, pelos seus sofrimentos, “intercede pelos culpados” (Isaias 53,12). Ele tem uma missão missionária junto a todos os povos.

A segunda corrente dá à expressão “Servo de Javé” um sentido coletivo. Ele não vê no Servo um indivíduo, distinto do povo de Israel. É o povo que será luz das nações; que deverá sofrer a perseguição e a morte pela salvação dos povos. Admite-se que se trataria de um grupo pequeno de fiéis no meio do povo. Seria o pequeno resto que permanece fiel a Deus e que deve servir de testemunha aos demais membros do povo e às nações.

A terceira corrente as duas anteriores. Ele dá a expressão um sentido representativo. Usa-se o termo: personalidade corporativa. O Servo de Javé incorporaria na sua pessoa todo o povo, seu passado e o seu futuro. O profeta que escreveu os cantos teria projetado nele o verdadeiro Israel. O Novo Testamento proclama a realização destas expectativas em Jesus de Nazaré, na sua vida, paixão e morte, e ressurreição.

Salmo responsorial 21/22,8-9.17-18a.19-20.23-24. O Salmo é uma súplica a Deus numa hora de sofrimento e abandono. Salmo de grande intensidade, expressa em imagens vigorosas, em pedidos insistentes, e também numa esperança triunfante.

O limite do sofrimento é sentir o abandono de Deus, que parece não ouvir a oração. A gozação das pessoas redobra a dor do salmista, seu sentimento de abandono; contudo, são também um argumento para mover a Deus, ao qual os insultos atingem. Do extremo da dor passa para o a segurança da esperança: a salvação é certa, próxima, e já pode convidar a comunidade a unir-se com ele no louvor a Deus.

A lamentação e a prece de um inocente perseguido terminam em ação de graças pela libertação esperada (versículos 23-27 e adaptam-se à liturgia nacional pelo versículo 24 e o final universalista (versículos 28-32, em que a vinda do Reino de Deus no mundo inteiro aparece logo após as provações do servo fiel. Próximo do poema do Servo Sofredor (Isaias 52,13-53,12), este salmo, cujo início Cristo pronunciou sobre a cruz e no qual os evangelistas viram descritos diversos episódios da Paixão, é, portanto, messiânico, ao menos em sentido típico. É a súplica de uma pessoa num momento de intenso sofrimento e abandono, retomada por Jesus no momento angustiante de sua cruz, entreguemos ao Pai a nossa vida e a vida de tantos irmãos e irmãs que passam pelo vale do sofrimento e da morte.

O rosto de Deus no Salmo 21/22. Há uma relação íntima e pessoal entre o justo e Deus, a ponto de o justo chamá-lo de “meu Deus”. Os antepassados confiavam em Deus e eram libertos (versículos 5-6). Por causa desse Deus da Aliança é que essa pessoa tem a coragem e a confiança de clamar. A imagem mais bela de Deus neste Salmo é, portanto, a do Deus que ouve o clamor do pobre injustiçado e o liberta, fazendo-o cantar hinos de louvor (versículos 23-27). Aparece de maneira clara o rosto de um Deus libertador.

De acordo com Marcos (15,34) e Mateus (27, 46), Jesus rezou este Salmo na cruz. Ele, portanto, é o justo inocente que clama confiante. E Deus lhe responde com a ressurreição. Jesus em toda a sua vida ouviu todos os clamores do povo e atendeu com misericórdia. Ele é, portanto, a resposta do Deus que ouve os clamores e liberta.

Segunda leitura – Filipenses 2,6-11. No contexto de uma exortação de Filipos, Paulo cita um hino cristológico. Através desta citação sugere que as principais coordenadas da salvação operada através de Cristo marquem a existência cristã. Estas coordenadas aparecem na estrutura do hino. Seu tema central são a humildade e a disponibilidade do serviço do Messias Jesus. Ele não quis se beneficiar de privilégios de ser Filho de Deus, mas diminuiu-se para se tornar um de nós, como nós. E somos convidados a ter os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus.

Na glorificação (doxologia) “Jesus Cristo é o Senhor” em que culmina o hino, dirige-se a Jesus o nome que no Primeiro Testamento é reservado a Deus. Conforme o hino, Jesus, morto na cruz e depois exaltado, recebe de Deus e da comunidade o nome de “Javé”. Antes Ele não tinha este nome. Ele era Deus preexistente. Assumindo a natureza humana poderia ter-se valido desta igualdade com Deus Pai. Ma ao tornar-se homem e inaugurar a Sua missão preferia apresentar-se á humanidade como servo de Deus e não como senhor do universo. Esta preferência não era somente de ordem subjetiva, mas de ordem objetiva. Ele revela que a pessoa humana se realiza mais na submissão a Deus do que no senhorio sobre o mundo e o universo. A soberania da pessoa humana só será plenamente humana se e na medida que ela for serviço de Deus. O fato que Jesus recebe o senhorio sobre o universo depois de Sua obediência até a morte revela que nela não há nada de usurpação.

“Jesus é Javé”. Esta confissão de fé ou glorificação (doxologia) não é uma divinização ou deificação indevida que existia no mundo no mundo greco-romano, em que reis e imperadores se deixavam idolatrar como deuses. Não era uma blasfêmia para os primeiros cristãos e não o é para nós, porque nela se professa que se procura a salvação em alguém que deu honra a Deus e recebeu honra de Deus. “Esvaziou-se (ou: aniquilou-se) a si mesmo… feito obediente até a morte da cruz”. Na confissão de fé “Jesus é Javé” professamos que Deus deu razão a Jesus e que nós também Lhe damos razão. Isto não é blasfêmia, porque nisso também professamos que a realização plena da pessoa humana existe na dependência absoluta de Deus antes, durante e depois da morte; e que, por isso, pode-se arriscar a vida pela glória de Deus.

Evangelho – Mateus 26,14-27,66 ou 27,11-54 (mais breve). De muitas maneiras o evangelista Mateus conseguiu expressar a sua própria teologia e cristologia, recordando a Paixão de Jesus. Alguns elementos sobre a Paixão de Jesus são exclusivos de Mateus: as palavras de Jesus a respeito de Judas Iscariotes “Ai daquele homem por quem o Filho do Homem for entregue!” (Mateus 26,24), e ao mesmo Judas na hora do beijo da traição, Jesus respondeu-lhe, “Amigo, para que estás aqui”? (Mateus 26,50), e a notícia do trágico fim de Judas, “Judas, que o entregara, vendo que Jesus fora condenado, sentiu remorsos e veio de devolver aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo: ‘Pequei, entregando sangue inocente’. Ele, atirando as moedas no Templo, retirou-se e foi enforcar-se” (Mateus 27,3-5), os motivos pelos quais não se deve recorrer à espada, isto é, à vingança “Guarda tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão” (Mateus 26,52), a intervenção da esposa de Pilatos “Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher lhe mandou dizer: não te envolvas com esse justo, porque muito sofri hoje em sonho por causa dele”, o protesto de inocência de Pilatos que lava as mãos “Vendo Pilatos que nada conseguia, mas, ao contrário, a desordem aumentava, pegou água e lavando as mãos na presença da multidão, disse: Estou inocente desse sangue. A responsabilidade é vossa” (Mateus 27,24), a aclamação do povo que assume a responsabilidade da morte de Jesus depois da declaração de Pilatos “Todo o povo respondeu: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” e o pedido da autoridade judaica para se colocarem guardas na entrada do sepulcro “Que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: ele ressuscitou dos mortos” (Mateus 27,64).

Constata-se na versão de Mateus o lugar importante do tema da realização das Escrituras. Mateus prova aos judeus-cristãos, que esperavam um Messias triunfante e glorioso, que as profecias também prevêem um Messias sofredor e que as Escrituras previam o desenvolvimento da Paixão nos mínimos detalhes.

A agonia de Jesus no Getsêmani estava assim prevista pelo Salmo 41/42. Desde a prisão de Jesus, Mateus ressalta que tinha que ser assim, para “realizar as Escrituras” (26,54-56), refutando assim a opinião que desejava uma resposta armada a respeito da prisão de Jesus.

Tanto Marcos como Mateus insistem sobre o fato de que Jesus nada responde a Pilatos. Lembrando assim o silêncio do Servo sofredor diante das injúrias (Isaias 53,7). Mateus ressalta que a bebida oferecida a Jesus na cruz era vinho com fel e comprova assim o texto do Salmo 68/69,22 cf. Mateus 27,34. Mateus também é o único que apresenta às zombarias pronunciadas pelos judeus em relação a Jesus crucificado: “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar!” (Mateus 27,42).

Durante o inquérito Pilatos recebe o recado de sua mulher a respeito do sonho. É interpretado como um testemunho divino da inocência de Jesus. No Primeiro Testamento e no próprio Mateus os sonhos têm este sentido religioso. Eles comunicam profecias (cf. Gênesis 37,5-10; 40; 41; Juízes 7,13ss; Daniel 2,1; 4,2; Ester 10,5, etc.), revelações de verdades desconhecidas (cf. Jó 7,14; Sabedoria 18,17) e recados (Mateus 1,20-23; 2,12.13.19-22). Provavelmente Mateus viu no sonho um testemunho da inocência de Jesus, muito mais do que um aviso a Pilatos.

Mateus além da coroa de espinhos menciona que puseram “na mão de Jesus uma vara”. Esta vara certamente substituía o símbolo da realeza, o cetro. Os judeus zombavam de Jesus como Messias (26,68), os soldados romanos como rei. Somente Mateus diz que zombavam da pretensão de Jesus de ser o Filho de Deus (versículos 40 e 43).

Além dos fenômenos que Mateus tem em comum com Marcos e Lucas (as trevas: versículo 45; a rasgadura do véu do Templo: versículo 51a), há alguns que somente ele menciona, como, o terremoto, a rachadura das rochas e a ressurreição de “muitos santos” que “entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas” (versículos 51-53). Alegando todos estes fenômenos, Mateus provavelmente quis sugerir que com a morte de Jesus chegou “o dia do Senhor”. Os terremotos são os fenômenos anunciados pelos profetas para o dia do Senhor (Amós 8,9. O conjunto desses fenômenos certamente quer sugerir que o dia da morte de Jesus é “o dia do Senhor”, que marca um corte na história da salvação.

Mateus é finalmente o único a mencionar a riqueza de José de Arimatéia (Marcos fala de sua notoriedade e Lucas de sua piedade), com a preocupação de comprovar a profecia de Isaias 53,9: “Seu túmulo está com os ricos”.

O véu rasgado torna caduca a antiga Aliança, o terremoto introduz a Nova Aliança selada no Seu sangue. A fé do centurião romano anuncia a conversão das nações pagãs. Dando o corpo de Jesus aos “discípulos”, os sumos sacerdotes renunciam voluntariamente de suas prerrogativas e deixam para a Igreja o cuidado de ser sinal de Cristo no mundo.

Uma das características próprias de Mateus, é a menção dos guardas na cruz de Jesus (Mateus 27, 36 e 54) e, sobretudo no túmulo (Mateus 27,62-66), citação que os outros evangelistas não fazem. A chave desta citação é dada pelo próprio Mateus em 28,11-15.

A fé de Mateus em Cristo é tão forte que chega a compor uma narrativa para destruir a mentira dos judeus. O importante é que ele é fiel a uma história mais verdadeira, a de sua fé de rabino judeu convertido a Jesus Cristo.

 

DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

“Jesus entra em Jerusalém como rei messiânico, humilde, pacífico, em atitude de serviço, e não de poder. Ele é o Servo paciente” que se encaminha para enfrentar pacificamente, sem violência, a humilhação e o aparente fracasso, impostos pela maldade humana. Mas ele entra para vencer! Como? Pela violência não violenta do amor. “O caminho de Jesus e, portanto, também do cristão é o paradoxal: pelo fracasso da Cruz ao triunfo, pela derrota à vitória, pela humilhação à glória, pela morte à vida e à ressurreição”(B. Caballero).

Jesus entrou em Jerusalém. Até chegar aí, ele havia feito um caminho. Durante três anos havia percorrido a Judéia e a Galiléia como missionário de Deus, anunciando o projeto do Pai em relação aos seres humanos. Muitos fatores e circunstâncias suscitaram a inimizade, a inveja e o ódio dos chefes político-religiosos do povo judeu. “Sua mensagem de amor, de serviço e de pobreza, sua Boa-Nova de salvação para os pobres, seus milagres como sinais do Reino de Deus, sua denúncia profética da religião ritualista e do culto vazio do templo de Jerusalém… sua proclamação de uma lei e religião novas fundadas no espírito , na verdade e no amor, suas bem-aventuranças que são uma inversão completa dos valores humanos em moda por outros critérios e atitudes revolucionárias, e toda uma série de encontros, discussões e invectivas com os escribas e fariseus da lei mosaica, foram preparando o desenlace final. Seus inimigos conseguiram, enfim, legitimar sua condenação à morte pressionando Pilatos, o poder civil romano, e com a anuência de grande parte do povo, enganado por eles” (idem).

Naquele instante chegara a hora de Jesus enfrentar a tentação derradeira. Usar violência? Não! Desistir? Também não! Se Deus é amor, Jesus, como enviado de Deus, jamais poderia usar da violência. E se ele é enviado para salvar os seres humanos, também não poderia desistir da missão, custasse o que custasse. Ele sentiu a tentação de descumprir a vontade de Deus: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”, desabafou Jesus no meio da angústia. Mas ele conseguiu vencer a tentação de realizar seus próprios interesses: “Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!”, falou Jesus para o pai. Ele enfrentou todos os sofrimentos de sua paixão, tanto físicos (torturas, flagelação, coroação de espinhos, crucificação) como psíquicos (traição de Judas, preço de escravo à sua pessoa, negação de Pedro, deserção geral de seus discípulos, ingratidão do povo judeu, inveja e ódio de seus chefes religiosos). Enfrentou com amor, com espírito de entrega, como alguém que não veio para ser servido, mas para servir, personificando a eterna misericórdia de Deus. Por isso que, do alto da cruz, suas palavras foram de perdão e entrega: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem”. Ao bom ladrão disse: “Hoje estarás comigo no paraíso”. E, enfim: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”.

Assim como profetizou Isaías a respeito do Servo sofredor, este Servo é o próprio Jesus, como ouvimos hoje: “Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas. Sei que não serei humilhado…Por isso não me deixei abater o ânimo”. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, gritou ele. Mas não se deixou vencer pelo sentimento de abandono. “Humilhou-se a si mesmo”, sim. Por esta razão, pela não-violência do amor à humanidade, “Deus o exaltou acima de tudo”.

Um exemplo interessante é a cegueira das autoridades que, obcecadas pelo poder político-religioso, não conseguiram (ou não quiseram!) enxergar em Jesus a presença viva do próprio Deus, e assim mataram um inocente. Isto também acontece muito entre nós, infelizmente! E um terceiro exemplo é a postura de Jesus que, como enviado do Pai, venceu a tentação da violência, que só quer “levar vantagem em tudo”. Vítima de uma grande violência, não respondeu com violência igual. Seu exemplo é o da misericórdia, do perdão, da não-violência ativa, do serviço a todos, da entrega de si a serviço da vida. Isto da mesma forma acontece em nossas comunidades… graças a Deus! Existem tantas pessoas com posturas muito parecidas com a de Jesus, que não se deixam dobrar pela tentação da violência, qualquer que seja. Felizes delas!

 

A PALAVRA SE FEZ CARNE E SE FAZ CELEBRAÇÃO

A alegria da Páscoa

A tradição litúrgica do ocidente conhece uma expressão bem pouco lembrada para compreender e celebrar o mistério da Paixão do Senhor: beata passio. Pius Parsch, agostiniano austríaco, grande nome que contribuiu para a reforma litúrgica do Vaticano II nos lembra, em artigo não muito distante, que “É importante lembrar a profunda diferença entre os velhos sentimentos dos cristãos de hoje. Como a piedade popular acha que é a Paixão de Cristo? Ela adere ao sofrimento histórico do Senhor, ela tenta imaginar de uma maneira vívida as cenas especiais do ‘amargo sofrimento’, ele analisa os sentimentos e pensamentos do sofrimento Salvador, tem compaixão e ela chora.” Reitera, em seguida, que a liturgia, em contrapartida, não fica imóvel diante do sofrimento histórico do Senhor, mas, com sua inteligência, resgata o seu sentido mais genuíno e profundo: o reconhecimento de que, por sua páscoa, Jesus nos fez participantes de sua filiação. Por isso, a Oração eucarística I, na sua versão latina traz a feliz expressão beatae passionis quando, após a narrativa da instituição, recorda e oferece o sacrifício de Cristo, de nos fazer membros da vida divina por sua cruz e ressurreição. Tal expressão não permaneceu na versão portuguesa do Cano Romano. Mas, felizmente, é conservado na Antífona que acompanha o beijo da cruz na Sexta-Feira santa, um fraseado que lhe é semelhante: “Adoramos, ó Senhor, vosso madeiro; vossa ressurreição nós celebramos. Veio a alegria para o mundo inteiro por esta cruz que hoje veneramos.” Também o antigo hino “Crux Fidelis” nos lembra este sentido ao convidar para o louvor da Cruz de Cristo: Cantemos hoje em memória da luta que houve na cruz, este sinal de vitória, que todo um povo conduz; nela coberto de glória, morrendo, vence Jesus.”

O sentido do Domingo de Ramos

Olhando a liturgia do Domingo de Ramos por este ângulo, perceberemos que é importante escapar do romantismo de quem ainda pensa na insuperável ofensa a Deus pela morte do Redentor. Para a inteligência da fé é evento salvador, cumprimento das Escrituras na vida do povo (cf. Emaús Lucas 24,13-35). O Domingo de Ramos dá a chave para abrir as portas da Semana Santa, a fim de que os Mistérios aí celebrados sejam vividos não só corretamente do ponto de vista da ortodoxia da fé, mas que produzam frutos de verdade e justiça na comunidade dos fiéis e estes não fiquem presos aos sentimentos de pena quanto à morte do Senhor. Os sentimentos em torno da morte nos abrem à compreensão da dimensão da entrega do Senhor, mas por si só não dão testemunho da fé celebrada e vivida pela Igreja.

Ao celebrar a Páscoa de Cristo, sua Cruz e Ressurreição, sempre unidas embora o enfoque recaia sobre um ou outro aspecto, a depender da festa que se celebra, a Igreja canta o Mistério de se ver unida ao Filho, de se enxergar “ressuscitada com ele na glória” mesmo que isso signifique a partir da contemplação de seu sofrimento (cf. Oração do Dia).

 

LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Reconciliação e paz, vida para todos: eis a grande conquista da Páscoa de Jesus para todos nós. Então, depois de prepararmos a mesa para celebrar a presença do seu sacrifício salvador, do qual participamos neste domingo, o sacerdote reza em nome de toda a assembléia: “Ó Deus, pela paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, sejamos reconciliados convosco, de modo que, ajudados pela vossa misericórdia, alcancemos pelo sacrifício do vosso Filho o perdão que não merecemos por nossas obras”.

Deus merece todo louvor e ação de graças por ter-nos dado seu Filho tão profundamente solidário com o ser humano, a ponto de ele mergulhar no abismo de nossa própria morte para dela resgatar o ser humano pecador. Por isso, abrindo a grande oração eucarística, pela qual anunciamos a presença viva da Páscoa de Jesus e nossa, o sacerdote, em nome de todos, proclama solenemente: “Inocente, Jesus quis sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe vida nova”.

Enfim, uma vez alimentados pela presença vitoriosa do Senhor, na eucaristia que celebramos e comungamos, ouvimos a seguinte prece confiante que se eleva ao Deus altíssimo em nome de todos: “Saciados pelo vosso sacramento, nós vos pedimos, ó Deus: como pela morte do vosso Filho nos destes esperar o que cremos, dai-nos pela sua ressurreição alcançar o que buscamos”.

 

O SIMBOLISMO DOS RAMOS

O simbolismo da “arvore” é muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a “árvore do conhecimento do bem e do mal” e a “árvore da vida” (Gênesis 2,9; Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o povo de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal de que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de seu fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a saúde, carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis, profetas e sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma “oliveira selvagem” que foi enxertada na oliveira boa, Israel (Romanos 11,16-24).

Os ramos desta procissão são uma metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação vida-morte-vida. As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a morte, pois esses ramos secarão; mas elas também os “doam” para servir ao Senhor da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós como alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa forma, então, eles “morrem” para que nós tenhamos vida!

 

ORIENTAÇÕES GERAIS

  1. O Domingo de Ramos abre a. Semana Santa e conta boa participação da Comunidade. Por isso, e, sobretudo, pelo seu importante significado teológico e espiritual, deve-se dedicar imenso zelo na preparação das celebrações. Uma boa leitura do Lecionário, do Missal Romano, do Hinário II da CNBB, das rubricas dará indicações do que deve ser preparado, depois, obviamente, de sorver o sentido litúrgico oferecido pelos textos bíblicos e eucológicos na reunião da equipe de Liturgia.
  1. Três símbolos podem ser expressamente valorizados na celebração deste domingo: os ramos, a procissão de ramos e a proclamação do Evangelho da Paixão do Senhor.
  1. Há comunidades que celebram a primeira parte (bênção de ramos e procissão de ramos no Domingo) como celebração independente, e a liturgia da Paixão dias antes da Quinta-Feira Santa. É uma ótima prática. Mas não deve ser simplesmente imposta à comunidade. Deve-se primeiro combinar com todos.
  1. Os ritos iniciais desta celebração, nos quais se dá a bênção dos ramos, deveriam ser realizados a uma certa distância da igreja para que se possa depois fazer uma verdadeira procissão. Pode começar numa capela, na praça de um cemitério, se der uma distância boa, numa rua do bairro. Sendo capela rural, começar numa residência ou mesmo embaixo de uma árvore ou num outro lugar significativo. Deve ser um lugar mais ou menos distante da igreja. Se for uma comunidade de periferia, sair de um lugar significativo onde teve início algumas lutas populares por melhores condições de vida do bairro, ou de uma residência ou também de um ponto significativo.
  1. É bom que a procissão venha de uma capela para a matriz ou igreja maior. A unidade entre a procissão festiva e a missa marcada pela celebração da Paixão do Senhor pode ser feita através da cruz processional, que conduz a procissão e, na celebração eucarística, é colocada ao lado do altar.
  1. Cada pessoa leve o seu ramo enfeitado para a procissão. A equipe de celebração deve providenciar ramos para quem não trouxe. Além dos ramos pode-se também trazer plantas medicinais.
  1. A equipe cuide do visual, bonito, discreto, como forma de louvor a Deus.
  1. A cor litúrgica deste dia é o vermelho, lembrando a realeza de Jesus.
  1. Lembretes para a equipe de celebração: além das coisas costumeiras, é preciso preparar, no local onde começa a procissão, os seguintes objetos: ramos, mesinha para colocar os ramos, caldeira com água benta (se for o caso, incensório preparado com incenso), cruz para a procissão, castiçais e velas acessas, o Lecionário e o Missal Romano.
  1. Na procissão com os ramos: Neste dia o mais importante não é a bênção, mas a procissão com os ramos. A bênção é feita por causa da procissão. Por isso, não tem sentido nenhum fazer primeiro a procissão e depois a oração de bênção sobre os ramos.
  1. Deve-se conciliar a piedade popular, isto é, a devoção de muitas pessoas que vem mais para “benzer o ramo” com a exigência de maior aprofundamento da fé por parte daqueles que têm uma caminhada de comunidade.
  1. Durante a procissão, cantar de preferência cantos de acordo com o mistério celebrado. É importante cuidar do conteúdo e estilo dos cantos usados na procissão. O estilo indicado é dos hinos próprios que estão no CD Liturgia XIII e no Hinário II da CNBB gravado pela Paulus. O conteúdo é de aclamação ao Cristo Rei. Não é o momento de cantar cantos marianos ou ao Espírito Santo (“A nós descei”… “Vem Maria vem”…
  1. Onde não tiver condições de celebrar a procissão nem a entrada solene, no caso de capelas rurais e capelas de periferia muito distantes da matriz, faça-se uma “Celebração da Palavra de Deus”, sábado à tarde ou domingo em um horário que favoreça a participação de todos. A comunidade pode estar impedida de ter a Missa, mas não de se reunir e celebrar.
  1. Nos ritos finais: Na despedida, o presidente convida a assembléia a intensificar a oração e a vida comunitária nestes dias de preparação para a Páscoa. Lembrar aos que não trouxeram os envelopes da Campanha da Fraternidade, que tragam na Quinta-Feira Santa e entreguem no momento da procissão dos dons. O Missal prevê neste dia uma coleta para as pessoas necessitadas, página 249.

MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a celebração. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com o tempo litúrgico, com cada domingo, com as festas ou com a liturgia de um dia especial, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Domingo de Ramos, é preciso executá-los com atitude espiritual, isto é, de maneira orante. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado e não cantos que um grupinho ou um movimento impõe.

 

  1. Canto de abertura: “Hosana ao Filho de Davi!”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 14; “Hosana, hosana e viva!”, CD: Liturgia XIII melodia da faixa 15; “Hosana hei, hosana há”, ensaiado no encontro diocesano de liturgia sobre a Quaresma, Semana Santa e Tempo Pascal e está na página 439 do Ofício Divino das comunidades.

 

  1. Cantos durante a procissão: “Os filhos dos Hebreus com ramos de palmeira”, CD: Liturgia XIII; “Glória, louvor e honra a ti”, CD: Liturgia XIII; “Cristo vence, Cristo reina”, Hinário II, página 211; “Os filhos dos Hebreus, com ramos de oliveira”, Hinário II, pág. 29; “Os filhos dos Hebreus, com ramos de oliveira”, Hinário II, pág. 28.

Ao entrar na Igreja, cantar o Salmo 23/24 com o refrão próprio para este dia: “Os filhos dos hebreus”.

  1. Salmo responsorial 22/21: Oração na desolação. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, CD: Liturgia XIV, faixa 15
  1. Aclamação ao Evangelho: A obediência de Cristo até a morte na cruz. (Filipenses 2,8-9). “Salve, ó Cristo obediente”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 17.
  1. Canto de apresentação dos dons: O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. “Ó morte, estás vencida”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 18 ou no Hinário Litúrgico II da CNBB, página 267. Outro canto apropriado para esta ação ritual é: “Em Jerusalém, prenderam Jesus”, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 173.
  1. Canto de comunhão: O cálice de Jesus (Mateus 26,42). “Pai, se este cálice”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 19 “Oferecerei o seu sacrifício” Salmo 116/115, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 63; “Eu vim para que todos tenham vida”, CD: Liturgia XIII melodia faixa 13; “Prova de amor maior não há”, CD: Tríduo Pascal – I, melodia da faixa 18 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 286; “Eu me entrego, Senhor em tuas mãos”, CD: Tríduo Pascal – I, melodia da faixa 11 ou Hinário Litúrgico II da CNBB página 34; “Se o grão de trigo não morrer”, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 21.

 

O ESPAÇO CELEBRATIVO

  1. É costume em nossas Igrejas e Oratórios, as comunidades ornarem toda a construção com Ramos. Algo que pode ficar muito bonito e construir um “baldaquinho” com Ramos sobre a Mesa do Altar. Nada sofisticado, mas simples. O baldaquinho evoca a Tenda, lugar da presença e esteve presente em muitas construções sagradas do Cristianismo. Em Roma, é famoso o Baldaquinho de Bernini, arte barroca no centro da Basílica de São Pedro. É importante, porém, que o Baldaquinho não tire a visibilidade do Altar, dificulte o acesso ou “concorra” com ele, mas manifeste a sua dignidade e importância. O baldaquinho pode ser preparado com antecedência, ou pode ser levado ritualmente durante a celebração, conforme sugerimos abaixo em “Ação Ritual”. Veja o gráfico de sua representação.
  1. A preparação do espaço deve manter a reserva simbólica, própria do Tempo da Quaresma. A ornamentação com folhagem de palmeira deve ser discreta. São as pessoas quem deve portas ramos. Cuide-se para não transformar a igreja numa floresta…
  1. O local da celebração pode ter o corredor central coberto por ervas aromáticas. Uma vez pisadas exalarão delicioso perfume. Esse é um costume antigo das celebrações estacionais, ainda praticado em Roma.
  1. Para simbolizar esta realidade da celebração, podemos fazer um arranjo especial para este dia que está no livro “Arte floral a serviço da liturgia”, página 78-79, Edições Paulinas.

 

AÇÃO RITUAL

Fazer uma acolhida muito fraterna e pessoal a quem chega para a celebração, principalmente os visitantes. Que todos possam sentir sua dignidade humana respeitada e sua identidade cristã reconhecida. Não devemos esquecer que os ritos iniciais, com o sentido de formar o Corpo vivo do Senhor, sejam bem valorizados neste domingo e sempre.

Jesus se aproxima da descida do monte das Oliveiras quando toda a multidão dos discípulos começaram, alegres puseram-se a louvar a Deus com voz forte por todos os milagres que tinham visto. Eles diziam: “Bendito seja aquele que vem, como rei, em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto dos céus!” (Lucas 19,37-38).

Enquanto o povo vai chegando, criar um clima orante através de refrões meditativos preparando os corações para a celebração.

Ritos Iniciais

  1. A Liturgia de Ramos nos prepara também para a Paixão de Jesus. Agitando palmas, símbolo da vitória contra o mal, iniciamos nossa caminhada com Jesus em direção ao Reino definitivo.
  1. O presidente introduz a procissão, dando-lhe o sentido de oração feita com os pés e todo o corpo para seguirmos Jesus hoje em nossa missão. Na Igreja Armênia, uma grande cruz processional representa o Senhor e vai na frente da procissão. O padre pega um ramo e o prende na haste da cruz.
  1. Procurar envolver todas as crianças nesta celebração mesmo as que não estão na catequese. Incentivá-las durante a procissão a cantar ou recitar em voz alta o refrão: “Bendito o que vem em nome do Senhor, hosana nas alturas” (cf. Mateus 21,14-16).
  1. Neste domingo, pode-se aproveitar a sugestão e imagem do Baldaquinho acima e, durante os dois ritos de introdução na Liturgia da Palavra e da Eucaristia, “montá-lo” primeiro sobre a Mesa da Palavra e depois sobre a Mesa da Eucaristia, o Altar, ou somente sobre a Mesa da Palavra.
  1. Durante a procissão de Ramos, pode levar o Evangeliário em um andor, conforme a sugestão anterior. Quatro pessoas levam consigo grandes palmas de modo a formar um “baldaquinho peregrino”. Cada pessoa figura como uma das colunas e as palmas como a “cúpula”:
  1. Ao entrar na igreja atrás da cruz e do presidente, a assembléia caminha com Cristo e deixa-se introduzir na celebração do mistério da sua paixão, morte e ressurreição.
  1. Uma vez que se entra na Igreja, o Evangeliário é posto sobre a Mesa da Palavra, como de costume. As pessoas com as Palmas permanecem ao redor do Altar, “desmontando” o baldaquinho.
  1. A celebração (de cunho estacional) não inclui ato penitencial. A procissão foi expressão ritual que substitui o ato penitencial.
  1. Na Oração do Dia suplicamos a Deus que é todo poderoso que nos ajude a seguir o exemplo de Cristo que deu sua vida na cruz e possamos ressuscitar com Ele na sua glória.

Rito da Palavra

  1. Após a Oração do Dia, enquanto se entoa um refrão apropriado, essas pessoas se dirigem à Mesa da Palavra e sobre ela montam a cobertura do baldaquinho.
  1. Durante o canto de aclamação “Salve ó Cristo, obediente!” o Evangeliário deve ser levado até a Mesa da Palavra e de lá, feita a narrativa da Paixão, conforme o costume da comunidade. Se for dialogado conforme o “costume latino”, é preciso que se respeite a linguagem ritual que exige a presença do Livro (o Evangeliário) que é um dos sinais sensíveis da Palavra de Deus, de onde se fará a introdução do relato, sua narrativa e a conclusão.
  1. Durante a homilia, o baldaquinho pode temporariamente ser desfeito, voltando a se formar sobre a Mesa do Altar, da seguinte forma: As pessoas entram na procissão de oferendas à frente ou depois daqueles que levam os dons do pão e do vinho e montam o baldaquinho sobre o Altar.
  1. Se tiver dificuldade de ritualizar desse modo, pode-se montar o baldaquinho somente na Mesa da Palavra.
  1. É bom lembrar que a leitura da Paixão merece uma boa preparação, com bastante antecedência, distribuindo os diversos participações para tornar mais dinâmica a participação. Personagens que ocorrem no Evangelho deste domingo, texto mais longo: narrador(a), Judas, Simão Pedro, grupo dos discípulos, duas testemunhas, sumo sacerdote, o povo, uma criada que interroga a Pedro, outras pessoas além da criada, sumos sacerdotes e anciãos, Pilatos, os soldados de Pilatos. Para o texto mais curto: narrador(a), Pilatos, soldados de Pilatos, pessoas insultando e zombando de Jesus, o oficial e os soldados. Quem preside, diz as palavras de Jesus.
  1. Na liturgia da Palavra: A leitura da Paixão do Senhor (sem as lanternas que acompanham a procissão do Evangeliário, sem o incenso, sem a saudação “O Senhor esteja convosco…” sem fazer o sinal da cruz sobre o livro e sobre si mesmo; no final, não se beija o livro nem se diz “Palavra da salvação…”). Cuidado que o folheto não traz esta orientação litúrgica.
  1. Se houver interesse e for possível, um grupo de jovens ou pessoas adultas, podem dramatizar antes da aclamação ao Evangelho, a conspiração contra Jesus depois da ressurreição de Lázaro que está em João 11,45-50. Essa encenação não deve passar de sete minutos. Ver pessoas que tenham jeito para isso, isto é, que saibam viver os personagens. Não se deve confundir encenação litúrgica com teatro! A encenação litúrgica é uma proclamação da Palavra, feita em clima de oração e celebração. Por isso, geralmente é melhor que não usem roupas especiais, isto é, não é preciso que as pessoas se vistam com figurino da época, mas assumam a “psicologia” dos personagens. No caso da dramatização, é importante que a narrativa seja feita da Mesa da Palavra e do Evangeliário, para resguardar o sinal e a linguagem ritual.
  1. Sobre a leitura do Evangelho da Paixão do Senhor, o Lecionário Dominical sugere o texto longo ou o mais breve. Quanto ao texto longo ou mesmo o mais breve, as pessoas podem acompanhar a leitura sentadas. Quando o texto narrar a morte de Jesus, todos se ajoelham fazendo uma pausa e uns momentos de silêncio. No momento do silêncio pode-se cantar um refrão ou um canto próprio, mas não longo com apenas uma estrofe. (Por exemplo: “Morreu, meu Jesus, na cruz, na cruz…”, ensaiado num encontro diocesano sobre a Quaresma e Semana Santa; “Eu me entrego Senhor, em tuas mãos”, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 34, ou o refrão “Prova de amor maior não há”, somente com a estrofe: “E chegando a minha Páscoa, vos amei até o fim…”.
  1. A narração do Evangelho, caso seja acertado, pode ser acompanhada pela assembléia assentada. Feita em forma dialogal poderá também ajudar na participação.
  1. A homilia não deve se alongar. O cansaço da assembléia pode comprometer a participação. O homiliasta deve ser claro e conciso, deixando que os ritos falem por si. Haja também tempo para o silêncio e a meditação.

Rito da Eucaristia

  1. A oração sobre as oferendas destaca que pelo sofrimento de Cristo fomos reconciliados com o Pai.
  1. Na preparação das oferendas, junto com os dons da Eucaristia, destacar a coleta da Campanha da Fraternidade como uma “ação ritual” a nível nacional.
  1. Preparar a forma como será feita a coleta e um recipiente onde as pessoas poderão deixar sua oferta. Perto, também poderá ser colocado um cartaz da CF 2020. As pessoas irão em procissão até perto do altar. Neste momento poderá ser feita a Oração da CF ou cantar o Hino.
  1. O Prefácio é próprio para o Domingo de Ramos e enfatiza o sofrimento do justo inocente pela salvação de todos. A Oração Eucarística pode ser a III que enfatiza “quatro” vezes a palavra sacrifício, isto é, fazer algo sagrado, que a nossa vida deve ser uma doação do nascer ao por do sol como foi a vida de Cristo.
  1. A comunhão em duas espécies não é só desejável, bem como poderá evidenciar o que foi narrado no início do Evangelho: “o vinho novo no Reino de Deus” (versículo 25) e o número 240 do Missal Romano.

Ritos Finais

  1. Na oração depois da comunhão, peçamos a Deus que pela morte e ressurreição de Cristo nos alcancemos a salvação.
  1. O rito do envio pode estar em consonância com o mistério celebrado: Irmãos e irmãs, a Paixão de Jesus Cristo nos abriu as portas do céu. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Humanamente olhando a Cruz, ela revela a dor, sofrimento, desprezo, abandono, injustiça, tortura, manipulação da pessoa humana, morte. A Cruz iluminada pela fé fala de salvação, de comunhão, de misericórdia, de amor extremado, de Reino e de eternidade. Ressurreição já plantada em nós, que, nestes dias de oração e meditação, deve deitar raízes fundas em nós, para dar razão ao nosso viver, despido, por vezes, de razões válidas e fortes.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

 

Pe. Benedito Mazeti

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