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Estudo bíblico IV: “Pentateuco, o que é?”

Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 4º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

 

“Um povo sem conhecimento, saliência de

seu passado histórico, origem e cultura,

é como uma árvore sem raízes.”

(Castro Alves )

Pentateuco

 

Pentateuco é uma palavra grega que significa “penta – cinco; teuco – rolo, estojo”. São os cinco primeiros livros da bíblia, isto é: Gênesis, Êxodo, Levítico, Número e Deuteronômio. Os judeus chamam esta parte da bíblia com o nome de “Torá”, que significa “Lei”.

Os livros do Pentateuco falam da formação do mundo, da humanidade e do povo escolhido por Deus. As histórias e leis aí contidas foram sendo escritas durante cinco séculos, reformulando, adaptando e atualizando tradições mais antigas, que vieram desde os tempos de Moisés.

As histórias mostram como e porque o Deus que se revelou, na sarça ardente, a Moisés, com o nome de “IHWH”, traduzido por “Javé”, é o único Deus verdadeiro. Foi ele que tirou o povo da escravidão do Egito e o conduziu, através do deserto, à terra de Canaã, para aí estabelecer uma comunidade que fosse livre e fraterna. Refletindo sobre esse Deus livre e que liberta, os escritores sagrados do Pentateuco descobrem que ele é também o Deus dos patriarcas, o Deus que está presente na humanidade, e aquele que criou tudo o que existe.

As leis que aparecem nesse primeiro conjunto da bíblia são leis muito antigas, e muitas delas parecem estranhas para nós. Mas todas gritam em torno de um núcleo central do qual perdem o sentido: são leis dadas por um Deus livre, que quer a vida e a liberdade do homem, tanto na sua vida pessoal como comunitária.

Jesus, que veio trazer a libertação e a vida em plenitude do homem a Deus, não aboliu, mas aprofundou o espirito dessas leis. E ele próprio apresentou um resumo de toda a Lei: “Tudo o que vocês desejam que os homens façam a vocês, façam vocês a eles. Pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7, 12).

Gênesis: origem do mundo e de um povo”

 Gênesis é o nome dado ao primeiro livro da bíblia. Essa palavra significa “começo, nascimento, origem”. De fato, o livro conta o aparecimento do mundo, da história e do povo de Deus. Podemos distinguir aí três partes.

mgangelo

A primeira parte é composta pelos capítulos 1-11. Os dois primeiros capítulos narram a “criação do mundo e do homem” por Deus. São duas histórias para apresentar a grandiosidade do homem e da mulher. Eles são o ponto mais alto e o centro de toda a criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, possuem o dom da criatividade, da palavra e da liberdade.

Os caps. 3-11 mostram a história dos homens e do processo humano dominado pelo pecado. Não querendo submeter-se a Deus, o homem quebra o relacionamento consigo mesmo, com o irmão, com a natureza e com a comunidade, reduzindo a convivência a uma confusão.

A segunda parte é formada pelos capítulos 12-36, que conta a “história dos patriarcas”. Com eles começa a comunidade de Israel que, dentro do mundo, será a portadora da Aliança entre Deus e os homens. A vocação de Israel é ser uma comunidade que tem Deus como único Senhor, o homem como irmão e as coisas criadas como dons partilhando entre todos. Essa comunidade terá como missão mostrar o caminho que leva a humanidade a descobrir e viver o projeto de Deus.

A terceira parte, composta pelos capítulos 37-50, apresenta a “história de José”, preparando assim o relato do livro do Êxodo. Essa história comovente prepara a ação mais grandiosa de Deus entre os homens: a libertação de um povo da escravidão.

 Bibliografia base:

  • BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.
  • Euclides Martins. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
  • LÓPEZ, Félix García. O Pentateuco: introdução à leitura dos cinco primeiros da bíblia. Trad. Alceu Luiz Orso. São Paulo: Ave-Maria, 2004. (Introdução ao estudo da Bíblia, 3a)
  • GILBET, Pierre. A bíblia na origem da história. Trad. Maria Cecilia de M. Duprat. São Paulo: Paulinas, 1986. (Biblioteca de ciências bíblicas)

 

 

Devoção Mariana

Por Seminarista Flávio Aparecido Pereira – 2º ano de Teologia

Diocese de Barretos

 

Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à Sua mãe: “Mulher, eis teu filho!”. Depois disse ao discípulo: “Eis tua Mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa (Jo. 19, 26-27).

Devoção Mariana

A devoção mariana na atualidade toma um formato de íntimo contato com a Mãe de Cristo Jesus, quer seja através de pagamento de promessas ou votos, quer seja para render graças por um milagre alcançado.

Em nosso popular, podemos encontrar diversas citações e referências à Maria, mãe de Jesus, como aquela que intercede ao Filho para que o milagre aconteça; outros fazem inferência à intercessão da mãe para suprir às necessidades dos filhos. Nesse caso, a humanidade que é entregue nos braços de Maria é o discípulo amado, estabelecendo um vínculo com a humanidade. Esse terno carinho só pode acontecer pelo amor materno que se estabeleceu no alto do madeiro por onde fora crucificado nosso Redentor e Salvador do mundo.

Diversas são as festas em honra e memória à Maria Santíssima e vários são os títulos que ela recebe (Nossa Senhora das Dores, Rainha da Paz, Nossa Senhora do Desterro, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Nossa Senhora de Lourdes, entre tantos outros). Aqui pode ser constatado o que Maria disse à Isabel, sua parenta, conforme Lc 1,48: “Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada”. É essa lembrança que torna viva a devoção e o culto em memória à Mãe de Deus.

Devoção Mariana 1Não se trata de colocar Maria no lugar de Deus ou fazer dela o ícone maior de nossa fé, mas sim, reconhecer nela a mulher que esteve aberta ao projeto de Deus, por meio de seu “sim”, de seu “fiat” (faça-se), para que o Verbo divino se encarnasse e pudesse viver entre nós.

Desse modo, o Catecismo da Igreja Católica (CIC), em seu parágrafo 1172, orienta: “Ao celebrar o ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com particular amor a bem-aventurada mãe de Deus, Maria, que por um vínculo indissolúvel está unida à obra salvífica de seu Filho; em Maria a Igreja admira e exalta o mais excelente fruto da redenção e a contempla com alegria como puríssima imagem do que ela própria anseia e espera ser em sua totalidade”.

A religiosidade popular, por meio da fé, reúne inúmeros fieis que munidos de sua esperança nas graças a serem um dia recebidas, interioriza o ser humano na busca de um caminho reto, que não os leve à prática do pecado. São João Paulo II, na introdução da oração do Santo Rosário, já recomendava sobre uma das maiores, se não a maior, práticas de devoção Mariana: é uma oração de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade.

Devoção Mariana 2Devoção e fé estão quase que atreladas, mas esta primeira não deve ser elevada ao extremo, a fim de que não incorra ao erro do fanatismo religioso. A segunda palavra, fé, é o que norteou Maria e seu sim: Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou que seria mãe de Deus na obediência da sua dedicação. Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a ele se confiavam… (BENTO XVI, p 19).

Essas maravilhas são as mesmas que acontecem na vida de todos aqueles que se dedicam a uma vida de fé voltando seus olhares para o Filho. E para ver o Filho, basta olhar para a mãe, pois onde a mãe está o Filho também se encontra, pois em momento algum ela deixa que ele fique desamparado, que sofra. A mãe participa do sofrimento do Filho.

Maria é o modelo de todos aqueles que querem transformar sua vida, serem tocadas por Deus; eis um dos fatores pelo qual ela sempre é recordada nas orações do Santo Rosário, em orações pessoais. Ela é mãe, e como tal, ela não desampara seus filhos que lhe suplicam auxílio, proteção e bênçãos!

 

BIBLIOGRAFIA

BENTO XVI. A porta da fé São Paulo: Paulus, 2011.

BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.

O NOVO ROSÁRIO com os Mistérios da Luz. São Paulo: Paulus, 2002.

Estudo bíblico III – 2ª parte: “Os livros de diferentes épocas inspirados por Deus”

Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 3º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

 

“Desejei ver com a inteligência no que acreditei”

(Santo Agostinho)

 Ticiano - São Jerônimo-4.4

No último estudo, vimos como os livros sagrados foram redigidos a partir da inspiração divina na história da salvação. Agora, acerca do mesmo tema, veremos como se encontra a divisão dos livros dentro da bíblia atualmente.

Antigo Testamento

 

  • Pentateuco (a Lei)

Os cinco primeiros livros da Bíblia formam o Pentateuco que é o Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O Pentateuco, de fato, é uma palavra grega que significa “cinco livros”.

Estes livros foram escritos ao longo de 500 anos, e falam da criação do mundo e da Aliança que Deus fez com o povo hebreu. Em Gn 1-11 temos  narração da criação do mundo e do ser humano. Em Gn 12-36, a história dos patriarcas, e em Gn 37-50, a história de José do Egito.

O livro do Êxodo, que significa “saída”, conta a história as saída dos hebreus da opressão do Egito em busca da Terra Prometida. No Êxodo, Deus se revela como “Javé” e faz com o povo um pacto, entregando-lhe suas leis de vida.

Os outros três livros também tratam da história da libertação do povo hebreu e das leis que o povo procurou seguir e adaptar ao longo da história.

 

  • Livros históricos

Os livros históricos formam a maior parte do Antigo Testamento, e contam a história desde a entrada na Terra Prometida até pouco antes do  nascimento de Jesus. Tratam, portanto, da história do povo de Deus tanto na Terra Prometida quanto no exílio.

Podemos dividir estes livros em três grupos:

  1. Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis querem mostrar que o importante na caminhada do povo é a fidelidade à Aliança com Deus. Se as lideranças e o povo desrespeitam o pacto com Deus, acabam caindo em desgraça; se são fiéis a Aliança, recebem a bênção.

 

  1. 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, 1 e 2 Macabeus foram escritos depois do exílio da Babilônia, e querem contar a história de modo a orientar o povo na reconstrução, em vista da organização e de sobrevivência diante do poder estrangeiro. Por isso, também a história passada é relida à luz da nova situação de reorganização do período depois do exílio.

 

  1. Rute, Tobias, Judite e Ester são livros escritos para apresentar situações vividas pelos judeus na Palestina ou no estrangeiro, a fim de iluminar a caminhada do povo quando foram escritos. Não são acontecimentos históricos, mas histórias inventadas a partir de situações reais e concretas do povo.

 

  •  Livros sapienciais e poéticos

Nestes livros nós temos a sabedoria e a espiritualidade do povo de Deus. São frutos, das caminhadas, das experiências da vida, do erros e acertos que o povo foi fazendo ao buscar a liberdade e a vida com o projeto de Deus. Assim, a sabedoria do povo de Deus presente nestes livros não é algo teórico, aprendido em outros livros ou em aulas, mas a sabedoria é fruto de meditação e da reflexão sobre a própria vida.

No livro dos Salmos, por exemplo, temos 150 orações sobre as mais diversas situações das pessoas e do povo, orações que brotaram de realidades que estavam sendo vividas. Nessas orações temos o modo como as pessoas e o povo se relacionavam com Deus.

Os livros de sabedoria são cinco: Jó, Sabedoria, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico. Os livros de poesia são dois: Salmos e  Cântico dos Cânticos.

 

  • Livros proféticos

Os livros proféticos são tradicionalmente divididos em dois grupos: os profetas maiores e menores, de acordo simplesmente com o tamanho dos livros. Os quatro maiores são Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.

Nos livros proféticos encontramos os escritos e as pregações dos profetas, aqueles que ao longo da história convocaram as lideranças e o povo para a conversão, a volta ao projeto de Deus, denunciando as situações injustas e alertando para o lulgamento de Deus.

Quando acaba o Reino de Israel e de Judá e o povo vai para o exílio, os profetas anunciam a esperança, encorajam o povo a reconstruir a própria vida e história, são os chamados profetas da consolação, que exercem sua missão também no período do exílio e pós-exílio.

 

Novo Testamento

  • Evangelhos

A palavra “evangelho” quer dizer “boa notícia”. Cada um dos quatro evangelhos Mateus, Marcos, Lucas e João narra a boa notícia de Jesus, vida e missão, desde o nascimento até a paixão, morte e ressurreição.

Os evangelhos foram escritos entre 30 e 70 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Foram escritos a partir das histórias que as comunidades recordavam da vida de Jesus e transmitiam de boca a boca. A preocupação, quando os evangelhos foram escritos, não era mostrar as coisas exatamente como aconteceram, como uma biografia do jeito que conhecemos hoje. As comunidades queriam manter viva a lembrança das ações e palavras de Jesus, de modo que a vida fosse sempre iluminada por elas.

Cada evangelho tem um rosto próprio. O evangelho de Mateus quer mostrar Jesus como o “Mestre as Justiça”, aquele que vem realizar toda a justiça do Pai. Marcos quer mostrar “quem é Jesus”, através de suas palavras, mas, sobretudo de suas ações. Lucas quer mostrar que Jesus “começa uma nova história”, a história da liberdade que Jesus vem trazer para os pobres e excluídos e que cria novas relações de fraternidade.

Esses três evangelhos são chamados “sinóticos”, pois seguem basicamente o mesmo esquema. O evangelho de João segue um esquema diferente, nele encontramos “sete sinais” realizados por Jesus, sinais que mostram Jesus como o verdadeiro Caminho para a Vida, como o enviado pelo Pai para revelar e concretizar seu plano de serviço e amor sem limites.

 

  • Atos dos Apóstolos

O evangelho de Lucas e os Atos dos apóstolos formam uma só obra. Enquanto no evangelho de Lucas temos o caminho de Jesus, nos Atos dos apóstolos temos o caminho das primeiras comunidades cristãs.

No evangelho, Lucas apresenta o grande caminho de Jesus, da Galileia até Jerusalém. Nos Atos dos apóstolos, ele apresenta o grande caminho dos discípulos de Jesus, de Jerusalém, até Roma.

A mensagem central dos Atos dos apóstolos é o testemunho dos discípulos, tendo recebido o Espirito Santo, eles divulgam a boa notícia de Jesus até os confins da terra.

 

  •  Cartas

As cartas que encontramos no Novo testamento podem ser divididas em dois grandes grupos: as cartas de Paulo e as cartas católicas.

A carta aos Hebreus, que antigamente se pensava que tivesse sido escrita por Paulo, na verdade é um sermão a respeito de Jesus Cristo como único sacerdote e único mediador entre Deus e os homens. Para os cristãos o que conta não é mais a Lei, mas a salvação que vem de Jesus Cristo.

As cartas de Paulo foram escritas para responder a situações concretas e resolver problemas específicos das várias comunidades que apóstolo acompanhava na sua evangelização.

As cartas católicas, ou seja, universais, recebem esse nome porque não foram escritas para pessoas ou comunidades em particular, mas para toda a Igreja. As cartas católicas são sete: uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas.

 

  • Apocalipse de João

O Apocalipse de João foi escrito para iluminar a vida das comunidades que enfrentavam a perseguição no final do primeiro século depois de Cristo.  Nesse livro encontramos muitas imagens e símbolos do Antigo Testamento que eram familiares ao povo da bíblia, mas que para nós muitas vezes dificultam a compreensão.

Ao contrário do que se costuma falar, a palavra “apocalipse” não quer dizer previsão sobre o futuro, mas “revelação”.

No Apocalipse, de fato, encontramos a revelação do próprio Jesus Ressuscitado, vencedor do mal e da morte, que conduz as comunidades nos conflitos e provações.

É um livro de resistência profética, pois convida a resistir diante das situações de morte, a denunciar e destruir o mal para anunciar o construir o bem pregado por Jesus.

 

Bibliografia base:

BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.

BALANCIN, Euclides. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.

STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.

Estudo bíblico III – 1ª parte: “Os livros de diferentes épocas inspirados por Deus”

Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 3º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

“Desejei ver com a inteligência no que acreditei”

(Santo Agostinho)

Bíblia

 

Os livros que formam a bíblia são diferentes exatamente porque procuravam responder às realidades diversas de cada momento histórico. Antigamente, se acreditava, por exemplo, que Moisés havia escrito sozinho todo o Pentateuco (os primeiros cinco livros da bíblia, na ordem em que eles aparecem hoje).

Os estudos exegéticos permitiram descobrir que os livros da bíblia foram escritos por várias mãos, pouco a pouco. Foram redigidos, reescritos, emendados e mudados de acordo com os momentos históricos do povo de Israel. Há livros que foram escritos de modo mais rápido e outros que demoraram muito para ser finalizados.

A bíblia narra os acontecimentos que cobrem um período de tempo muito grande: desde a experiência do primeiro pai, Abraão, ou de seu descendente Jacó, que era um arameu errante (cf. Dt 26,5), por volta do ano 1850 a.C., até a experiência de perseguição dos primeiros cristãos, que encontramos no livro do Apocalipse de João, no final do século I e início do século II d.C. Mais de dois mil anos, portanto, estão presentes nas páginas da bíblia.

E tal como a longa história do povo de Israel com seu Deus, assim também a bíblia foi longamente preparada e gerada. Ela é, por isso mesmo, “inspirada por Deus”. Todos aqueles que escreveram os textos sagrados procuraram, por meio deles, a vontade de Deus na caminhada.Escrita bíblica

Deus iluminou e inspirou essas pessoas na descoberta do seu projeto de liberdade e vida. Isso, porém, foi um processo dinâmico e gradual, em que o ser e o agir de Deus foram sendo descobertos aos poucos, até à revelação total que se deu com Jesus Cristo, o revelador perfeito do projeto de Deus Pai.

Por isso, como afirma o Concílio Vaticano II, a bíblia é a Palavra escrita pelo homem, mas inspirada por Deus. É a mensagem que Deus transmitiu ao seu povo milhares de anos atrás, e que continua transmitindo a nós hoje, quando lemos a Sagrada Escritura e procuramos nela, iluminação e alimento para nossa vida, porque a revelação plena de Jesus continua a acontecer hoje em nossa caminhada por meio da bíblia.

 

Na continuação deste estudo, a ser publicado nas próximas semanas, veremos como os livros se encontram hoje distribuídos em nossas bíblias e o que cada grupo representa.

Bibliografia base:

  • BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.
  • BALANCIN, Euclides. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
  • STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.

Estudo bíblico II: “A história de Deus com seu povo”

caminho

 

Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 3º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

 

“A história não foi feita no tempo, mas sim com o tempo”

(Santo Agostinho)

A história do povo da bíblia começa por volta de 1850 a.C. O livro do deuteronômio, no cap. 26, 5 diz: “Meu pai era um arameu errante”. Esta confissão de fé, lida e lembrada ao longo de gerações, recordava ao povo na bíblia sua origem e seu pai comum: Jacó, um arameu errante à procura de terra, que tinha sido escravizado no Egito. Essa recordação foi provavelmente a semente de onde nasceu toda a experiência do povo da bíblia, e que animou gerações e gerações a caminhar com Deus em busca de terra e liberdade.

Jacó (também chamado de Israel) era descendente de Abraão. Por volta de 1850 a.C, Abraão sai da Mesopotâmia e vai morar em Canaã com sua família. Canaã era a terra dos cananeus, na região onde se encontra hoje a terra de Israel. Abraão sai à procura de uma nova terra, e em Canaã nascem seus filhos e netos. A partir daí, sua descendência se multiplica como as estrelas do céu, de acordo com a promessa divina em Gn 22,17.

Abraão e seus descendentes, Isaac e Jacó, são conhecidos como “patriarcas”, pois foram eles os pais do povo da bíblia. Abraão foi o pai da fé, aquele que por primeiro acreditou em Deus quando tudo à sua volta parecia impossível.

Jacó, o arameu errante, foi o pai escravizado no Egito que, com sua descendência numerosa, saiu com a ajuda de Deus à procura de terra, liberdade e vida. A história dos filhos de Abraão e Jacó escravos no Egito foi contada, sobretudo nos livros do Gênesis e Êxodo.

Mas se Abraão tinha se mudado para Canaã, como é que seu descendente Jacó foi parar no Egito? É que o Egito era uma terra mais fértil, e a vida em regiões como Canaã tinha se tornado muito difícil. Entre os que se mudam para o Egito em busca de sobrevivência estão Jacó e seus filhos, o povo hebreu.

Os faraós, reis do Egito, escravizaram e oprimiram os hebreus. Deus faz surgir, porém um líder, Moisés, que conduz o povo hebreu num movimento de libertação, de fuga do Egito, em busca de uma nova terra, de liberdade e vida. Deus promete ao povo uma terra, e essa promessa anima o povo a sair em busca de liberdade.

Este movimento de libertação, no entanto, foi difícil e longo. Foi uma caminhada de 40 anos pelo deserto, em direção a Canaã. Moisés morre antes de chegar à Terra Prometida, e Josué o substitui na liderança do povo.

Pouco a pouco, o povo hebreu vai ocupando a região de Canaã, liderada por Josué e depois, quando Josué morre, pelos Juízes, como Otoniel, Débora, Gedeão, Sansão e etc. O povo foi se organizando em doze tribos, e os Juízes lideravam as tribos na ocupação da terra, procurando pôr em prática a vontade de ser livres e de viver como irmãos, de modo igualitário, de acordo com as leis que Deus havia dado durante a caminhada de 40 anos no deserto (estas leis estão em Ex 20, 1-21).

A experiência das tribos lideradas pelos Juízes não durou muito tempo. Samuel foi o último dos juízes que levou adiante a organização das tribos sem um rei. Por causa dos ataques constantes de outros povos, em 1030 as tribos do norte e do sul decidiram que deveriam se organizar como as outras nações, tendo à sua frente um rei. Começa então a Monarquia, e o primeiro rei foi Saul.

O segundo rei foi Davi, muito estimado por todos e considerado o maior rei de Israel. Ele vence as nações vizinhas, aumenta o reino, constrói o templo e escolhe Jerusalém como capital do reino. Na época do terceiro rei, Salomão, surgem os primeiros escritos da bíblia, que reuniam as tradições que se transmitiam oralmente de geração em geração.

Com a monarquia aparecem também os profetas, que chamam a atenção dos reis, das autoridades religiosas e políticas e do povo por causa da Aliança que frequentemente era desrespeitada.

Quando morre o rei Salomão, em 931, as tribos encontram-se numa difícil situação de brigas políticas internas. As tribos do norte não querem aceitar o filho de Salomão como rei e o reino acaba sendo dividido em dois. As tribos do norte formam o Reino do Norte, ou Israel, tendo como capital a Samaria e como rei Jeroboão I. O sul, fiel a Davi e Salomão, forma o Reino do Sul, ou Judá, tendo como capital Jerusalém e como rei Roboão.

Durante toda a história dos reis, Israel e Judá tiveram de lutar contra outros povos para manter a própria terra. Em 722, porém, os assírios invadem o Reino de Israel e destroem a capital, Samaria. Acaba, assim, o reino e os hebreus que habitavam no Reino do Norte são deportados para a Assíria.

Em 586, 150 anos depois, é a vez do Reino de Judá. A Babilônia havia se tornado um forte império e tinha conquistado a Assíria. Em dois golpes, conquista a capital do Reino de Judá, Jerusalém, e põe fim ao reino. Boa parte da população é levada para a Babilônia, onde fica por 50 anos. É o tempo conhecido como o “Exílio”.

Em 539, a Pérsia vence a Babilônia e o rei persa, Ciro, permite que o povo volte à terra de onde havia sido tirado pelos babilônios. Começa então a reconstrução do templo de Jerusalém, mas o povo de Deus nunca mais teve liberdade política, pois foi sempre dominado por nações estrangeiras.

A esperança de reconquistar a liberdade, no entanto, nunca morreu, e no meio do povo foi se acendendo sempre mais a esperança de que viesse um novo libertador, um descendente de Davi, um “Messias” (ou seja, alguém ungido como rei) que libertasse o povo judeu do poder estrangeiro.

Assim, aparece Jesus na história humana quando o povo de Deus alimentava a esperança de reconquistar a liberdade e a vida e de poder dispor da própria terra sem os mandos e desmandos de potências estrangeiras. Jesus reúne seguidores, ensina e age como Mestre. Seu ensinamento baseia-se no amor sem limites, sobretudo pelos pequenos, fracos e excluídos da sociedade.

Jesus vem revelar o projeto de vida de Deus Pai, o mesmo projeto da Aliança que Deus havia feito com o povo no tempo de Moisés e que tinha sido abandonado no tempo dos Reis. Nesse projeto não havia lugar para a violência, pois Jesus ensinava a amar até os inimigos. Não havia lugar para a exploração, pois Jesus criticou o comércio que se fazia no Templo de Jerusalém, que havia transformado um lugar de oração em “toca de ladrões”.

Tendo incomodado as lideranças judaicas, que viram seu poder ameaçado e tiveram o apoio das autoridades romanas, que não queriam se comprometer com agitações populares, Jesus foi considerado à morte, mas sua vida não terminou na cruz. Depois de três dias, ele reapareceu aos discípulos, vivo novamente e ressuscitado neste mundo.

Depois da ressurreição, antes de subir definitivamente para junto do Pai, Jesus envia aos seus seguidores o Espírito Santo, o Espírito que animará a comunidade dos discípulos e os fará recordar tudo o que Jesus fez e falou enquanto estava entre os homens.

Animados pelo Espírito, a mensagem e a proposta de vida de Jesus começam a se espalhar por toda a parte, sobretudo pela ação corajosa dos apóstolos e principalmente de Paulo, que se dirigiu especialmente às pessoas que não pertenciam ao povo judeu, aos pagãos. Assim, aparecerão comunidades formadas tanto de pessoas vindas do povo judeu quanto de outros povos, comunidades que procurarão viver na prática os ensinamentos de Jesus, buscando relações de fraternidade, de serviço e de vida para todos por meio da evangelização na construção do Reino de Deus.

Bibliografia base:

> BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.

> BALANCIN, Euclides. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.

> STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.

Estudo bíblico I: “Um livro de livros menores”

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Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 3º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

 

“A bíblia é a carta de amor de nosso Deus ao homem.”

(São Gregório)

A Bíblia é um conjunto de livros escritos durante vários séculos. Ao pé da letra, a palavra “Bíblia” significa “livrinhos”, pois é o plural da palavra grega “biblíon” (livrinhos), que por sua vez é o diminutivo da palavra “biblios” (livros). Quem primeiro usou a palavra “Bíblia” para se referir a Sagrada Escritura foi São João Crisóstomo, no quarto século depois de Cristo.

Na Bíblia nós temos, assim, uma coleção de livros menores, diferentes entre si, cada qual contendo uma mensagem e procurando iluminar a vida do povo de Deus de acordo com a realidade de quando foram escritos.

Esses livros falam da história e da experiência de um povo do Oriente, o povo de Israel. Escravo no Egito, este povo experimentou Deus como o Deus da vida e da liberdade, o Deus que deseja conduzir pelo caminho da liberdade em vista da vida plena para todos.

Deus e o povo de Israel fizeram juntos uma Aliança, um pacto, um acordo: Deus prometeu a liberdade e a vida, prometeu acompanhar e proteger sempre seu povo, e o povo prometeu caminhar sempre segundo a vontade do seu Deus, vivendo a fraternidade, como irmãos. O problema é que, da parte do povo, essa promessa foi constantemente quebrada, surgindo daí conflitos e opressões dentro do próprio povo de Deus e de outros povos em relação ao povo de Israel.

É a história dessa Aliança que temos na Bíblia, são ao todo 73 livros, e nesses livros temos vários modos de escrever: história, poesia, hinos, novelas, sagas, sabedoria, cartas e outros estilos de acordo com a mensagem que se queria comunicar o autor sagrado em Deus e o homem.

Nesta coleção de livros inspirados contém 73 livros que se encontram na bíblia cristã e que se dividem em duas grandes partes: Antigo e Novo Testamento.

A Palavra “testamento” vem da tradução grega para a hebraica “berit”, que significa “aliança”, “pacto”. Na tradução grega “berit”, de fato, encontramos a palavra “diathele”, que significa “testamento”, “contrato”, “aliança”. Podemos dizer que as duas grandes partes da Bíblia se referem à Antiga e à Nova Aliança entre Deus e o seu povo.

Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o ponto de chegada do Antigo Testamento e o ponto de partida do Novo Testamento.

Quando dizemos que a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros, é preciso notar que existe uma diferença entre a Bíblia dos católicos e dos protestantes. As Bíblias protestantes não trazem 7 livros: Judite, Tobias, 1º e 2º Macabeus, Baruc, Eclesiástico e Sabedoria, além de Ester 10, 4-16, 24 e Daniel 13-14.

Estes livros foram considerados inspirados num segundo momento, quando a Bíblia hebraica já estava bem formada, e entraram no conjunto dos textos sagrados somente quando a Bíblia hebraica foi traduzida para o grego, na tradução da “Setenta”, por volta do ano 250 a.C. Visto que os protestantes só aceitam a Bíblia hebraica como inspirada, estes textos ficaram de fora. Já os católicos aceitam a Bíblia grega, e, portanto os sete livros acima, escritos em grego, foram considerados sagrados.

Hoje, porem, algumas Bíblias protestantes trazem também estes livros, que são considerados como “deuterocanônicos”.

Para se chegar à ordem dos livros tal como a encontramos hoje em nossas Bíblias, muita água correu. Na antiguidade os textos eram escritos em rolos, cada livro num rolo feito de pele de carneiro, sem uma ordem fixa.

O que existia, para os judeus, era a divisão da Bíblia em três grandes grupos: a Lei ou Torá (os cinco primeiros livros, ou seja, o Pentateuco), os Profetas e os Outros Escritos. Os critérios utilizados para chegar à ordem atual dos livros foram diversos.

Entre esses critérios estão o cronológico (os livros são ordenados de acordo com a ordem dos acontecimentos históricos que narram) e o de tamanho como cada autor sagrado foi desenvolvendo toda a base teológica, histórica e literária da História da Salvação presente na Sagrada Escritura.

Bibliografia base:

> BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.

> STRABELI, Mauro. Bíblia: perguntas que o povo faz. São Paulo: Paulus. 1990.

> STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.