Estudo bíblico IX: “1º livro de Samuel: a função da autoridade”

“Servir a Deus é deixar de lado nossas vontades para que a sua vontade seja feita”

(São João da Cruz)

 reidavi

O primeiro livro de Samuel narra acontecimentos que se situam entre 1040 e 1010 a.C. Temos aí uma análise crítica do aparecimento da realeza em Israel, análise que pode nos ajudar a avaliar nossos sistemas e homens políticos, bem como qualquer outra sociedade.

Há duas versões do surgimento da autoridade política central em Israel: a primeira é contrária e hostil à monarquia (1Sm 8; 10,17-27), representando a visão mais democrática das tribos do Norte, que viviam em terras produtivas; a segunda é favorável à monarquia (1Sm 9,1-10, 16; 11) e representa a visão da tribo de Judá, que vivia em terras menos produtivas. Unindo as duas versões, vemos que a autoridade é, ao mesmo tempo, um mal necessário (ela pode se absolutizar, explorar e oprimir o povo) e um dom de Deus (uma instituição mediadora, que deve representar, isto é, tornar presente o próprio Deus, único rei que salva e governa o seu povo).

1Sm oferece uma teologia crítica da autoridade política. Mostra que Deus é o único rei sobre seu povo. Para ser legitimo, o rei humano (e seus equivalentes) devem ser representantes de Deus, isto é, servir a Deus através do serviço prestado ao povo. E isso compreende duas coisas: primeiro, reunir e liderar o povo, ajudando-o a proteger-se e a libertar-se dos seus inimigos (1Sm 9,16); segundo, organizar o povo e promover a vida social conforme a justiça e o direito (Sl 72; Dt 17,14-20; Pr 16,12).

Conforme 1Sm, portanto, qualquer autoridade que não obedece a Deus e não serve ao povo é ilegítima e má, pois ocupa o lugar de Deus para explorar e oprimir o povo.

 

“2º livro de Samuel: a autoridade real”

 

O segundo livro de Samuel continua a narração de 1Sm, abarcando o período que vai de 1010 a 971 a.C. O livro está centrado da figura de Davi, cuja história começa já em 1Sm 16, e nas lutas dos pretendentes para suceder-lhe no trono de Jerusalém. Podemos dizer que 2Sm continua a avaliação do sentido e da função da autoridade política.

Davi é apresentado como o rei ideal, que obedece a Deus e serve ao povo. Graças à sua habilidade política, ele consegue aos poucos captar a simpatia das tribos, sendo primeiro aclamado rei de Judá, sua tribo, e depois, rei também das tribos do Norte. Após ter conseguido reunir todo o povo, Davi conquista Jerusalém e a torna ao mesmo tempo o centro do poder político e da religião de Israel.

O ponto mais alto da sua história é a profecia de Natã (2Sm 7), na qual o profeta anuncia que o trono de Jerusalém será ocupado por um Messias (= rei ungido) da família de Davi. É a criação da ideologia messiânica: o povo será sempre governado por um Messias, descendente de Davi. Logo depois, começa a competição pelo poder e pela sucessão e, finalmente o trono é ocupado por Salomão, filho mais novo de Davi (2Sm 9 – 1Rs 2).

Davi passou para a história como o modelo de autoridade política justa. Por isso, mesmo com o fim da realeza, os judeus permaneceram confiantes no ideal messiânico e ficaram à espera do Messias que iria reunir o povo, defendê-lo dos inimigos e organizá-los numa sociedade justa e fraterna.

Dizendo que Jesus é descendente de Davi, os Evangelhos mostram que Jesus é o Messias esperado (daí o nome grego Cristo, que é igual a Messias). Ele veio para reunir todos os homens e levá-los à vida plena, na justiça e fraternidade do Reino de Deus.

 

Bibliografia base:

  • BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.
  • BALANCIN, Euclides. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
  • STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.
  • LAMADRID, González; SANTIGO, J. Campos; JULIÁN, V. Pastor; PUERTO, M. Navarro; ASURMENDI, J. História, narrativa, apocalíptica. J.M. Sánchez Caro (ed.). São Paulo: Ed. Ave-Maria, 2004. (Introdução ao estudo bíblico 3b)

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