Estudo bíblico VI: “Números, a caminho da terra prometida”

Por Seminarista Rafael Vicente – 4º ano Teologia

Diocese de São José do Rio Preto  

“O meio mais seguro de conhecermos a vontade de Deus é a oração”.

 (São João Maria Vianney)

 Abraao

 

Este livro se chama “Números” porque começa com um grande recenseamento do povo hebreu no deserto.

Para os hebreus, a saída do Egito foi uma lenta e penosa caminhada em busca de uma terra. Neste livro, a caminhada se transforma numa majestosa marcha organizada de todo um povo, como uma procissão ou um exército. As tribos de Israel estão todas presentes, formando os esquadrões de Deus, cada uma com o seu estandarte, e avançando em rigorosa formação. No centro de tudo vai a arca da Aliança.

Isso mostra que o livro não pretende narrar fatos históricos, mas quer nos transmitir mensagens. Assim, do mesmo modo como os antepassados saíram da escravidão do Egito para chegar à terra de Canaã, todo o povo de Deus é peregrino e caminha para a terra prometida por Deus.

A organização mostra que, dentro do povo de Deus, as funções devem ser repartidas, mas com um único objetivo: realizar o projeto de Deus. E a arca da Aliança no centro indica que, nessa caminhada, Deus está presente no meio de seu povo.

Mas o livro mostra também, e com bastante realismo, que dentro dessa organização existem fortes conflitos (cap. 16), e que seus chefes estão sujeitos a fraquezas e desânimos por mais importantes que eles sejam na comunidade.

Os capítulos 22, 23 e 24 narram a história do profeta Balaão e a sua mula. Essa história mostra como um adivinho estrangeiro se torna um verdadeiro profeta de Deus. Com essa narração, o livro quer mostrar que dentro da caminhada do povo de Deus para a Terra Prometida, deve haver sempre um lugar para o profeta escolhido pelo Senhor nosso Deus.

 

 “Deuteronômio, Aliança para a vida”

 povo de deus

A palavra grega “deuteronômio” significa “segunda Lei”. Trata-se de uma reapresentação e adaptação da Lei em vista da vida de Israel na Terra Prometida.

Esse livro nasceu muito tempo depois da situação histórica que nele encontramos (discurso de Moisés antes da entrada na Terra), e teve longo período de formação. Para o autor, porém, o povo de Deus está sempre na posição de quem deve se converter a Deus e viver em aliança com ele, para ter a vida (Terra = Vida).

A ideia central de todo o livro é que Israel viverá feliz e próspero na Terra se for fiel à aliança de Deus; se for infiel, terá a desgraça e acabará perdendo a Terra. O livro, porém, não se contenta com ideias gerais. Após relembrar o Decálogo (5,1-22), ele mostra que o comportamento fundamental do homem para com Deus é o amor com todo o ser (6,4-9). A seguir apresenta uma longa catequese, explicando o que significa viver esse amor em todas as circunstâncias da vida pessoal, social, politica e religiosa.

Essa catequese é apresentada, sobretudo através das leis do Deuteronômio (caps. 16-26), onde se procura ensinar ao homem como viver em suas relações com Deus, com as autoridades, com o outro homem, e até mesmo com os seres da natureza.

Mais do que nos determos nessa ou naquela parte do livro, encafifados talvez com outra lei, o importante é perceber o que o conjunto do livro procura transmitir: um projeto de sociedade nova, baseado na fraternidade entre os homens e na partilha de tudo o que Deus concedeu a todos.

Notar, sobretudo, que Deus é chamado de Pai (1,31), e os membros do povo são chamados irmãos entre si. A vocação do povo de Deus é a fraternidade e a partilha.

 


 Algumas questões abertas: A Lei do amor no Antigo Testamento

Costuma-se dizer ou pensar que a “lei do amor” na Bíblia é um privilégio do Novo Testamento e que o Antigo era regido pela lei do talião. Não é bem assim!

Para começar, no livro do Levítico lemos: “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou Javé” (Lv 19,18). No livro do Deuteronômio se lê: “Amarás a Javé teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6,5).

É citando essas duas passagens no AT que Jesus responde aos fariseus, quando estes lhes perguntam: “Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?” E Jesus mostra que toda a Lei e os Profetas, ou seja, todo o Antigo Testamento, dependem desses dois mandamentos (cf. Mt, 22, 34-40). Portanto, se o próximo Jesus resume o AT no amor ao próximo e a Deus, é sem fundamento falarmos que aí não existe lei do amor.

Também os profetas condensaram a exigência de Deus nesses dois mandamentos. O profeta Miqueias diz: “Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom e o que Javé exige de ti: nada mais do praticar o direito, gostar do amor e caminhar humildemente com o teu Deus” (Mq 6,8). Em Oseias, a noção de amor entre Deus e seu povo é tão ousada que ele chega a comparar Deus com um esposo e o povo com uma esposa que se devem amar mutuamente e serem fieis um a outro (cf. Os 1-3).

Uma novidade, porém, é reservada no Novo Testamento. Só com Jesus surgiu outro mandamento mais exigente: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos” (Mt 5, 43-44).

 

Bibliografia base:

  • BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.
  • Euclides Martins. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
  • LÓPEZ, Félix García. O Pentateuco: introdução à leitura dos cinco primeiros da bíblia. Trad. Alceu Luiz Orso. São Paulo: Ave-Maria, 2004. (Introdução ao estudo da Bíblia, 3a)
  • GILBET, Pierre. A bíblia na origem da história. Trad. Maria Cecilia de M. Duprat. São Paulo: Paulinas, 1986. (Biblioteca de ciências bíblicas)

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