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Estudo bíblico III – 2ª parte: “Os livros de diferentes épocas inspirados por Deus”

Por Seminarista Rafael Vicente de Melo – 3º ano de Teologia

Diocese de São José do Rio Preto – SP

 

“Desejei ver com a inteligência no que acreditei”

(Santo Agostinho)

 Ticiano - São Jerônimo-4.4

No último estudo, vimos como os livros sagrados foram redigidos a partir da inspiração divina na história da salvação. Agora, acerca do mesmo tema, veremos como se encontra a divisão dos livros dentro da bíblia atualmente.

Antigo Testamento

 

  • Pentateuco (a Lei)

Os cinco primeiros livros da Bíblia formam o Pentateuco que é o Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O Pentateuco, de fato, é uma palavra grega que significa “cinco livros”.

Estes livros foram escritos ao longo de 500 anos, e falam da criação do mundo e da Aliança que Deus fez com o povo hebreu. Em Gn 1-11 temos  narração da criação do mundo e do ser humano. Em Gn 12-36, a história dos patriarcas, e em Gn 37-50, a história de José do Egito.

O livro do Êxodo, que significa “saída”, conta a história as saída dos hebreus da opressão do Egito em busca da Terra Prometida. No Êxodo, Deus se revela como “Javé” e faz com o povo um pacto, entregando-lhe suas leis de vida.

Os outros três livros também tratam da história da libertação do povo hebreu e das leis que o povo procurou seguir e adaptar ao longo da história.

 

  • Livros históricos

Os livros históricos formam a maior parte do Antigo Testamento, e contam a história desde a entrada na Terra Prometida até pouco antes do  nascimento de Jesus. Tratam, portanto, da história do povo de Deus tanto na Terra Prometida quanto no exílio.

Podemos dividir estes livros em três grupos:

  1. Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis querem mostrar que o importante na caminhada do povo é a fidelidade à Aliança com Deus. Se as lideranças e o povo desrespeitam o pacto com Deus, acabam caindo em desgraça; se são fiéis a Aliança, recebem a bênção.

 

  1. 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, 1 e 2 Macabeus foram escritos depois do exílio da Babilônia, e querem contar a história de modo a orientar o povo na reconstrução, em vista da organização e de sobrevivência diante do poder estrangeiro. Por isso, também a história passada é relida à luz da nova situação de reorganização do período depois do exílio.

 

  1. Rute, Tobias, Judite e Ester são livros escritos para apresentar situações vividas pelos judeus na Palestina ou no estrangeiro, a fim de iluminar a caminhada do povo quando foram escritos. Não são acontecimentos históricos, mas histórias inventadas a partir de situações reais e concretas do povo.

 

  •  Livros sapienciais e poéticos

Nestes livros nós temos a sabedoria e a espiritualidade do povo de Deus. São frutos, das caminhadas, das experiências da vida, do erros e acertos que o povo foi fazendo ao buscar a liberdade e a vida com o projeto de Deus. Assim, a sabedoria do povo de Deus presente nestes livros não é algo teórico, aprendido em outros livros ou em aulas, mas a sabedoria é fruto de meditação e da reflexão sobre a própria vida.

No livro dos Salmos, por exemplo, temos 150 orações sobre as mais diversas situações das pessoas e do povo, orações que brotaram de realidades que estavam sendo vividas. Nessas orações temos o modo como as pessoas e o povo se relacionavam com Deus.

Os livros de sabedoria são cinco: Jó, Sabedoria, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico. Os livros de poesia são dois: Salmos e  Cântico dos Cânticos.

 

  • Livros proféticos

Os livros proféticos são tradicionalmente divididos em dois grupos: os profetas maiores e menores, de acordo simplesmente com o tamanho dos livros. Os quatro maiores são Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.

Nos livros proféticos encontramos os escritos e as pregações dos profetas, aqueles que ao longo da história convocaram as lideranças e o povo para a conversão, a volta ao projeto de Deus, denunciando as situações injustas e alertando para o lulgamento de Deus.

Quando acaba o Reino de Israel e de Judá e o povo vai para o exílio, os profetas anunciam a esperança, encorajam o povo a reconstruir a própria vida e história, são os chamados profetas da consolação, que exercem sua missão também no período do exílio e pós-exílio.

 

Novo Testamento

  • Evangelhos

A palavra “evangelho” quer dizer “boa notícia”. Cada um dos quatro evangelhos Mateus, Marcos, Lucas e João narra a boa notícia de Jesus, vida e missão, desde o nascimento até a paixão, morte e ressurreição.

Os evangelhos foram escritos entre 30 e 70 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Foram escritos a partir das histórias que as comunidades recordavam da vida de Jesus e transmitiam de boca a boca. A preocupação, quando os evangelhos foram escritos, não era mostrar as coisas exatamente como aconteceram, como uma biografia do jeito que conhecemos hoje. As comunidades queriam manter viva a lembrança das ações e palavras de Jesus, de modo que a vida fosse sempre iluminada por elas.

Cada evangelho tem um rosto próprio. O evangelho de Mateus quer mostrar Jesus como o “Mestre as Justiça”, aquele que vem realizar toda a justiça do Pai. Marcos quer mostrar “quem é Jesus”, através de suas palavras, mas, sobretudo de suas ações. Lucas quer mostrar que Jesus “começa uma nova história”, a história da liberdade que Jesus vem trazer para os pobres e excluídos e que cria novas relações de fraternidade.

Esses três evangelhos são chamados “sinóticos”, pois seguem basicamente o mesmo esquema. O evangelho de João segue um esquema diferente, nele encontramos “sete sinais” realizados por Jesus, sinais que mostram Jesus como o verdadeiro Caminho para a Vida, como o enviado pelo Pai para revelar e concretizar seu plano de serviço e amor sem limites.

 

  • Atos dos Apóstolos

O evangelho de Lucas e os Atos dos apóstolos formam uma só obra. Enquanto no evangelho de Lucas temos o caminho de Jesus, nos Atos dos apóstolos temos o caminho das primeiras comunidades cristãs.

No evangelho, Lucas apresenta o grande caminho de Jesus, da Galileia até Jerusalém. Nos Atos dos apóstolos, ele apresenta o grande caminho dos discípulos de Jesus, de Jerusalém, até Roma.

A mensagem central dos Atos dos apóstolos é o testemunho dos discípulos, tendo recebido o Espirito Santo, eles divulgam a boa notícia de Jesus até os confins da terra.

 

  •  Cartas

As cartas que encontramos no Novo testamento podem ser divididas em dois grandes grupos: as cartas de Paulo e as cartas católicas.

A carta aos Hebreus, que antigamente se pensava que tivesse sido escrita por Paulo, na verdade é um sermão a respeito de Jesus Cristo como único sacerdote e único mediador entre Deus e os homens. Para os cristãos o que conta não é mais a Lei, mas a salvação que vem de Jesus Cristo.

As cartas de Paulo foram escritas para responder a situações concretas e resolver problemas específicos das várias comunidades que apóstolo acompanhava na sua evangelização.

As cartas católicas, ou seja, universais, recebem esse nome porque não foram escritas para pessoas ou comunidades em particular, mas para toda a Igreja. As cartas católicas são sete: uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas.

 

  • Apocalipse de João

O Apocalipse de João foi escrito para iluminar a vida das comunidades que enfrentavam a perseguição no final do primeiro século depois de Cristo.  Nesse livro encontramos muitas imagens e símbolos do Antigo Testamento que eram familiares ao povo da bíblia, mas que para nós muitas vezes dificultam a compreensão.

Ao contrário do que se costuma falar, a palavra “apocalipse” não quer dizer previsão sobre o futuro, mas “revelação”.

No Apocalipse, de fato, encontramos a revelação do próprio Jesus Ressuscitado, vencedor do mal e da morte, que conduz as comunidades nos conflitos e provações.

É um livro de resistência profética, pois convida a resistir diante das situações de morte, a denunciar e destruir o mal para anunciar o construir o bem pregado por Jesus.

 

Bibliografia base:

BAZAGLIA, Paulo. Primeiro passos com a bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.

BALANCIN, Euclides. História do povo de Deus. 7ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.

STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides. Conheça a bíblia. 9ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.