Vocacionados para o amor (I)

Em nossos artigos mensais, iremos trilhar, à luz da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja, um itinerário de descoberta do projeto de Deus ao longo da História da Salvação, de forma a reconhecermos existencialmente a Palavra do Senhor da Messe dirigida a todos os homens e mulheres de boa vontade.

Por meio do silêncio e do esvaziamento interior, o homem se abre ao mistério de sua existência. Ao se reconhecer como pequeno e finito, ele se torna um ouvinte da Palavra, de um sentido vindo da parte de Deus, que não pode ser fabricado ou deduzido pela razão humana. Fé cristã é a priori adesão a esse sentido comunicado na história, por meio da vocação de inúmeros homens e mulheres que foram transformados pela experiência do encontro com o Senhor.

Todo homem precisa realizar uma audição dessa linguagem amorosa de Deus presente também em sua vida, pois o fundamento de qualquer vocação humana é um encontro com o amor fontal, que liberta o ser humano das amarras do poder da morte. Somente a experiência do amor incondicional de Deus pode garantir ao homem uma existência sólida, capaz de suportar as tempestades do mar da vida. Conhecer as dores e os limites, mas também as alegrias e as potencialidades das pessoas é um fato imprescindível para chegarmos à certeza cristã de que todo homem é convocado para a relação, pois ele se move por amor e para o amor!

A vocação primeira do ser humano se concretiza na entrega à realização de sua condição de Filho de Deus, de irmão do próximo e de sentinela do mundo. A Sagrada Escritura confirma essa ideia e enfatiza que Deus chama Adão e Eva à vida e lhes confia a missão de guardar e de proteger toda a criação (Gn 1-2). Ao exercer essa tarefa, o homem e a mulher sacramentalizam, no mundo, a comunhão de vida desejada pelo Criador.

Se Deus é amor-comunhão, o homem realiza o seu chamado existencial, exatamente, nessa comunhão com o diferente de si. Ele reconhece a sua identidade no encontro com um Tu, que lhe dá a possibilidade de amar a diferença e de encontrar a unidade na beleza da diversidade da Criação. Com um amor gratuito, o homem avança na experiência da densidade da vida, sem o medo de perder-se na relação com o outro, por meio da indiferença, do autoritarismo ou da submissão.

Entretanto, se ele faz a opção pelo egoísmo e pela autossuficiência, nega o outro e o manipula segundo os seus desejos. Se o homem fecha os seus ouvidos para a Palavra de Deus presente em seu coração, torna-se desobediente e desfigura a sua vocação originária (Gn 3).

Por isso, antes de nos perguntarmos sobre a especificidade de nossa vocação cristã, precisaríamos indagar-nos sobre a nossa vivência do amor. Sem a prática do ágape, o homem se escraviza e vive o inferno do egoísmo e da solidão. Apaixonado pela própria imagem, afoga-se na busca de si mesmo. Com base nisso, proponho essas perguntas para você: O que, realmente, escolhemos: o amor ou o egoísmo? A relação ou a ruptura com o outro? Como viver, numa sociedade narcisista, a nossa vocação originária para o amor?

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro

(Jornal Diocese Hoje)

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