Cnbb › 25/10/2017

Transgêneros

Vivemos a era do que podemos chamar de “multiplicação do sexo”. O modo de viver a sexualidade está se tornando cada vez mais diversificado, ou seja, de acordo com alguns médicos e psiquiatras, sexo biológico, gênero, orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero — elementos que formam o comportamento sexual humano — não são opções divididas apenas entre o feminino e o masculino. São gradações e podem ser combinadas, dando origem a inúmeras possibilidades. Essa é uma ideia que vem tomando espaço nos debates na sociedade. Nossa reflexão, neste artigo, será sobre uma dessas possibilidades, pessoas transgêneros. O debate sobre este tema está presente em várias esferas da sociedade, como escolas, meios de comunicação, igrejas, novelas, páginas sociais, famílias etc.

Quem são as pessoas ditas transgêneros?
Cisgênero: “cis” significa “do mesmo lado” ou “ao lado de”, em latim. Ou seja, este prefixo faz referência à concordância da identidade de gênero do indivíduo com a sua configuração hormonal e genital de nascença. Cisgênero é o termo utilizado para referir-se ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu gênero de nascença.

Transgêneros são as pessoas que não se identificam com seu sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído biologicamente. Transgênero é, muitas vezes, usado para descrever alguém que sente que o seu corpo e sexo não são iguais. Isso porque eles se aproximam mais de um gênero distinto daquele que sua formação biológica e seu sexo indicam.

Conforme alguns autores, pessoas que alegam ser transgêneros sofrem de “disforia de gênero”, também conhecida como “transtorno de identidade de gênero”, ou seja, um transtorno psicológico. Disforia de gênero é quando a identidade sexual que a pessoa afirma ter é incompatível com seu corpo. Disforia é um sentimento de insatisfação, ansiedade e inquietação. É um distúrbio em que a pessoa não se identifica com seu sexo biológico, e afirma se sentir infeliz. No entanto, pessoas que escolhem assumir uma “identidade de gênero” diferente de seu sexo biológico são conhecidas como “transgêneros”.

As pessoas que têm disforia de gênero afirmam sentir que não são do gênero que fisicamente parecem ser. Por exemplo, uma pessoa que tem os órgãos genitais masculinos e todas as outras características físicas de um homem pode sentir que ele é, na verdade, uma mulher. Essa pessoa teria um intenso desejo de ter um corpo feminino para ser aceito por outros como uma mulher. Ou alguém com as características físicas de uma mulher iria sentir que a sua identidade é do sexo masculino.

Disso surgem algumas perguntas: é possível uma pessoa nascer “no corpo errado”? Crianças e adolescentes confusas a respeito do próprio gênero estão determinadas a ser transgêneros na vida adulta? Qual a posição da Igreja em relação à disforia de gênero?

A Associação American College of Pediatricians, nos Estados Unidos, divulgou, recentemente, um estudo sobre disforia de gênero e afirma que não existe evidência científica de que pessoas com disforia de gênero tenham nascido no corpo errado.

O que diz a genética?
Estudos de gêmeos revelam que, quando um dos irmãos se identifica como transgênero, apenas 20% das vezes o outro também se identifica. Essa pesquisa mostra que a disforia de gênero não é resultado de influências genéticas pré-natais ou hormonais. A grande maioria das pessoas que se identificam como transgêneros são homens e mulheres normais, tanto genética quanto biologicamente. A pesquisa ainda revela que a maior parte das pessoas com disforia de gênero na infância/adolescência não se identificam como transgêneros ao se tornarem adultas.

Conforme a embriogênese, quando os fetos são formados, a partir da fecundação do óvulo com o espermatozoide, há dois cromossomos sexuais, XX ou XY; se for menina, XX, se for menino XY. Os genes contidos nesses cromossomos determinam o desenvolvimento biológico e físico dos fetos. Desse modo, os embriões desenvolvem diferentes órgãos de acordo com seu sexo. Na puberdade, produzem muitos hormônios: a testosterona (no caso dos homens), ou o estrogênio e a progesterona (nas mulheres), que influenciam tanto na forma física e no desenvolvimento da pessoa, como em uma série de características emocionais, psicológicas etc.

Em um artigo publicado, em 7 de março 2017, no site Posición.pe, intitulado “Sobre a ideologia de gênero”, a doutora em biodiversidade, genética e evolução, Pamela Puppo, afirma que “não aceitar a ideologia de gênero não é discriminação, não é ser intolerante nem homofóbico”, mas “é simplesmente biologia”.

O sentimento não supera a natureza
A doutora sublinhou que, contrariamente aos princípios da ideologia de gênero, “o fato de nascer homem ou mulher não é cultural, mas biológico”. “Não me digam que quando uma mulher que está grávida faz o ultrassom para saber o sexo do bebê e pergunta ao seu médico se é menino ou menina ela está sendo homofóbica!” Além disso, a especialista adverte que “a ideologia de gênero não promove a igualdade entre os sexos, mas sim a assexualização do ser humano”. Entretanto, assinala, “o sentimento não supera a natureza”.

Diz a doutora: “Eu não posso mudar de acordo com a minha vontade. Se um dia decido ser um gato, esse sentimento não vai fazer com que eu tenha pelos nem que cresça um rabo em mim. Eu nasci mulher e tenho uma série de órgãos próprios: útero, ovários, vagina, vulva. Eu não tenho o direito de ter uma próstata!”.

A doutora em Biodiversidade, Genética e Evolução adverte que as pessoas que nascem com um sexo e depois sentem que não têm o sexo correto, “sofrem uma síndrome conhecida como ‘disforia de gênero’. Não é a regra, é a exceção. Não entrarei em casuísticas, basta dizer que essas pessoas devem ser respeitadas, amadas e acompanhadas”.

Ao finalizar seu artigo, dra. Puppo sublinhou que “a igualdade não é conquistada negando as nossas diferenças sexuais, mas alcançada por meio do respeito das diferenças de cada sexo e o que cada sexo contribui para a sociedade”.

O grande questionamento que surge é se a única opção oferecida a muitas pessoas com ou sem disforia de gênero é a mudança de sexo. Novelas, meios de comunicação e alguns profissionais apresentam como “solução” única mudar de sexo. Apesar dos fatos clínicos, muitas crianças com (ou sem) disforia de gênero estão sendo intensamente motivadas ou mesmo induzidas a mudar de sexo, e sendo submetidas a um protocolo de tratamentos hormonais e cirúrgicos precoces e contínuos. Porém, em vez de direcionar essas pessoas ao suporte psicológico, a cultura atual alimenta as suas ilusões. Muitos chegam ao extremo de submeter-se à cirurgia de “mudança de sexo”.

É preciso buscar ajuda
O importante seria uma abordagem mais compassiva para amparar as crianças/adolescentes com disforia de gênero, a psicoterapia para ajudá-las a adequar sua identidade de gênero a seu sexo biológico. A terapia com um psicólogo ou psiquiatra faz parte de qualquer tratamento para a disforia de gênero. Psicoterapia é uma maneira de ajustar conflitos interiores que essa condição pode provocar na pessoa. O objetivo não é simplesmente mudar a forma como a pessoa se sente sobre o seu gênero; é também lidar com o sofrimento que pode vir com esses sentimentos.

Além da psicoterapia, muitas pessoas optam por modificar a sua aparência física, de acordo com a forma como elas se sentem por dentro. Elas podem mudar a forma como se vestem ou querer usar um nome diferente. Elas também podem tomar remédio ou fazer uma cirurgia para mudar sua aparência. Essa mudança acontece ainda quando são crianças/adolescentes e, muitas vezes, são induzidas pela própria sociedade.

Crianças não estão em condições de dar um “consentimento esclarecido” significativo para procedimentos mais sérios e potencialmente arriscados, como é o caso de terapia hormonal ou cirurgias. Essas pessoas são levadas a pensar que, via de regra, a transição corporal de gênero é a única condição para obter o reconhecimento social da masculinidade/feminilidade autoidentificada.

A pessoa com disforia de gênero é levada a pensar que as modificações corporais são necessárias como forma de obtenção do reconhecimento social no gênero autoidentificado e um conforto psíquico. A condição da pessoa e a pressão social as coloca com ou sem disforia de gênero, com muita frequência numa posição de vulnerabilidade social, que as incentiva a estar em conflitos internos e, por vezes, tomar a iniciativa de se encaixar em normas de gênero mais pela pressão social que pelo seu desejo íntimo e pessoal.

Pesquisas mostram que a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia resolvem-na com o tempo, sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. Ainda, na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição.

Trecho de uma entrevista com Camille Paglia
Camille Paglia, feminista e lésbica, afirma que transformar o corpo cirurgicamente (para “virar” homem ou mulher) é uma ilusão. Segue alguns trechos de sua entrevista dada ao Jornal ‘Folha de São Paulo’ em maio de 2015:

Transformar o corpo cirurgicamente (para “virar” homem ou mulher) é uma ilusão. Há um número muito pequeno de pessoas realmente intersexuais. É uma anormalidade congênita. A maioria dos casos não é assim. Intervir no corpo, removendo o pênis ou os seios, é uma ilusão, porque todas as células do seu corpo permanecem sendo o que elas sempre foram. Simplesmente não é verdade que você mudou de gênero.

Eu acredito que é preciso respeitar o desejo das pessoas de transformar seus corpos, seja por motivos cosméticos, médicos ou de gênero. Cada um tem poder sobre o próprio corpo, e eu sou uma libertária neste sentido. Por outro lado, ninguém vai me convencer de que a Chaz Bono, a filha transgênero da atriz Cher, é um homem. Ele precisa tomar uma injeção de hormônios, todos os dias, para ser o que é, um transgênero, nunca um homem. Cada célula daquele corpo é uma célula feminina.

Qual a posição da Igreja Católica?
O Catecismo da Igreja Católica, no número 2333, ensina: “Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual”, este é o ideal cristão e o ensinamento da Igreja. Temos de considerar também algo importante, o Catecismo reconhece que existem pessoas com várias tendências sexuais, e que devem ser acolhidas e respeitadas.

Nessa mesma perspectiva, segue o Papa Francisco ao responder para o jornalista Josh McElwee, do National Catholic Reporter as perguntas: “Mas eu gostaria de perguntar o que diria a uma pessoa que sofreu por anos com sua sexualidade? Se realmente sente que é um problema biológico que seu aspecto físico não corresponde ao que ele ou ela considera sua identidade sexual. O senhor, como pastor e ministro, como acompanharia essas pessoas?” Responde o Papa: “Quando uma pessoa tem essa condição e chega diante de Jesus, o Senhor não lhe dirá: Vai embora, porque você é homossexual! Não!”.

Referências:
1 “Gender Dysphoria in Children” – American College of Pediatricians – June 2017 https://www.acpeds.org/the-college- speaks/position-statements/gender- dysphoria-in- children – consultado em 21 setembro 2017.

2 Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf

3 Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela
é geralmente precedida por outros transtornos: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-
015-0042- y

Padre Mário Marcelo
Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.

Fonte: formacao.cancaonova.com

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