Igreja no Mundo › 30/01/2020

Vida consagrada: sinal e profecia

“O Santo Padre insiste constantemente sobre a profecia como elemento imprescindível na vida consagrada. Essa não pode renunciar à profecia sem correr o risco de perder o sabor e, portanto, a sua razão de ser. A profecia é inerente à vida consagrada, dizia João Paulo II; a profecia é a nota que caracteriza a vida consagrada, lhe faz eco o Papa Francisco”, diz o arcebispo José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

Missa presidida pelo Papa Francisco em 2 de fevereiro de 2019 com os membros dos Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (ANSA)

Nicola Gori – Cidade do Vaticano

Vida consagrada é profecia. É, para usar um símbolo querido pelo Papa Francisco, como a água que corre para não estagnar. As pessoas consagradas estão sempre a caminho em busca do que Deus quer para elas e do que os fiéis lhes pedem. O L’Osservatore Romano conversou sobre isso com o arcebispo José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, na entrevista concedida ao por ocasião do XXIV Dia Mundial que será celebrado com o Papa Francisco no sábado, 1° de fevereiro, com a Missa na Basílica do Vaticano.

Como surgiu essa iniciativa e quais são seus objetivos?

É um fruto do Sínodo dos Bispos sobre a vida consagrada e da publicação da Exortação pós-sinodal Vita Consagrada em 1996. Com este dia, queremos alcançar três objetivos: tornar a vida consagrada conhecida e apreciada em toda a Igreja, não somente por aquilo que faz, mas acima de tudo pelo que é e significa; encorajar os próprios consagrados a continuarem a reflexão e o discernimento sobre sua identidade e missão na Igreja e no mundo, e fazer com que a Igreja se una aos consagrados de todo o mundo em louvor e oração pelo dom que Deus lhes deu com a vida consagrada. A Igreja não pode apreciar a vida consagrada somente por sua funcionalidade; ela não é apenas “mão-de-obra”, mas é antes de tudo sinal e profecia de outras realidades bem mais profundas. Os próprios consagrados, como todo o povo de Deus, não podem julgar a vida consagrada apenas pelo que aparece através de suas obras. De fato, muitas delas deverão ser revistas para verificar se respondem ou não ao carisma de seu instituto e à sua missão. A vida consagrada deve ser apreciada e valorizada por aquilo que é: uma forma profética de viver o Evangelho. Por outro lado, os consagrados devem continuar a discernir sobra a própria identidade e missão à luz do Evangelho, do próprio carisma e dos sinais dos tempos, sempre conduzidos pelo magistério da Igreja.

Existe um simbolismo que expressa a vida consagrada?

Os consagrados devem estar bem conscientes de que sua vida, como diz o Papa Francisco, é como a água: se não fluir, apodrecerá. Se a vida consagrada não quer ser somente admirada como uma peça de museu, mas se apresentar diante das pessoas como uma forma de vida bela e possível também para os outros, deverá perguntar-se constantemente o que Deus e o povo de Deus querem dela neste momento e nessas circunstâncias. O discernimento para responder a essa pergunta e colocar-se na direção indicada pelo Espírito é essencial. Por fim, os consagrados, que receberam o chamado de interceder pelo povo de Deus, também sentem a necessidade da oração coral da Igreja por eles: para que permaneçam sempre fiéis ao chamado do Senhor e à missão nas periferias existenciais e de pensamento, às quais o Espírito os impele neste momento por meio do rico magistério do Papa Francisco. E sempre sem esquecer de rezar para que o Senhor continue a enriquecer os diversos carismas com numerosas vocações.

O Pontífice indica a vida consagrada como “louvor que dá alegria ao povo de Deus, visão profética que revela aquilo que conta”. Como isso pode ser interpretado na vida cotidiana?

O Santo Padre insiste constantemente sobre a profecia como elemento imprescindível na vida consagrada. Essa não pode renunciar à profecia sem correr o risco de perder o sabor e, portanto, a sua razão de ser. A profecia é inerente à vida consagrada, dizia João Paulo II; a profecia é a nota que caracteriza a vida consagrada, lhe faz eco o Papa Francisco. A vida consagrada, assim como não pode renunciar à paixão por Cristo, o seu verdadeiro fundamento, tampouco pode renunciar à paixão pela humanidade, particularmente a humanidade vulnerável e ferida, que constitui sua missão. Ao ser profetas, e não somente em brincar de sê-lo, os consagrados jogam a sua credibilidade. A vida consagrada é chamada a manter acesa a lâmpada do profetismo, tornando-se um farol para aqueles que estão desorientados em alto mar, uma tocha para aqueles que andam nas trevas, uma sentinela para aqueles que não veem uma saída na vida. Ao mesmo tempo, não pode renunciar em dar voz àqueles que não a têm e exigir justiça onde não existe. Somente assim será uma vida profética, uma alternativa à cultura do descarte. No coração dos consagrador deve ecoar forte o convite do Papa Francisco: “Despertem o mundo! Sejam testemunhas de um jeito diferente de fazer, agir e viver!”. Ou ainda: “Na Igreja, os religiosos são chamados a ser profetas, a dar testemunho de como Jesus viveu nesta terra e a anunciar como o Reino de Deus será na sua perfeição”. Para responder a essa vocação, terá que buscar apaixonadamente a vontade do Senhor, anunciando a Boas Nova a todos, de preferência nas periferias existenciais; buscar novos caminhos para o anúncio do Evangelho, denunciando tudo o que é contrário à vontade de Deus. Como diz o livro de Deuteronômio ao falar de Moisés, o profeta deverá guiar o povo à escuta obediente da Palavra e se conformar aos planos de Deus na história (cf. 18, 15-24).

Nos próximos dias, se realizará uma conferência com a presença das monjas de clausura. Qual é o lugar delas na Igreja?

Após três simpósios e dois seminários celebrados nos últimos anos sobre a economia a serviço da vida consagrada, agora na conferência agendada para 31 de janeiro a 1 de fevereiro, queremos abordar a questão específica da gestão dos bens e do patrimônio na vida contemplativa. Parece-nos importante e urgente adequar essa gestão à legislação da Igreja, assim como é tratado no documento que há dois anos foi publicado por nossa Congregação: “A Economia a serviço do carisma e da missão”, sempre respeitando as normas do Direito Canônico e neste caso, também a legislação italiana. Por esta última razão, a conferência é dirigida às abadessas e às ecônomas de mosteiros na Itália. Em maio, um evento similar será realizado na Espanha. Além dos palestrantes de nosso Dicastério, especialistas em economia da Universidade Católica de Milão, com a qual colaboramos nesta área há vários anos, e também da Conferência Episcopal Italiana. Neste momento, mais de 400 contemplativos se inscreveram. Há também cerca de trinta convidados. A conferência conta certamente com o apoio do Santo Padre, que também permitiu que as contemplativas possam participar da Missa que presidirá na Basílica de São Pedro, no dia 1º de fevereiro, às 17h, com o motivo do Dia Mundial da Vida Consagrada.

(Vatican News)

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